terça-feira, 13 de julho de 2010

É o mercado a funcionar, estúpidos!

Os bastonários das Ordens dos Advogados e dos Médicos reagiram mal ao aumento do número de vagas para entrada nas Faculdades de Direito e Medicina.
Marinho Pinto afirma que há excesso de licenciados em Direito. Apesar de ser uma evidência, isso não significa melhor justiça e melhores leis. O excesso de juristas e advogados apenas se traduz no aumento de motoristas de táxi, empregados bancários, caixas de supermercado ou operadores de call centers licenciados.
Pedro Nunes, por sua vez, considera excessivo o número de vagas em Medicina porque, alegadamente, “não há capacidade para empregar tantos médicos”. Ora esta afirmação do Bastonário dos Médicos causa-me, no mínimo, alguma perplexidade. Se há médicos a mais, por que razão há tantos concursos para hospitais do interior que ficam desertos, obrigando o governo a contratar médicos cubanos e ucranianos? E como se justifica que, havendo médicos em excesso, um terço do pagamento a médicos dos hospitais portugueses seja relativo a horas extras? Parece-me que não bate a bota com a perdigota…

No entanto, quando começo a passear pela bloga e a ler as reacções contrárias ao alargamento do número de vagas, percebo melhor. A lógica da reacção corporativa não escapa a uma leitura ataenta. Curioso é que muitos dos que são contra o aumento do número de vagas, são acérrimos defensores de Pedro Passos Coelho e das suas ideologias liberais, o que mostra a sua consistência mental e ideológica. Querem o mercado a funcionar mas, quando lhes tocam na coutada, aqui d'el rei que me estão a estragar o negócio. São uns patuscos estes neo-liberais que não percebem que o mercado idealizado pelo seu mentor se rege pela Lei da Selva: salve-se quem puder!

Vale uma aposta?

Com a embrulhada que o governo e o PSD arranjaram em relação às SCUT, quem se vai tramar é o funcionário público. Com a descida do rating pela Moody's e a necessidade de arranjar até final do ano o dinheiro perdido com as SCUT, o governo vai eleger mais uma vez os funcionários públicos como bode expiatório, entregando-os em sacrifício à turba dos chulos e agiotas.
Aqueles que conduziram o mundo à actual situação, não deixarão de ficar reconhecidos ao governo pela redução dos salários, o corte de parte (ou a totalidade) do subsídio de Natal, e a aquisiçaõ, pelo governo, de cerca de mil viaturas novas para satisfazer o mercado.
Enquanto o povo se revolta contra Sócrates, Pedro Passos Coelho está a rir-se baixinho. Atira as pedras e esconde a mão, na certeza de que com essa estratégia conquistará o coração dos portugueses.
Herdará um país com um tecido social em ruínas mas - acolitado pelos blogs oficiosos, que vão tecendo loas à humildade e nobreza do novo líder laranja- assumirá o papel de Salvador da Pátria, acolitado por Durão Barroso que desempenhará o papel de Presidente da República. Há sempre um lugar na História reservado aos traidores...
Fujam enquanto é tempo, porque este país está quase a bater no fundo e a ser tomado de assalto por um bando de torcionários a soldo do grande capital.

Na esquina da memória (6)

