quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Peixinhos da Horta

Fui dos que aplaudi a escolha de Queiroz, mas também fiquei decepcionado com a sua fraca prestação no Mundial da África do Sul. Isso não me impede de continuar a apreciar Queiroz, considerá-lo melhor treinador que Scolari e, simultaneamente, pensar que seria benéfico para a selecção ter outro seleccionador para a campanha europeia. Gostaria , no entanto, que a substituição se fizesse de forma transparente, pagando a Queiroz a indemnização contratual. Infelizmente, parece que a substituição será feita “à portuguesa”, ou seja, recorrendo a expedientes, para evitar cumprir um contrato.
Não me interessa, por agora, saber se há conluio entre a FPF e a ADoP, para tramar Queiroz e conseguir uma rescisão com justa causa. Mais importante do que isso é recordar toda a gama de pulhices que envolvem esta trama.A infracção de que Queiroz é acusado pela ADoP ( obstrução ao controlo anti doping) ocorreu em Maio, mas o processo só veio a ser conhecido depois da eliminação de Portugal, pela equipa que seria campeã mundial. Tivesse Portugal chegado às meias finais e o processo teria sido arrumado numa gaveta mas, como a prestação portuguesa foi fracota ( e Queiroz teve responsabilidades nisso) os amanuenses de serviço saíram a terreiro em defesa da dignidade ofendida. Fizeram-no respaldados nas palavras inoportunas e infelizes do secretário de estado do desporto Laurentino Dias que deveria ter-se remetido ao silêncio , mas não resistiu e pôs a boca no trombone, lançando suspeições para de seguida se escusar a esclarecer o alcance das suas afirmações. Não foi bonito…
O Conselho de Disciplina da FPF aplicou uma sanção a Queiroz, mas refutou a acusação de interferência do seleccionador nacional no controlo anti-doping. De qualquer modo, decidiu abrir desde logo novo processo a Queiroz , que poderá redundar em nova condenação e abrir caminho ao despedimento com justa causa.
Aconselharia o mais elementar bom senso que os amanuenses encartados e cheirando a perfume de rosas aceitassem a decisão do CD da FPF, mas há gente que gosta de mostrar serviço ao chefe e, por isso, a ADoP avocou o processo. Horta declarou-se impedido e passou a bola a Sardinha, presidente do Instituto do Desporto de Portugal, que aplicou uma suspensão de seis meses a Queiroz o que, entre outras consequências, permitirá satisfazer as pretensões da FPF.
A ADoP não ouviu Queiroz. Zurziu na FPF por ter concluído que não houvera obstrução oa controlo, reuniu o concílio de “lambe botas” e ditou a sentença. No Irão o processo não seria de espantar mas, num país que se reclama democrata, é obsceno. Não sei se Sardinhas de lata ligam bem com peixinhos da Horta, mas tenho a certeza que ambos se estão borrifando para a selecção nacional.
Esperemos que a ASAE do Desporto Internacional confisque as Sardinhas e os peixinhos da Horta e despeça o cozinheiro . A culpa até pode não ser da qualidade dos peixinhos mas é, certamente, da fraca qualidade do óleo que o cozinheiro usa para os fritar e da massa que os envolve, revolvendo-nos o estômago com tanta obscenidade.

Pausa para publicidade (22)


Na hora do adeus...

Depois deste episódio, deixei de frequentar a Versailles. Não me queria ir embora sem lá voltar. Hoje fui lá almoçar. Foi gratificante a forma calorosa como fui recebido pelos empregados que durante anos se habituaram a ver-me quase diariamente.

