sábado, 30 de outubro de 2010

Mau tempo no canal *


A manhã de ontem foi um autêntico pesadelo para os lisboetas. A chuva alagou a cidade, tornando-a intransitável em algumas zonas. Esta é uma cena vista todos os anos e as reacções populares e jornalísticas não deixam de ser igualmente repetitivas. Detenho-me, no entanto, em duas críticas muito comuns, que parecem renovar-se em tempo de tormenta, numa sincronização que me faz lembrar a chegada das andorinhas na Primavera.
A mais estafada é “ Isto só acontece em Portugal”. Mentira! Quem faz uma afirmação dessas, além de sofrer deste congénito umbiguismo só deve viajar no pico do Verão, caso contrário saberia que isso é vulgar ocorrer, durante o Inverno, em muitas capitais europeias. Londres, Paris,Roma ou Bruxelas, não estão imunes aos maus humores de S. Pedro, que de um momento para o outro decide despejar o autoclismo celeste. Talvez por andar distraído com a música que emana dos ipods,na corte celestial, não cuida do bem estar dos que cá andam em baixo em amarga labuta, sujeitos aos descuidos e desmandos celestes.
Se escolhi estas cidades, foi porque em todas elas já passei por provações idênticas. Também, em todas elas, assisti a reacções que em tudo se assemelham a outra das recriminações muito invocadas pelos portugueses que encontram eco da sua arengada na comunicação social: “A culpa é da Câmara, porque todos os anos acontece a mesma coisa e já deviam ter tomado medidas para evitar a situação”.
Estou em condições de poder afirmar que os actuais sistemas de drenagem de Lisboa não são em nada inferiores aos que existem noutras cidades europeias de maior dimensão e densidade populacional. As inundações provocadas pela intempérie radicam na morfologia específica da cidade de Lisboa e, essencialmente, na incúria cidadã. Cumprissem os lisboetas os seus deveres de cidadania e não teríamos um planeamento urbano caótico, as alterações do PDM não se fariam ao ritmo dos interesses dos patos bravos ou de conglomerados de lojistas que exploram o deslumbramento pacóvio do consumidor das berças, transformado em urbano, por força das migrações internas. É para seu deleite e encantamento que se constroem, com a complacência das autoridades e o lucro ignominioso dos promotores, condomínios privados ou dormitórios sub-urbanos em leito de cheia. Ou se erguem, dentro da cidade, centros comerciais gigantescos, cheios de luzinhas psicadélicas e chilreares metálicos de passarinhos electrónicos - prática vedada em algumas das principais cidades europeias, cujas autoridades obrigam a respeitar escrupulosamente regras de volumetria destas catedrais aonde os consumidores vão em peregrinação rotineira, satisfazer a sua volúpia consumista.
Convém, entretanto, lembrar uma vez mais que estas intempéries se tornaram mais intensas, mais localizadas e mais frequentes, agravando as consequências para os cidadãos. Há mais de 20 anos que cientistas e ambientalistas vêm chamando a atenção para estes fenómenos naturais, cuja frequência se irá intensificar. Deslumbrados com a parafernália da oferta consumista, maravilhados com os prodígios das tecnologias, adormecidos pelo ecrã que domina as nossas vidas e aumenta a nossa passividade, esquecemo-nos de pensar, de reflectir sobre as coisas. Ficamos paulatinamente à espera que nos impinjam a última novidade e, perante um fenómeno natural, uma catástrofe, reagimos como autómatos. Premimos o botão e desatamos a lançar as culpas sobre quem nós escolhemos para dirigir os nossos destinos, porque andamos muito ocupados para nos preocuparmos com essas minudências do planeamento urbano e do ordenamento do território.
Enquanto houver árvores que dêem telemóveis de última geração , ipods, ipads e toda a parafernália de bens de consumo com que nos deslumbramos, não temos tempo para nos preocupar com a Natureza.
Então, se é assim, não venham com lamúrias. É muito bem feito que S. Pedro despreze as regras de civismo terrenas e se esteja marimbando se os dejectos celestiais caem no mar, no deserto , ou nas ruas da cidade, provocando grandes transtornos aos autómatos que por cá habitam.

* Título roubado a um livro de Vitorino Nemésio

Sabotagem

Ontem, pela 11 da manhã, faltou a luz no meu prédio e adjacentes. Depois de muitos telefonemas para a EDP, cerca das 15 horas informaram que só pelas 22 horas seria restabelecido o fornecimento. Subi seis andares a pé, fui obrigado a adiar a intenção de partir à Conquista do Oeste para a manhã de sábado, porque era meia noite e népia. Recuso-me a aceitar que foi negligência ou marimbanço da EDP com os clientes. Caramba, Lisboa é capital de um país europeu e a EDP uma empresa conceituada...
Foi sabotagem da senhora Merkel, só pode. Avisada das minhas intenções, pelos serviços secretos alemães, mandou cortar a luz, para que eu chegasse atrasado ao destino e, entretanto,mandou liquidar os meus contactos. Espero não ter o exército alemão à espera, quando chegar ao Hotel. Nunca mais divulgo antecipadamente os meus planos, pronto(s)!

Perguntar não ofende

Finalmente, 36 pessoas foram constituídas arguidos no processo "Face Oculta". Só gostaria que me esclarecessem uma coisinha. O processo vai ser mais célere do que o dos amigos do professor Cavaco no BPN, ou também vão andar a encanar a perna à rã?