sexta-feira, 16 de julho de 2010

Crónicas de Graça #15

A Escrita
Quando, em miúdo, comecei a viajar na companhia dos meus pais, levava sempre comigo um caderninho de apontamentos onde registava as minhas impressões diárias. Funcionava como uma espécie de máquina fotográfica pessoal, cujas fotografias só eu podia ver.
Esse hábito de hoje em dia andar sempre acompanhado de um pequeno bloco de notas – a que uma amiga chama “o teu observatório”- remonta a uma idade em que eu ainda mal sabia alinhar as palavras. Essas páginas onde aponto aquilo que diariamente observo armazenam um manancial de informação que me é preciosa e, por vezes, passo a escritos mais elaborados- vulgo crónicas.
Chego a esta idade sem, todavia, saber explicar se escrever é para mim, vício, prazer, catarse ou apenas uma necessidade orgânica tão natural como matar a sede. Apenas vos sei dizer que não consigo adormecer sem escrever umas linhas. Muitas vezes, o que escrevo antes de me deitar não chega a ver a luz do dia mas, só confortado com a oração intimista da escrita consigo dormir tranquilamente as cinco ou seis horas que me ajudam a retemperar forças.
Ao contrário do que acontece com algumas pessoas , a escrita raras vezes me surge como uma tarefa penosa, sofrida, arrancada a fórceps das entranhas do cérebro, como se cada texto fosse um parto sofrido. É certo que já senti, várias vezes, a angústia da folha de papel em branco, já passei por aqueles momentos desconfortáveis em que olho para o teclado e só vejo letras que sou incapaz de articular em palavras. Nesses momentos tenho a sensação que desaprendi de falar, mas nunca entro em pânico, receoso de não conseguir entregar um qualquer trabalho a tempo. Sei que o bloqueio se resolve com oxigenação.
Levanto-me da secretária, vou até à varanda ou desço à rua, olho à minha volta e, de repente, sinto as palavras chegarem até mim, desprendendo-se dos ramos de uma árvore, ou soltando-se de uma nuvem no horizonte. Outras vezes, vou dar com elas refasteladas num banco de jardim ou simplesmente a insinuarem-se num diálogo de rua. Regresso a casa, volto a sentar-me à secretária, alinho-as no teclado e componho o texto.
Seja por exigências profissionais, seja apenas por lazer, a escrita para mim é tão importante como respirar. Foi por isso que, há quase três anos, criei este blog. Numa fase menos boa da minha vida profissional, ditada pelo encerramento da revista de que era editor e com alguma dificuldade em encontrar quem desse guarida aos meus projectos, comecei a escrever umas crónicas que guardava numa pasta do computador. Era uma forma de ter um novo olhar sobre as coisas. Um dia lembrei-me de criar um blog para as arrancar da solidão. Foi assim que nasceu o Crónicas do Rochedo.
Pensava, na altura, que o blog seria apenas a versão electrónica do caderninho de apontamentos de que vos falei no início. Um DAZIBAO quase clandestino. Ciente de que alguns passantes viriam a ler o que escrevia, mas longe de imaginar que esse número chegasse a atingir as três centenas diárias. Muito menos pensei na possibilidade de um blog me vir a proporcionar o prazer de um convívio diário tão agradável com tantas pessoas.
Descobri o fascínio de escrever num blog quando começaram a chegar os primeiros comentários. A início esporádicos, depois mais numerosos e persistentes. Na caixa de comentários estão gravados diálogos riquíssimos entre os leitores, nalguns dos quais também participei.O blog deu-me uma nova perspectiva sobre a partilha da escrita. A possibilidade de diálogo, quase imediata, entre quem lê e escreve , o feedback de quem nos lê. É gratificante constatar como a escrita pode criar elos entre as pessoas. Foi o que aconteceu com estas Crónicas de Graça. Eu não conhecia a minha querida parceira, mas os comentários que ela ia deixando e os posts que ia lendo lá no Ares levaram-me a lançar-lhe o desafio para esta parceria, iniciada em Outubro do ano passado. Tem sido, para mim, uma experiência muito rica este diálogo quinzenal, onde a escrita, mais do que um acto solitário é partilha.
Mas não só as séries de televisão e as telenovelas que chegam ao fim. A minha querida parceira vai de férias e as CG ficam-se por aqui. Quero agradecer-lhe esta parceria que, sem falsas modéstias, creio ter sido inovadora na blogosfera e proveitosa e agradável para os dois. A avaliar pelos comentários que foram chegando às nossas caixas de correio, acredito que também muitos leitores partilharam connosco esse prazer.
Aprendi, na minha vida de andarilho, a nunca dizer adeus . Não gosto de despedidas. Mesmo num destino longínquo podemos encontrar o ponto de regresso. As CG ficam por aqui… mas quem sabe se um dia não encontram o ponto de regresso noutras paragens?
Não é verdade, minha querida parceira?