terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pedro, o Duro



Pedro Passos Coelho esteve hoje reunido com Sócrates para falar sobre o Conselho Europeu do próximo dia 29. Levou "testemunhas" como já havia anunciado anteriormente. Está no seu direito. O líder do PSD precisa de dar à opinião pública uma ideia diferente da que criou depois de se ter metido numa série de trapalhadas ( como Vasco Pulido Valente tem salientado até à exaustão) que o fizeram descer nas sondagens.

Esta postura de "durão", no entanto, não me convence. Faz-me lembrar um daqueles putos, com pretensões a líderes do grupo, que depois de "levarem com os pés" da miúda que todos queriam conquistar, tenta ultrapassar o enxovalho dizendo aos amigos: "Eh pá, dei com os pés à gaja. Ela não vale nenhum e é uma convencida. Não tenho pachorra para gajas assim".

Os amigos, que já o conhecem de gingeira, aplaudem a sua decisão mas, quando ele vira costas, comentam em galhofa: " O gajo tem a mania que é bom, foi bem feito ter levado com os pés". E vão todos jogar futebol, sem convidadrem o engatatão, porque estão farto das suas fanfarronices.


Às armas, às armas!

Na estação do Saldanha, entra um trio de velhotes. Ele senta-se ao meu lado e as duas senhoras ocupam os lugares em frente. Vinham em conversa animada mas eu, entretido com a leitura de “O Nosso GG em Havana”, de Pedro Gutierrez, não prestei atenção ao que diziam até ao momento em que o cavalheiro, elevando a voz ( talvez para dar mais força ao seu argumento, ou à espera que os restantes passageiros irrompessem numa salva de palmas aprovadora) sentenciou:
“ Pois é como lhes digo, isto só vai lá com uma Guerra Civil como a de Espanha em 37. Limpa-se o país dos “comunas” e desses tipos todos que só querem confusão e nem querem ouvir falar em trabalhar e vão ver se o país não vai em frente. Tudo o que fosse sindicalista devia ser fuzilado”.
Gelei ao ouvir a sentença. Há meia dúzia de anos, creio que era improvável ouvir uma conversa destas em público. Levantei os olhos do livro, ainda a tempo de ver a expressão das senhoras. Um misto de terror e conformismo, como quem comentava para os seus botões: “Pois se essa for a única solução, então que venha a Guerra”.
Por hábito não me meto nas conversas alheias, muito menos em transportes públicos. Desta vez, apeteceu-me mesmo dizer ao bárbaro que estava sentado ao meu lado, que a solução para a crise também passava por dar uma injecção atrás da orelha, ou enviar para apodrecimento num gulag, gente como ele. Contive-me. O homem,porém, precisava de aplausos e aquiescência para a sua teoria. Tocando-me com o cotovelo, perguntou:
- O senhor não concorda?
Respondi-lhe com uma pergunta:
- O senhor desculpe,mas que idade tem?
- Setenta e seis, meu amigo. E trabalhei no duro até aos 70. Foram 52 anos de trabalho e nunca faltei um dia.
-Então está a receber uma reforma, não está?
- Uma miséria. Não chega a mil euros, veja lá!
- Mas só começou a descontar depois do 25 de Abril, não é verdade?
- Pois, foi quando esses bandidos me começaram a descontar no ordenado. Até lá recebia o ordenado limpinho, sem ter de descontar para esses tipos andarem a gastar em automóveis e viagens e comesainas. É um fartar vilanagem!
- O senhor desculpe, mas se não descontasse, como é que queria que o Estado lhe pagasse a reforma?
- Ah, isso não sei, eu não sou político.
-Mas sabe que antes do 25 de Abril as pessoas não descontavam e também não tinham reformas pagas pelo Estado, não sabe?
- Olhe, mas vivíamos muito melhor nessa altura, porque poupávamos para a velhice!
-Pois vivíamos! As pessoas deixavam de trabalhar e morriam na miséria pouco tempo depois.
Uma das velhotas decidiu intervir.
- O senhor sabe quanto é que eu tenho de reforma? Não chega a cinquenta contos! Faz uma ideia da dificuldade que é viver com cinquenta contos por mês ?
- Felizmente não faço ideia e acho essas situações muito tristes, mas diga-me uma coisa: a senhora trabalhava?
- Trabalhava sim senhora, tive de cuidar de quatro filhos. Acha que isso não é trabalho?
-Mas nunca descontou para a segurança social, pois não?
- Se eu não ganhava ordenado como é que ia descontar? Olha qu’essa é boa!
- De qualquer modo recebe duzentos e cinquenta euros, não é verdade?
- 238! 238! Mais uns centavos, ou cêntimos, ou lá como é que se diz agora.
- Tem toda a razão, é muito pouco, mas há quantos anos está a receber essa pensão?
- Desde os 62. Tenho 78, faça o senhor as contas…
- São 16 anos. Há 16 anos que o Estado lhe está a pagar (uma miséria, é certo), mas a senhora nunca contribuiu em nada para a Segurança Social. E também não paga impostos, pois não? Sabe o que isso quer dizer? Que há 16 anos que o Estado está a pagar-lhe uma pensão e tem de retirar esse dinheiro de algum lado. Sabe onde tira? Àqueles que estão a fazer descontos (alguns há mais de 30 anos) a contar com uma reforma por inteiro, mas que não vão recebê-la porque o Estado tem que retirar-lhes, parte da pensão de reforma a que teriam direito, para pagar a pessoas como a senhora que nunca contribuíram com um tostão para o Estado.
( Pronunciei “para pagar a pessoas como a senhora” com especial ênfase. Acabava de lhe chamar parasita. Sabia que a minha argumentação não tinha qualquer base de sustentação, não tinha pés nem cabeça, mas foi a maneira que encontrei para humilhar quem se comportava daquela maneira infame . Mas ainda não tinha terminado…)
O velhote olhou para mim de soslaio, respirou fundo como a ganhar coragem para o que ia dizer a seguir:
- Já estou a ver que você ou é comunista ou é da pandilha do Sócrates e também anda a mamar.
- Sabe qual é a sua sorte? É que hoje esqueci-me da seringa em casa e não posso dar-lhe uma injecção atrás da orelha- respondi contendo a raiva.
Levantei-me e saí na paragem seguinte, percorrendo a pé o caminho até minha casa, para libertar a fúria. Quando estva na sala, a remoer a conversa, concluí que, afinal, ainda tenho de estar grato a estes velhotes, que me obrigaram a fazer uma caminhada suplementar.

Queixam-se de quê?

Magistrados do ministério público e juízes estão em pé de guerra com o governo, porque não aceitam a perda de algumas regalias, impostas pelo Orçamento de Estado. Acusar o governo de impôr as restrições para se vingar da classe, por causa de processos como o Freeport ou o Face Oculta parece-me indecoroso. Principalmente, depois de o relatório europeu sobre a eficácia da justiça ter concluído que apesar de os juízes serem dos profissionais mais bem pagos em Portugal, temos a segunda justiça mais lenta da Europa.
Seria altura de os senhores juízes e demais agentes fazerem mea culpa e explicarem aos portugueses as razões da morosidade da justiça. Em vez disso, o sindicato dos magistrados do MP vem insinuar que o governo manipulou o estudo. Se já nem os agentes que a manuseiam e aplicam mantêm decoro e compostura, o que podemos esperar da justiça?