segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Relativismo cultural

Relativismo cultural não é pretender justificar mortes por lapidação, com hábitos e costumes, sejam eles religiosos ou não. É cruzarmo-nos com um habitante de Goroka (Papua Nova Guiné) que veste apenas uma tanga e tresanda a bosta por todos os lados e perceber que ele vai para uma festa tribal e se untou de caca, com a mesma naturalidade com que uma figura do jet set mergulha num frasco de Channel antes de ir para uma vernissage.

Imagens da nossa memória (30)

Vamos lá engomar? Ou será brunir?

Direitos Humanos

O direito à alimentação, à água, ao saneamento básico, à habitação, à segurança social, a cuidados de saúde, ao trabalho ou à educação são, para qualquer português que não sofra de claustrofobia mental, direitos básicos e inquestionáveis, não é verdade? São aquilo a que convencionalmente chamamos direitos básicos. Por isso, a necessidade de assegurar a sua satisfação é tão óbvia que não merece qualquer contestação. Se alguém decidisse organizar uma manifestação que visasse a garantia destes direitos a todos os portugueses, muitos leitores não deixariam de esboçar um sorriso.
No entanto, talvez muitos não saibam que estes direitos só recentemente foram incluídos no Tratado de Direitos Humanos da ONU! Porquê? Porque muitos países ( incluindo alguns ocidentais ) não contemplam esses direitos na suas leis fundamentais. Pelo contrário, nos países de Leste, pertencentes ao antigo bloco soviético, esses direitos estavam consagrados em lei desde os anos 20 do século passado, mas sempre foram considerados, pelos países ricos, como direitos menores.
Curiosamente, insurgimo-nos contra os países onde não há direito à liberdade de expressão, de reunião, ou de religião, mas não nos manifestamos contra os países onde, por exemplo, o direito de acesso à água – um bem essencial à vida - não está garantido a todos os cidadãos.
Ignoramos – porque nos convém?- que a luta pelo acesso à água é uma das maiores causas de guerras neste século XXI , e já provocou milhares de mortos, mas aqui d’el-rei se Chavez encerra uma televisão ou um jornal.
Manifestamos o nosso pesar face à guerra do Darfur- cuja origem está na luta pela água- mas vamos passar férias para um resort de luxo All Inclusive nas Caraíbas, com todas as comodidades, várias piscinas e comida à fartazana, ignorando que os habitantes de algumas dessas localidades onde estão instalados esses resorts não têm acesso a água potável, porque foi desviada para satisfazer as necessidades dos turistas.
O relativismo cultural também é isto. Não é apenas uma questão de direito à liberdade de expressão, ou à liberdade religiosa. Há quem não compreenda isso e viva confortado na sua superioridade moral.

Contos do Gin Tónico

Revolvo os livros do meu baú, escolhendo alguns que quero levar comigo. Entre algumas relíquias esquecidas fui lá encontrar os "Contos do Gin Tónico" do Mário Henrique Leiria (editado em 1973) .Uma preciosidade. Ao reler alguns dos contos veio-me à memória o Mário Viegas a dizê-los numa noite inesquecível em Macau. Não consegui separar a leitura da sonoridade e da plástica que ele emprestava aos textos. Um autêntico dois em um!
Já agora, aqui ficam três exemplos para recordar quem os leu e aguçar o apetite a quem os desconhece!...

TORAH
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés. Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente. Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro. No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei. Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já. Alguns foram. Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico. Depois disso, é o que se vê.

NOIVADO
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias deternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.É o que faz a miopia.

ÚLTIMA TENTAÇÃO
E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida. Ficaram os dois numa desesperante frustração. Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!

Pausa para publicidade (19)


Aproveitem enquanto o calor anda por aí...