segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Pas de nouvelles..."

Olho para o tom verde-azulado deste mar imenso à minha frente e deixo-me invadir pela tristeza. Como sempre não consigo ter saudades do meu país mas, desta vez, sinto um grande alívio por estar longe. Por ter escapado aos comentários idiotas de alguns escribas de serviço que não deverão ter deixado escapar a oportunidade de zurzir em Saramago, na hora da sua morte, aproveitando a generosidade de editores e directores acéfalos, que lhes concedem espaço nos jornais para destilar todo o seu ódio anti-comunista.
Um dia depois de atravessar a fronteira, esqueci-me de Portugal. Não quero saber notícias, é-me indiferente o que por aí se tenha passado durante este tempo. É-me indiferente se os jornalistas do costume inventaram mais um escândalo envolvendo Sócrates, se as sondagens perspectivam a vitória de um labrego engravatado, se o governo caiu e se os blogueiros do costume continuam a fazer aquela pergunta idiota e cretina: estamos melhor que há quatro anos? Não estamos? Então a culpa é do Sócrates.
Asseguro-vos que nada há melhor para descansar, do que estar dez dias sem ler jornais e só ligar a televisão para ver jogos de futebol, mas preocupa-me este desinteresse pelo que se passa no mundo em geral. Se bem me lembro, no último fim de semana ter-se-á realizado mais uma cimeira do G-20. Se estivesse em Portugal estaria a escrever sobre o que por lá se passou e sobre a (eventual) incapacidade dos líderes políticos na resolução dos problemas que afectam o mundo. Como não estou em Portugal, nem sei o que se passou em Toronto, sinto um grande alívio e uma indiferença própria dos néscios.
Estou-me marimbando para o que se passa no mundo. Só me interessa este mar imenso à minha frente, o sol que pela manhã invade generosamente o meu quarto, convidando-me a uma longa caminhada pelo areal fronteiro, esta brisa refrescante que sopra ao fim da tarde, o peixe fresco que foi sacrificado para deleite do meu palato.Na varanda do meu quarto, com este imenso mar aos meus pés, despeço-me do sol e dou as boas vindas à lua cheia que me irá fazer companhia durante a noite. O frappé está preparado para receber uma garrafa de vinho branco. Lá fora, no jardim, mãos hábeis aprimoram-se na azáfama da preparação do peixe. Não lhe conheço o nome, mas o cheiro que emana do grelhador provoca-me uma reacção pavloviana , porque já lhe conheço o gosto e a textura.
A ZDF já fez a ligação a um estádio qualquer na África do Sul, onde se vai disputar mais um jogo do mundial. Na marina há veleiros preparados para se fazerem ao mar. Um deles está à minha espera, para me levar ao derradeiro encontro nocturno com a lua cheia, bailando ao ritmo de canções de outros verões.Que se passará pelo mundo?
Se houver alguma coisa importante a registar, a minha companheira da noite não deixará de me comunicar. Até lá continuo a seguir a velha máxima “pas de nouvelles, des bonnes nouvelles”.
Gostava de, pelo menos uma vez na vida, sentir saudades de Portugal e vontade de regressar. Ainda não vai ser desta.