terça-feira, 19 de outubro de 2010

Viagem ao hemisfério sul, pelas ruas de Lisboa

Acordo com saudades do hemisfério sul. Nem o sol ainda pálido que entra pela janela anunciando um dia esplendoroso, nem o azul imaculado do céu, conseguem transmitir-me um pouco de alegria. Ronceiro, cumpro o ritual da cepriega em jejum, barro as torradas com a manteiga de sempre, mastigo com enfado. O chá preto que veio substituir o mate escorre-me lentamente pelas goelas. Arrasto-me para a banheira e deixo-me fustigar pela água do chuveiro durante longos minutos, recuperando o prazer de me banhar nas águas de Quebrada de Humahuaca, ao dardejar dos primeiros raios de sol. Visto-me e saio para cumprir o ritual de todas as manhãs. Fico suspenso na chávena de café enquanto leio, no escaparate, as primeiras páginas dos jornais:
“ Portugueses vão enfrentar a crise com salário médio de 777 euros” (DN). O número, cabalístico, impressiona-me pela vacuidade do seu significado. O 7 é um número vazio, sem significado. Se o salário médio fosse 888 ou 999 euros, ainda podia haver esperança, pois são números risonhos , prenunciadores de fortuna.
“ Há cada vez mais gente sem dinheiro para comer”(JN) . Sinto a epiglote fechar-se num nó, barrando o caminho a qualquer alimento.
“Principal conselheiro económico de Passos Coelho diz que Governo perdeu o respeito pelos contribuintes” ( Público) Não percebo a razão desta notícia de primeira página. Desde Cavaco que a história se repete, por que razão só agora é notícia de primeira página?Será porque desta vez, alguém nos quer fazer acreditar que os mais ricos também vão pagar a crise? Ou será que vão pagar mesmo ( pelo menos uma ínfima parte) e estão revoltados com a afronta do governo? Fico na dúvida…
Na capa do mesmo diário uma notícia, acompanhada de foto a preceito, leva-me, finalmente, a esboçar um sorriso:
“Fiéis foram à missa de capacete, em sinal de protesto”. Estou-me nas tintas para saber a razão do protesto, manifestações políticas nas Igrejas são comuns desde o 25 de Abril. O ineditismo talvez esteja no facto de o protesto ter tido lugar em Lisboa. De qualquer modo, decido não comprar nenhum jornal, iniciando assim o meu combate à crise.
Ao princípio da tarde empreendo uma caminhada por Lisboa. Escolho o Rato para ponto de partida, seguindo depois pela Rua da Escola Politécnica. Deambulo por um Bairro Alto ainda meio adormecido, ressacando da vigília da véspera. No Largo do Carmo, as esplanadas estão cheias de turistas, sorridentes, gozando os favores de um sol prazenteiro. Ao descer a rua do Sacramento escorrego em caca de cão e quase me estatelo ao comprido. Dizem que dá sorte e logo à noite há sorteio do Loto 2. Mas isso não é válido para os lisboetas. Com tanto cocó de cão nas ruas, o mais difícil é mesmo não pisar uma cagadela. Palpita-me que este era grão fino. Devia ter acabado de debicar croissants com compota de frutos silvestres, na Bénard, e aliviou-se na primeira oportunidade, com o beneplácito da dondoca que, provavelmente a fazer contas à vida, preocupada com a redução de 10 por cento no seu salário de 5 mil euros, nem se apercebeu da indelicadeza do caniche.
Prossigo a caminhada ziguezagueando pelo Chiado, desço a Rua do Carmo e desaguo na rua Augusta, à procura de algo que me “toque” e faça sentir saudades de Lisboa. Ao contrário de outros tempos, nada sinto. Nem uma campainha tilinta no meu cérebro, os meus neurónios continuam insensíveis a tudo aquilo que os meus olhos captam. Há muita gente nas ruas. Gente de olhar fechado, caminhando em silêncio, cabisbaixa, como se transportasse aos ombros o peso do insucesso da Pátria amada. Sem nada para festejar, mas com muito para temer.
Por momentos deixo-me levar até ao reboliço da Calle Florida, entre a Avenida de Mayo e a Casa Rosada, onde àquela hora Cristina Kirchner deve estar reunida com os seus conselheiros, na tentativa de encontrar solução para a greve dos trabalhadores do lixo. As ruas de Buenos Aires a tresandar a lixo é coisa que não acontece desde os tempos do Corralito, já lá vai quase uma década. Maus odores é coisa que não se sente na Calle Florida, onde as pessoas passam em frenesim a caminho dos empregos, vozeirando, rindo, mastigando qualquer coisa de forma descuidada. Esta imagem devolve-me a Lisboa, traz-me à memória Cavaco Silva comendo bolo rei enquanto fala para as câmaras.
É hora de empreender o caminho de regresso. Junto ao elevador de Santa Justa, mais de uma centena de turistas aguarda a sua vez de subir e deixar-se conquistar por Lisboa. Olho em sentido contrário. O castelo de S. Jorge recorda-me Saramago e a História do Cerco de Lisboa. Quem está cercado neste momento, sou eu. De recordações. Os meus olhos humedecem, banhados por uma torrente de nostalgia e amargura.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………… O sol desapareceu há pouco no horizonte, deixando o Rochedo mergulhado numa penumbra fria. Pálido, anunciava a chegada do Inverno. Dentro de poucos dias, as noites passarão a ser mais longas, os dias cinzentos, chuvosos e tristes. Seria a ordem natural das coisas se no próximo mês de Março a Primavera irrompesse, viçosa e traiçoeira, inundando Lisboa com uma luz de esperança, batida por ventos prenunciando a bonança. O problema é que o Inverno que se anuncia ameaça prolongar-se por muitos meses. Provavelmente anos. Sem esperança, para a maioria, de voltar a enxergar nos tempos mais próximos a Primavera, quanto mais o Verão do bem –estar, da despreocupação, a que nos habituámos.
Já é noite cerrada em Lisboa. No hemisfério sul, os índios da Quebrada de Humahuaca preparam os seus rituais de boas vindas e anunciarão pela primeira vez, num Dazibao, a chegada do Verão, em dia certo. No hemisfério sul, o Inverno das ditaduras patrocinadas pelos mandatários do Tio Sam, já lá vai. O sol primaveril anuncia a chegada do Verão. Milhões de pessoas libertar-se-ão da pobreza, muitas sentirão pela primeira vez o prazer de se banhar nas ondas do mar. Olham para o futuro com esperança, acreditam que o Verão virá para ficar.
"Aqueles" índios da Quebrada de Humahuaca continuarão a regular-se pela passagem do Tren a Las Nubes para o ritual da mudança das estações, com a certeza de que a Natureza se renovará ciclicamente, porque não sabem o que é um telemóvel , desconhecem a Internet, estão imunes às más notícias porque não têm televisão, não lêem jornais e... nunca jogaram na Bolsa.


