sexta-feira, 11 de junho de 2010

Crónicas de Graça #13

Mundial de Futebol
- Diário de um Fanático
Um dia alguém perguntou à escritora Dorothee Sölle como explicaria a uma criança o que é a felicidade e ela respondeu:
“Não explicava. Dava-lhe uma bola de futebol”.
No dia em que começa o Mundial de Futebol na África do Sul a pergunta pode ser formulada de outra maneira. Como é que um governo pode aliviar a pressão provocada pela opinião pública e pela comunicação social, em tempo de crise? Ou ainda: como fazer feliz o povo de um país em crise?
A resposta é óbvia: “Oferecendo-lhes um Mundial de Futebol”
Durante os próximos dias, milhões de pessoas em todo o mundo vão passar, diariamente, horas diante da pantalha vendo os jogos da selecção do seu país e os dos adversários, fascinados com os seus ídolos, correndo atrás de uma bola que gira sobre um tapete verde.
Quem não gosta de futebol não percebe o fascínio de um jogo em que vinte jogadores correm atrás de uma bola, para a introduzir entre três paus colocados dentro de um rectângulo branco, tentando iludir a vigilância de outros dois que defendem aquele espaço como guardiões do Templo. Por isso, será tentado a parafrasear Juca Chaves e perguntar "por que razão não oferecem uma bola a cada um, para acabar com aquele espectáculo tão sem graça?"
Se não é amante de futebol, nunca faça essa pergunta a um fanático da bola. O fanático faz parte da essência do futebol. Não só apoia a selecção do seu país, como não perde nenhum dos jogos que envolva selecções de outros países. Não se pense, porém, que a actividade do fanático se resume a ver os três ou quatro jogos que a televisão lhe oferece diariamente – o que equivale a oito horas de trabalho. O dia de um fanático, é muito mais do que isso.

O Aquecimento
O verdadeiro fanático iniciou o período de aquecimento quando as televisões começaram a fazer programas especiais dedicados ao evento e deu dinheiro ao filho para comprar a primeira carteira de cromos para a caderneta, mas será nos próximos 30 dias que estará mais atarefado. Muitos, incapazes de aguentar a pressão, metem férias, porque os dias de um fanático da bola, durante o Mundial, são sobrecarregados.
O dia começa cedo, com a leitura dos jornais desportivos que relatam as ocorrências dos jogos da véspera- que já viu, mas quer confirmar se não lhe escapou nada. É que às vezes, um lance que viu e reviu mais de 20 vezes e confirmou com os seus próprios olhos que não era falta, pode ser analisado de uma forma diferente por um jornalista especializado na matéria.
Se o fanático pertencer ao sub-grupo dos fanáticos gregários, esta informação pode ser importantíssima, porque uma vez na posse dela estará habilitado a discutir com o grupo uma nova visão do lance. Além do mais, o fanático gosta de saber as opiniões dos comentadores sobre as exibições dos jogadores de cada equipa e ler as declarações dos que não foram ao “flash interview” depois do jogo. E há ainda aqueles pormenores de bastidores relatados nos jornais, que só leitores apaixonados pelo futebol estão habilitados a descodificar.
Como já perceberam, é de extraordinária importância, para o fanático do sub-grupo gregário, recolher uma vasta quantidade de informação antes de reunir com os outros elementos do grupo. A hora do encontro e a ordem de trabalho são variáveis. Depende do interesse dos jogos do dia. No entanto, haverá sempre um ponto prévio para confrontar os prognósticos dos jogos da véspera e fazer as apostas para os jogos do dia. Só depois deste período é que se entra na Ordem do Dia.