Estranha forma de vida

São onze horas da manhã. Como acontece habitualmente, desde há dois anos, o protagonista desta estória está plantado entre o café e a mercearia do bairro, com uma “mini” na mão. Saber se está sóbrio ou bêbado, só é possível depois de trocar algumas palavras com ele e lhe sentir o bafo. Apesar de ter pouco mais de 40 anos, o álcool já há muito lhe marcou o rosto e condicionou os movimentos, num desequilíbrio e descoordenação permanentes, a que não faltam alguns tiques indiciadores de um distúrbio nervoso. Chamemos-lhe Américo.
Conheço-o há sete ou oito anos e desde sempre o vi de grão na asa. Os trabalhadores da construção civil- talvez pelo seu trabalho árduo- têm bastante propensão para se tornarem alcoólicos e Américo nunca foi excepção. No entanto, diz a toda a gente que o interpela sobre o assunto, que apenas começou a beber devido a um desgosto de amor. Só se engana a si próprio. Quem o conhece, sabe a sua história. Vivia com uma porteira de um prédio das imediações a quem fez quatro filhos, nos intervalos das tareias com que a mimoseava. O réu não era ele, pois agia em nome do interveniente líquido que lhe comandava o cérebro e impulsionava os gestos. Pelo menos era essa a justificação que sempre apresentava depois de cada sova e que a companheira foi aceitando, em troca de promessas de regeneração. Um dia, há um par de anos, percebendo que Américo e o álcool eram companheiros inseparáveis e tinham selado um pacto para a vida, ela chamou a polícia e despediu os dois.
Há umas semanas, Américo abordou-me na rua. Contou-me que tinha agora uma nova companheira e queria “endireitar a vida”. Queria voltar a trabalhar, mas já fizera inúmeras tentativas sem sucesso. Poderia eu ajudá-lo, com os conhecimentos que tinha? Pareceu-me sincera a vontade de Américo em se converter. Na sua exposição de motivos, os olhos embaciaram-se-lhe quando me falou dos filhos e da vergonha que sentia por não ter dinheiro sequer para lhes dar um presente no aniversário ou no Natal.
Poucos dias antes tinha terminado umas reformas no meu rochedo. Obras que se atrasaram porque a pessoa que contratara para as fazer, conhecida de longa data, se queixara da dificuldade em encontrar pessoas que quisessem trabalhar. “Vêm trabalhar uns dias, mas assim que têm dinheiro no bolso vão gastá-lo em copos e mulheres e deixam de aparecer, até acabar o dinheiro”- justificou-se. Aceitei as desculpas como boas.Perguntei a Américo se queria voltar a trabalhar na construção civil e disse-lhe que tinha uma pessoa amiga que talvez o pudesse contratar. Respondeu-me prontamente que sim, agradeceu-me inúmeras vezes e logo me convidou para lhe fazer companhia numa mini, por sua conta, numa manifestação de reconhecimento e celebração antecipada. Recusei polidamente. Ele insistiu. Talvez um uísque?.
Expliquei-lhe que bebia pouco e só depois do anoitecer. Aceitou a justificação, renovou os agradecimentos e rematou:
“Então, senhor doutor, já sabe onde me encontrar. Fico-lhe muito agradecido”.

Providenciei um encontro entre entidade patronal e candidato numa manhã de sábado, à mesa do café. Quando lá cheguei, acompanhado do empregador, já Américo estava sentado. Em vez da mini, tinha à sua frente uma chávena de café. Fiquei surpreendido mas, assim que me sentei, percebi que o café fora acompanhado por uma generosa dose de bagaço.
Américo não estava sozinho. Trazia consigo a nova companheira. O olhar baço não deixava dúvidas. Amélia ( chamemos-lhe assim) não era só companheira de cama. Também partilhava os copos com Américo. Algumas marcas negras bem visíveis também indiciavam que o seu corpo já experimentara o vigor das manifestações “afectivas” de Américo. Feitas as apresentações, passou-se ao assunto que nos convocara para aquela reunião magna.
Ouvida a proposta, Américo vacilou. Fez umas contas de cabeça, cochichou qualquer coisa com Amélia e respondeu:
- Bem, assim não vale a pena. Eu e a Amélia estamos a receber novecentos euros do Rendimento Social de Inserção e o que você me paga a mais não dá para o comer.
Senti-me incomodado e com vontade de lhe bater. Pedi desculpas ao potencial empregador pelo incómodo da deslocação. Olhei em redor tentando não denunciar a minha ira. Esbarrei o olhar numa simpática velhota que conheço há muitos anos e com quem costumo ter algumas conversas amigáveis. Era uma pessoa alegre, até ao dia em que a irmã morreu, mas mantém o sorriso doce que sempre me cativou. Era a reforma da irmã que sustentava a casa. Quando ela morreu, a vida da senhora, com 76 anos, ruiu. Vive de umas economias deixadas pela irmã e de uma reforma de subsistência pouco superior a 200 euros. Há dias contou-me que se tinha candidatado ao RSI, mas lhe fora recusado. Não tem sequer dinheiro para comprar os medicamentos de que precisa, mas não é pessoa de se queixar. Nas próximas eleições lá estará ela, como sempre, com a bandeira do PS, a distribuir autocolantes e propaganda.

Saí para apanhar ar, na companhia do empregador mal sucedido.
“ Espero que o senhor compreenda, mas não posso pagar mais. Ofereci-lhe o que pago aos meus empregados mais antigos”.
Não se preocupe. Já tinha visto este filme. Despedi-me. Voltei a entrar no café. Américo e Amélia estavam ainda sentados, mas a companhia agora era outra. Duas minis repousavam sobre a mesa.

Sento-me à mesa da velhota. Fico a saber as últimas “novidades” do PS. Entusiasmada, garante-me: “ se o Coelho quiser eleições antecipadas, vamos ganhar outra vez!”.
Na mesa do casal, Américo pediu mais duas "minis". Provavelmente para afogar as mágoas da sua desdita. Ainda não fora desta vez que arranjara emprego. Maldita sorte!
Aviso: embora por vezes possam parecer surreais, todos os posts com a etiqueta CENAS retratam episódios verídicos que presenciei ou vivi. Este, não escapa à regra.

Imagens da nossa memória (33)


Espero não ter esquecido nada para a viagem...

Pelo país dos blogs (86)

A Guerra Colonial e a querela entre militares e Lobo Antunes, não escapou à análise do jornalista. O meu amigo Arnaldo Gonçalves não gostou. E com razão, porque há momentos em que o silêncio dos jornalistas deveria ser de ouro, e não palavras lata.