sexta-feira, 30 de julho de 2010

Crónicas do meu baú (10)

Um sonho em Euros
1 de Janeiro de 2002. Com os 10 euros que pudera levantar do meu banco uns dias antes, dispus-me a fazer a minha primeira compra em euros. Felizmente, o café da Isabel estava aberto e a minha primeira compra seria ali, no local onde todos os fins-de- semana fazia a primeira leitura dos jornais. E, naquele dia, havia uma compra especialmente entusiasmante. Os sonhos que a própria Isabel confeccionava e que não tinham rival na cidade inteira.Decidido, entrei. Olhei para a Isabel e descortinei, no seu olhar, restos de um “réveilon” consumido com entusiasmo, mas certamente também com pressa, porque fora preciso levantar cedo para ter a porta aberta. Esta constatação refreou-me um pouco o entusiasmo. Seriam os sonhos iguais aos que me acostumara, ou teria Isabel, na ressaca do “reveillon”, desleixado um pouco a sua confecção? Decidi arriscar.
-Isabel! Pode-me embrulhar um sonho, por favor?
- Como posso embrulhar-lhe um sonho?- respondeu sem esconder a malícia que nos olhos amendoados. Os sonhos não se embrulham...
-Não é desses que está a pensar. Esses são cor de rosa e desses eu já não tenho há muito tempo, Isabel!
-Quer então dizer que só tem pesadelos?
-Sim... mas esses também não são sonhos, não é?
-Está, bem, está bem... Quer então um sonho para comer! Normal ou miniatura?
-Pode ser miniatura. Com esta idade, já não tenho direito a grandes sonhos. Mas talvez esse me ajude, logo à noite, a ter um sonho cor de rosa.
- Se fosse a si levava um dos grandes, sempre é capaz de fazer mais efeito! Mas o senhor é que sabe...São 85 escudos, por favor!
- Bem, mas eu não tenho escudos...só euros!
-Ah! Pois... já me esquecia. Deixe cá ver quanto é que isso dá em euros. Onde está a máquina do euro, Manel?
(Solícito, Manuel entra em cena com a euro calculadora em riste, que entrega a Isabel. Operação feita, vem a sentença...)
-São 42 cêntimos...
Entreguei uma moeda de 50 cêntimos e esperava pelo troco, quando a voz do Manuel ecoa da cozinha:
-Fizeste mal as contas, Isabel! O preço em euros é de 43 cêntimos!
-Mas eu fiz as contas com a calculadora do Euro, Manel, e o que lá está é 42 cêntimos!
-É? Então vê lá quanto é que são 42 cêntimos em escudos!
Isabel pegou de novo na euro calculadora, arregalou os olhos e exclamou surpreeendida:
-Pois é! 42 cêntimos são 84escudos. Assim sendo, tenho de lhe cobrar 43 cêntimos!
-Alto lá!- vociferei. Então quanto é que são 43 cêntimos em escudos?
( Mãos nervosas mexendo na calculadora e a resposta incrédula):
-43 cêntimos são 86 escudos!
-Então em que ficamos? Se me cobra 42 cêntimos fica a perder 1 escudo, se me cobra 43, fico eu a perder um escudo. Como não quero ficar a perder, o melhor é voltar cá amanhã e pagar-lhe em escudos...
-Mas tem outra solução- alvitrou Isabel sem tirar os olhos da euro calculadora.
-Então qual é?-perguntei.
-Leve 2 sonhos em vez de 1. Paga 85 cêntimos, que são exactamente 170 escudos, o preço de dois sonhos...
Acedi e levei comigo os dois sonhos. Afinal (pensei com os meus botões...) sempre poderei fazer feliz alguém que, logo à noite, aspire a ter um sonho cor –de – rosa! O pesadelo da inflação pode esperar.

