quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Resgate


Durante quase 24 horas o mundo esteve de olhos postos num pequeno ponto de um dos mais inóspitos locais do planeta que alguma vez conheci. O deserto de Atacama não é só o mais alto do mundo, é “o deserto”. Quando por lá andei, tive por diversas vezes a sensação de estar a pisar a superfície lunar, percorrendo os mesmos locais de Neil Armstrong em 1969. Especialmente quando cheguei a Valle de La Luna, onde pude assistir a um dos mais arrepiantes pôr-do-sol em toda a minha vida, dei por mim a pensar que aqueles que põem em dúvida a chegada do homem à Lua, se devem ter inspirado naquelas paragens, apesar de a vegetação e a fauna serem mais exuberantes do que em qualquer outro ponto do deserto de Atacama.
Bem, mas não foi para vos falar do deserto de Atacama, nem da “conquista” da Lua, que decidi escrever este post, mas sim para vos descrever tudo aquilo em que fui pensando enquanto assistia ao resgate dos 33 mineiros, soterrados nas minas de S. José.
O show mediático montado à volta da operação deve ter provocado imensa inveja nas Endemol do mundo televisivo, que já devem ter neste momento alguns criativos a trabalhar na produção de um remake que torne o Big Brother numa brincadeira para crianças.
A indústria cinematográfica, sonhando com mega produções capazes de cativar receitas de bilheteira astronómicas, também já deve ter colocado os seus melhores guionistas a trabalhar nos argumentos adaptados das histórias de vida de alguns mineiros. E boas histórias não faltam. O mineiro que pediu à mulher e à amante para estarem presentes no momento do seu resgate, o ex-futebolista, o que vai ver pela primeira vez a sua filha, ou o jovem de 19 anos que trabalhava ilegalmente na mina, (os mineiros têm de ter pelo menos 21 anos), são susceptíveis de dar bons argumentos para um filme, um seriado, ou mesmo uma telenovela.
Os publicitários não perderão o ensejo de convidar alguns mineiros para protagonizar anúncios a cervejas, atum e leite, ou mesmo aos óculos de sol que cada um trazia no momento do resgate. Alguns mineiros irão mudar de vida, outros voltarão ao seu trabalho, porque não têm outras condições de sobrevivência.
Enquanto os 33 mineiros soterrados eram içados por um vaivém subterrâneo que os ia trazendo um a um, de volta à vida, centenas de outros mineiros com salários em atraso viviam outros dramas de sobrevivência.
Quando o resgate terminou, recordei alguns posts que escrevi aqui no CR. Afirmei então que o Chile era o país da América Latina mais parecido com Portugal e pelas piores razões. Creio que vou ter de rever a minha posição, depois deste episódio. Se bem se lembram, quando a 22 de Agosto se percebeu que os mineiros estavam todos vivos, o governo chileno começou por anunciar que o resgate só poderia ocorrer por volta do Natal e admitiu que nem todos pudessem ser salvos. Os prazos foram sendo encurtados sucessivamente, dando ânimo aos mineiros e aumentando as expectativas de sucesso entre a população chilena. O tempo anunciado para o resgate, assim que começou a operação, era de três dias, mas acabou por ser concluído em menos de 24 horas. Ou seja, tudo foi preparado minuciosamente, de molde a que a redução dos prazos permitisse reforçar a força anímica dos mineiros.
Não tenho dúvida que se o desastre tivesse ocorrido em Portugal, tudo se passaria ao contrário. Os prazos iriam sendo dilatados e a impaciência dos mineiros iria enfraquecendo o seu ânimo.Não se trata de um aspecto de somenos importância. Nem para os mineiros, nem para o presidente Sebatien Piñera, um remake chileno de Berlusconni, mas com mais tacto.Foi esta estratégia que lhe granjeou a admiração dos media, cujo efeito multiplicador lhe permitiu capitalizar este episódio para aumentar a sua popularidade. Quando um jornalista chileno lhe perguntou se a situação dos mineiros com salários em atraso se iria resolver, Piñera apenas respondeu “que isto não volte a acontecer”.
Durante uns tempos, Piñera - um saudosista dos tempos de Pinochet – vai estar em estado de graça e quase aposto que alguns jornalistas gongóricos não deixarão de aproveitar este episódio para estabelecer paralelismo descabidos entre Chavez e Piñera. Vale uma aposta?
Aviso: Espero voltar na próxima semana à presença diária por aqui e por aí. Até lá, fiquem bem!