Portugal não é apenas esse país exótico que inventou os PIN para viabilizar projectos turísticos, comerciais ou industriais em áreas protegidas, ou altera um PDM num piscar de olhos, para proteger a actividade de um sucateiro cuja influência pode ser importante no resultado eleitoral de um concelho recôndito.
Portugal é o país do “jeitinho”, do “empenho”, (“ ó sr doutor, se me arranjasse qualquer coisa ao miúdo que anda há dois anos ao alto sem conseguir trabalhar… Obrigado stôr), onde (quase) ninguém já acredita ser capaz de mostrar o seu valor se não tiver um encosto, um padrinho, uma “cunha”.
Portugal é, também, um dos países europeus onde os cidadãos mais fogem ao cumprimento dos seus deveres fiscais, utilizando as mais imaginativas artimanhas para iludir o Fisco.
Em Portugal, não é só o merceeiro que rouba no peso do fiambre. Também o médico ou o advogado evitam passar recibo sobre os seus serviços e, quando lho exigem , vai de carregar sobre o preço da consulta.
No final de uma refeição num restaurante, há sempre um empregado solícito que pergunta “deseja factura?” na esperança de que o cliente responda “ deixe estar, não é preciso”…Quando pedimos a um electricista, um canalizador, ou um carpinteiro, algum serviço em nossas casas, a pergunta sacramental, antes de fazerem o orçamento é: "quer recibo?" Ou seja, quer que lhe ponha mais 20 por cento de IVA na conta?Claro que o português não quer, por isso responde logo: "não, deixe lá isso!"
Portugal é o país onde a Segurança Social detectou, nos últimos meses, 80 mil infractores. Ou seja, 80 mil cidadãos que se locupletaram indevidamente com quantias que não lhe eram devidas, pagas por todos nós. Baixas fraudulentas, gente a receber subsídio de desemprego, enquanto trabalha noutro local, ou está a gerir o seu boteco.
Portugal é o país onde a alta finança se move tranquilamente em off shores, a banca está sempre sob suspeita e as gasolineiras aumentam o preço dos combustíveis quando desce o preço do petróleo.
Resumindo: somos um país de vigaristas!Perante este panorama, espanto-me quando vejo os portugueses obcecados e deprimidos com a ideia de um conselheiro de Estado ser um troca tintas ou de um PM ter metido a mão na massa de um “outlet”. Mas afinal não são os nossos governantes portugueses? Não pertencem eles à oligarquia de interesses de um Centrão que governa o pais há mais de 30 anos, retribuindo-se favores e prebendas, partilhando salomonicamente os cargos decisórios?
O Centrão lembra-me, com inusitada frequência, o comportamento de duas famílias que lutam pelo poder de uma região. Convivem alegremente nas festas de casamento entre membros dos clãs, fazem discursos elogiando o significado daquela união, mas vão ao funeral dos membros da família adversária com aquela doce sensação de que ganharam mais poder com o seu enfraquecimento. Perdem a compostura e sacam de naifas ou revólveres, para eliminar o adversário, no momento em que a conquista de uma posição favorável no tabuleiro de xadrez depende de uma ida às urnas. Encarniçam-se, fazem jogo sujo, mas unem-se para alertar os seus súbditos que a luta se limita aos dois clãs.
Sinceramente, não tenho pachorra para tanta mesquinhez. Estou fora deste filme, porque quando se trata de lutas de “famiglia”, prefiro o recurso ao DVD, para ver os requentados episódios de “La Piovra”! Ao menos, aquilo (acreditam alguns) é apenas ficção. Parafraseando aquele “graffitti” na cidade do México, onde se podia ler “Basta de realismo, queremos promessas!”, apetece-me dizer:
Basta de telenovelas noticiosas, queremos saber o fim da história!
( Escrevi este post num outro blog há mais de um ano, mas permanece tão actual, que decidi partilhá-lo aqui convosco)

Perda irreparável

Carla Quevedo, a Bomba Inteligente, considera o encerramento do jornal “24 Horas” uma péssima notícia para a imprensa em Portugal. Pelo menos ficamos todos a saber que não é só a Brites a confundir o 24 Horas com um jornal…
Os argumentos esgrimidos por Carla Quevedo são, porém, muito mais burilados. Na sua avalizada opinião, o desaparecimento de um “tablóide sensacionalista e desenfreado” é uma perda irreparável. Ora leiam só isto:
“ A liberdade de imprensa é um valor fundamental no desenvolvimento de uma democracia saudável. Sem esta ( do 24 Horas, presumo…) possibilidade de intervenção jornalística descomprometida ficamos mais pobres”.
Um dia destes aparece por aí outra convocatória para uma manifestação em defesa da liberdade de expressão. E é muito bem feito!

É só para lembrar...

...a todos os que manifestaram vontade em participar nisto, que podem começar a enviar os vossos contributos.

Pelo país dos blogs (55)

Excelente esta reflexão da Ana Paula Fitas, que merece uma leitura atenta