Imparcialidade incómoda para Lula

Sem surpresa, Marina Silva anunciou, ontem, que não apoia Dilma nem Serra na segunda volta das presidenciais brasileiras, a realizar no dia 31.

Com as sondagens a aproximarem os dois candidatos, a neutralidade de Marina Silva e do Partido Verde que a apoiou, irá provavelmente acabar por beneficiar Serra. Para um europeu, pode parecer que os brasileiros são mal agradecidos, se não elegerem a candidata de Lula, o presidente que transformou o Brasil. Em minha opinião, não é isso que efectivamente se passa. Na verdade, muitos brasileiros não vêem em Dilma uma sucessora de Lula e encontram poucas diferenças entre os dois candidatos. Para os 20 por cento de brasileiros que votaram em Marina, seria ela a sucessora natural de Lula e não Dilma. Perante os candidatos que se apresentam ao segundo turno, a escolha é-lhes mais ou menos indiferente, mas há pequenos pormenores, como a despenalização do aborto ( defendida por Dilma e rejeitada por Serra) que numa sociedade muito católica e, malgré tout, bastante conservadora, poderão fazer pender a balança para Serra. Penso que Lula menosprezou o peso de Marina Silva e talvez a esta hora tenha percebido que desprezar os votos na surpreendente outsider foi um erro. No entanto, a eleição de um ou outro candidato não deverá pôr em risco a imparável ascensão do Brasil no panorama internacional. As pequenas diferenças entre ambos é que poderão marcar rumos divergentes nessa caminhada ascendente. E isso, convenhamos, pode fazer toda a diferença num futuro próximo.