terça-feira, 2 de novembro de 2010

À mercê dos humores do Mãozinhas


Porque será que depois de Pedro Passos Coelho ter anunciado que o PSD viabilizaria o OE 2011, os juros da dívida pública em vez de descerem, subiram?
Será porque os mercados financeiros se lembraram que Marcelo Rebelo de Sousa, nas suas homilias dominicais, durante a campanha para as eleições internas do PSD, lembrou repetidas vezes que Coelho era uma versão piorada de Sócrates? Será porque já perceberam que PPC diz uma coisa e o seu contrário com o maior à vontade?
Um dia recusa o aumento de impostos, no dia seguinte está a assinar o PEC II e a pedir desculpa aos portugueses por os ter enganado.Manifestou-se intransigente quanto à aprovação do OE, às terças quintas e sábados, mas acabou por o viabilizar numa noite de sexta-feira de intempérie. Minutos depois de ter anunciado o seu acto benemérito de salvar o país abstendo-se, PPC reuniu a sua equipa e mandou-os abrir a boca nos jornais. E o que disseram os seus mandatários, capitaneados por Nogueira Leite, aos jornalistas que almoçam com o líder laranja disfarçados de bloggers? Que o futuro de Portugal é desastroso, que não há razões para o governo se manter em funções a partir de Março, que o PSD não acredita na viabilidade do Orçamento que deixou passar e que na primeira oportunidade pode avançar com uma moção de censura. Traduzido por miúdos, PPC anunciou que não haverá estabilidade nos próximos tempos em Portugal e que as eleições a breve prazo serão inevitáveis.
Com excepção do Frankfurt Allgemeine, toda a gente lá fora percebeu a mensagem e os mercados reagiram negativamente, dando sinais que o número de circo não os convenceu e que têm dúvidas quanto às intenções do ilusionista Coelho.
Parece-me óbvio que PPC não quererá ser PM a curto prazo, caso contrário votava contra o OE. A sua actuação é da mais nojenta cobardia, revela um calculismo abjecto e, acima de tudo, indiferença pelo povo português. Quando PPC manda os seus capangas dizer na AR que é a última vez que dá a mão aos portugueses, apetece pedir a alguém que lhe corte as mãozinhas. Os portugueses não precisam de quem lhes estenda a mão, a pensar apenas nos holofotes.
Os próximos tempos serão difíceis e PPC só pretende chegar a S. Bento em período de bonança, para poder fazer umas flores. Só que os mercados estão-se marimbando para os jogos florais do líder do PSD e já perceberam que ele se está nas tintas para o país. PPC prefere a política de terra queimada, criar instabilidade e aparecer como salvador da Pátria em 2013,na expectativa de que nessa altura a crise se tenha atenuado. Só que não é isso que interessa aos mercados. Eles querem estabilidade e a imposição pacífica de regras que eles ditam através da sua porta-voz em Bruxelas. Não querem confusões, nem troca tintas. Querem um homem que aponte soluções, não querem cobardes.
Só que nem eles, nem os portugueses as conhecem, por uma simples razão: PPC não as pode divulgar, porque isso significaria nova queda nas sondagens. Escaldado com o que aconteceu depois da apresentação da proposta de revisão constitucional, PPC esconde o jogo aos portugueses, para não os assustar.
Seria talvez altura de o professor Marcelo lembrar novamente aos portugueses que PPC é uma versão piorada de Sócrates e que confiar neste PSD como alternativa ao governo, é dar um tiro no pé. Talvez isso acalmasse um bocado a euforia dos coelhistas e desse mais confiança aos mercados.

Quem me ajuda a decidir?

Perante os resultados deste estudo, decidi deixar de acompanhar as refeições com um ou dois copitos de vinho. No entanto, não sei qual será o melhor sucedâneo. Crack, heróina ou coca? A ideia de chutar na veia enquanto como não me agrada muito, mas gostaria de saber a vossa opinião. Quem me dá uma ajuda?

Caderneta de Cromos (22)

Avelino Ferreira Torres


Avelino Ferreira Torres anunciou o seu regresso à vida partidária e garante que será um regresso “em grande”. Tremo, só de pensar no possível significado da expressão, quando aliado a esta figura marcoense.Pensava, na minha inocência, que a vida política de AFT teria terminado depois daqueles processos rocambolescos em que esteve envolvido. (Sou tão estúpido, que nunca aprendo!)
O regresso de AFT, porém, não só é possível, como efusivamente saudado pelo líder da distrital do CDS/Porto, Henrique Campos Cunha. Sem rodriguinhos, o dirigente do CDS afirmou ver com naturalidade o regresso de AFT, “agora que tem uma vida limpinha e sem processos”.
A vida política portuguesa é mesmo assim. Um tipo pode ser condenado por falcatruas mas, desde que seja popular na sua freguesia, há sempre um partido disposto a recebê-lo de braços abertos. Não se admirem se a venda de OMO e outros detergentes que lavam mais branco cair abruptamente. E não culpem a crise, por favor, porque a queda das vendas é apenas consequência da feroz concorrência provocada pelo aparecimento no mercado destes detergentes alternativos.

Tea Party

Hoje é dia de eleições intercalares nos EUA. Se o Tea Party ganhar expressão significativa, nas escolhas dos eleitores americanos, o retrocesso está garantido e Obama poderá começar a pensar no seu futuro. Por cá, também teremos um Tea Party na Assembleia da República. Depois de ter jurado que nunca apoiaria um Orçamento de Estado que contemplasse mais aumentos de impostos, Passos Coelho vai celebrar com Sócrates a assinatura de um OE que não só aumenta os impostos, como irá garantir a recessão económica do país, o aumento do desemprego, o agravamento da pobreza, o fim do Estado Social. Entre palavras amargas e acusações mútuas, adocicarão o chá com a salvaguarda do seu futuro político e hipotecarão a esperança dos portugueses numa vida melhor na próxima década.
Brindarão, em chávenas de porcelana, ao esforço conjunto em garantir que os interesses do mercado não serão beliscados, cientes de que ambos serão oportunamente recompensados pela forma hábil como conseguiram convencer os portugueses de que o seu entendimento era essencial para salvar o país e não os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros.
Há no entanto uma coisa que não bate certo neste acordo, para além da falta de palavra de ambos os intervenientes. Devia ter sido assinado na Noite das Bruxas, na presença deCavaco Silva, que na sua condição de padrinho deveria perguntar: "Doçura, ou Travessura?"