domingo, 10 de outubro de 2010

Licões do Nobel




Chego tarde para comentar dois prémios Nobel que sempre me merecem especial atenção ( ainda falta o da Economia, que também aguardo com expectativa…)
Começando pelo Nobel da Literatura, atribuído a Vargas Llosa, só peca por ser tardio. Há muito tempo que o escritor peruano, um arrependido que virou à direita, fazendo o mesmo percurso de alguns ateus convertidos à Fé, merecia receber o Nobel, porque a sua obra é notável e não se deve confundir nunca a obra literária de um autor com as suas opções políticas. A Academia do Nobel redimiu-se, mas está ainda a dever uma distinção à América do Sul, nomeadamente à Argentina. Jorge Luís Borges morreu sem nunca ter sido distinguido, o que considero uma tremenda injustiça.
Quanto ao Nobel da Paz, a coisa pia mais fino. Já em 2009, quando Obama foi distinguido, manifestei a minha decepção pelo facto de a política ter sido determinante na escolha. Obama estava à frente dos destinos dos EUA há pouco mais de seis meses e nada justificava a atribuição de um Nobel com tão grande significado, a alguém que nada fizera ainda pela paz. O tempo, infelizmente, veio a dar razão às minhas reticências. Este ano a política voltou a falar mais alto.
É certo que a atribuição do Nobel ao dissidente chinês é justíssima, mas é demasiado óbvio que a escolha serve de pretexto para um ataque à China, que me parece inadmissível.
A mania de ver o mundo inteiro só com os olhos do Ocidente parece ter atacado a Academia que, ao escolher o dissidente chinês para premiar a paz, desenterrou o machado de guerra contra a China.
Obama aproveitou para exigir a libertação de Liu Xiaobo, sendo de imediato secundado pelos fiéis servos europeus.
Já conhecemos o conceito de liberdade dos americanos, principalmente aqui pela América Latina. Só os líderes servis a Washington são respeitadores dos direitos humanos. Depois temos Guantanamo, outro belo exemplo de defesa dos direitos humanos, praticados pelos Estados Unidos. Finalmente, um país que infectou propositadamente centenas de cidadãos guatemaltecos com sífilis e gonorreia para fazer experiências científicas merece, obviamente, o aplauso do mundo inteiro.
Não deixa também de ser irónico que os países europeus, onde a xenofobia e o desprezo dos direitos dos imigrantes está a alastrar de forma alarmante, se congratulem pelo facto de o Nobel da Paz ter sido atribuído a um homem que luta há mais de duas décadas pela defesa dos direitos humanos na China. É caso para dizer “Bem pega Frei Tomás…”
O cúmulo da hipocrisia é o mundo ocidental insurgir-se contra a China, por desrespeitar os direitos humanos. Não é esse mesmo ocidente que ao fortalecer diariamente os laços económicos com a China (seja através da deslocalização de empresas, seja pelas trocas comerciais cada vez mais intensas) está a incentivar a manutenção de salários baixos e condições de trabalho por vezes sub humanas? O Ocidente só se preocupa com a violação dos direitos humanos, quando se trata de questões políticas. Pouco importa aos cínicos lideres ocidentais que as pessoas vivam com salários de miséria, morram de fome ou cansaço, não tenham as mínimas condições de trabalho, se em causa estiver a Economia.
Nesse casos fingem que está tudo no melhor dos mundos e vão depositar em "off shores" as mais valias oferecidas pelos agentes economicos, a quem cumulararam de privilégios enquanto estiveram no poder.