(Crónica escrita em Novembro de 2001, para uma campanha de divulgação do euro, na revista "Consumidores")

Esquina da Memória (10)


O Porto foi, noutros tempos, uma cidade cheia de pujança económica e cultural . Hoje, apesar da sua inigualável beleza, parece estar moribunda. Há quem culpe o "traidor" Fernando Gomes e a falta de amor ao Porto, de Rui Rio, como os principais culpados do estado a que o Porto chegou. Há também quem aponte o dedo ao governo de José Sócrates, acusando-o de ter abandonado o Porto à sua sorte, ao negar o apoio a alguns investimentos na cidade ( o caso mais recente da esmola para a requalificação da zona ribeirinha, parece dar-lhes razão).
Independentemente das culpas que possam caber aos autarcas que têm servido (mal ) a cidade e aos governos que a têm ignorado, a verdade é que os portuenses também pouco têm feito para evitar o descalabro.
É certo que o Porto se levantou em protesto ( dizem-mo, mas não estava em Portugal para testemunhar) quando quiseram entregar um dos seus ex-libris- o Coliseu- à Igreja Maná. Alguns ( poucos) protestaram contra a decisão de Rui Rio entregar o Rivoli a Filipe La Féria e outros houve ( também poucos) que ergueram a sua voz contra o encerramento do Mercado do Bolhão. Não serão, porém, as reacçõos pontuais dos portuenses que permitirão evitar o que se adivinha: a perda de influência da cidade nos destinos do País. Não foi certamente por culpa do poder político que desapareceram quase todos os jornais do Porto. Foi o desinteresse dos portuenses em relação àqueles títulos.
Os portuenses estão muito orgulhosos- e com razão- com o Museu de Serralves e com a Casa da Música, apontando-os como exemplos de uma cidade voltada para cultura. Ficam orgulhosos da sua Ribeira, do seu repovoado centro histórico ( o atentado perpretado por Rui Rio na Av. dos Aliados parece ter-lhes passado à margem...) e do seu papel em defesa da liberdade, em momentos determinantes da nossa História. Mas isso chega? Não me parece.
Exibir algumas Jóias da Coroa como prova de vitalidade é próprio de famílias arruinadas que se agarram a elas para demonstrar que ainda estão vivos. Infelizmente, não estão... O Porto está moribundo e os portuenses comprazem-se em culpar terceiros da doença, adiando a procura da receita certa, para recuperar a cidade enferma.O Porto precisa de uma transfusão de sangue , não de placebos! Precisa de rejeitar o bairrismo provinciano que ainda corre nas suas veias e substituí-lo pela "intelligentsia", pelo empreendedorismo local, revitalizando a indústria e o comércio locais. Precisa de conservar os vultos da sua cultura, evitando a sua sangria para Lisboa ou para paragens ainda mais longínquas na Europa e além -mar. O Porto precisa de gente que goste da cidade, que a ame e a queira voltar a colocar no mapa. Os portuenses não podem continuar a olhar indiferentes para a fuga do seu mais importante capital- as pessoas.O Porto não pode ficar indiferente ao desaparecimento da sua imprensa, porque nela reside a sua força. Como não pode ficar indiferente ao desaparecimento de um clube como o Boavista FC , uma instituição com mais de 100 anos que faz parte da sua história. Os portuenses têm de expulsar dos centros de decisão os Miguéis de Vasconcelos que estão a contribuir para o seu descrédito- chamem-se eles Ricardo Costa, Sílvio Cervan, Fernando Gomes ou Rui Rio- e apoiar quem, vivendo na cidade a tempo inteiro, está interessado em revitalizá-la.Depois, é engavetar o bairrismo, meter as mãos à obra e lutar para que a cidade recupere o seu prestígio e a sua influência. O Porto merece que os portuenses lutem por ela!
( Post escrito em Agosto de 2008. Recordo-o enquanto escrevo outro post. Os três candidatos à presidência do PSD, nas últimas directas, são todos do Norte. Tinham necessidade de ir para Lisboa discutir o futuro do Porto?)

Pelo país dos blogs (67)

Bem analisado o dilema de Pedro Passos Coelho, por Luís M. Jorge.