Primeira Parte
Nos dias em que a selecção do seu país entra em campo a reunião começará, pelo menos, duas horas antes do jogo e haverá dose reforçada de “bejecas” acompanhadas por camarão de Espinho e uns salgadinhos para aconchegar o estômago ou ajudar à digestão, consoante a hora do jogo. O importante, é que no momento em que o árbitro apite para o início da “contenda”, os fanáticos já estejam “quentinhos”.
Após os primeiros minutos , vistos em religioso silêncio, com os olhos fixos no ecrã,um dos elementos do grupo protesta contra uma falta mal assinalada pelo árbitro a favor da selecção adversária. A partir deste momento vale tudo, dependendo das ocorrências, da evolução do jogo e do resultado, o tom do discurso entre os presentes. Quando a bola faz balançar as redes, as reacções variam de acordo com o “véu da noiva”que foi violado. Se foi o da equipa adversária, todos se erguem em festejos, trocam beijos e abraços e alguns mais facilmente emocionáveis deixam escapar uma lágrima furtiva. Se foi o da “sua” selecção, rostos de desânimo misturar-se-ão com impropérios ao guarda-redes, que passará de imediato a ser conhecido como “nabo” ou “filho da p…”.
Terminado o jogo, o treinador também não escapará às invectivas dos fanáticos que de imediato exigem a sua demissão, havendo um mais afoito que depois de lhe chamar todos os nomes que a sua enciclopédica memória insultuosa armazenou, sugere que se faça uma petição nesse sentido, a apresentar ao presidente da Federação e ao membro do governo com a pasta do Desporto.
Um fanático mais ponderado sugere que se espere pelo jogo seguinte e pede mais uma “rodada de bejecas” para aliviar a tensão e a dor. Incapazes de suportar o desgosto, alguns dos elementos dispersam, prometendo voltar no dia seguinte. Cada um vai para sua casa descarregar a ira na mulher que, ao vê-lo entrar, olha para o relógio e nem pergunta o resultado, receosa de uma reacção intempestiva que a obrigue a inventar uma história para contar às colegas do serviço no dia seguinte, quando uma delas perguntar “onde fizeste essa nódoa negra?”.
Se a selecção do fanático ganha, o grupo prolonga as comemorações noite dentro, acompanhadas de muitos vivas e doses generosa de álcool. Quando chega a casa, já a mulher está a dormir e no dia seguinte ele nem dará pela sua saída, pois só se levantará uns minutos antes de nova reunião , onde todos irão discutir as incidências do jogo e preparar mais uma jornada de trabalho diante da pantalha.


Segunda Parte
Nem todo o fanático é gregário. Há também o fanático solitário, que prefere ver o jogo em casa, na companhia do filho mais novo. Normalmente só vê os jogos da sua selecção e um ou outro que considera mais importante. No entanto, o fanático solitário não dispensa o cachecol, a bejeca e comidinha a tempo e horas, se o jogo cai em cima da hora do jantar.
Alguns equipam-se a preceito, mas os que não o fazem, incitam o filho a fazê-lo e a empunhar uma bandeira. O fanático solitário também não dispensa alguns rituais. Uma hora antes de começar o jogo já está sentado no sofá a ver “o lançamento do jogo” com uma cerveja na mão e uns aperitivos na mesa de apoio comprada no IKEA para estas ocasiões.
Consciente das suas funções de educador, pede ao filho a caderneta de cromos que começou a coleccionar no mês anterior e indaga se já sabe o nome dos 640 jogadores. Ao terceiro falhanço, diz “assim não vais lá Joãozinho, tens de estudar mais”, devolve-lhe a caderneta de cromos, bebe mais uma golada de cerveja, engole uns amendoins que estavam em promoção no Continente e olhando a garrafa vazia manda o filho ir buscar outra ao frigorífico.
As reacções durante o jogo são em tudo idênticas às do fanático gregário, mas menos estridentes. A gestualidade pode ser mais contida ( como se vê na foto acima), mas quando se trata de pedir reforço de “bejeca” e aperitivos, em vez de estalar os dedos e puxar pela carteira, o fanático solitário grita "Maria, traz mais uma bejeca!". Quando ela chega à sala, acedendo ao pedido , acrescenta "podias ter trazido mais uns aperitivos que estes estão a acabar”.
O solitário, mais concentrado que o gregário, faz jogo de cintura e de pés durante a partida, no esforço inglório de encaminhar a bola para o sítio que mais lhe interessa, ou desviá-la dos adversários, o que proporciona belíssimos espectáculos a observadores posicionados fora do seu ângulo de visão.
O fanático solitário também é menos violento que o seu congénere. Quer dizer… não bate na mulher nem faz distúrbios em casa, mas quando ela passa durante um milésimo de segundo diante do televisor, porque teve de ir à sala buscar alguma coisa, é impulsionado por uma mola e grita “ sai da frente, que não me deixas ver o jogo, carago!!!!” Se a sua selecção perde, pode muito bem acontecer que perca o apetite...

O Prolongamento
Durante os próximos dias, muitos governantes em todo o mundo ansiarão que as selecções dos seus países cheguem à final. Serão pelo menos 30 dias de descanso, graças ao precioso contributo de jornais, rádios e televisões que, com a sua overdose diária de “informação desportiva”, alimentam os fanáticos e aqueles que, não o sendo, vibram intensamente com as vitórias da selecção do seu país, transformando um jogo de futebol num problema nacional.
Não sou fanático porque não gosto de bejecas, nem me equipo a rigor, mas não perco um jogo da nossa selecção. E claro que vibro com vitórias e esmoreço no momento da derrota.
Conheço várias mulheres fanáticas. Não é o caso da minha parceira, mas tenho a certeza que ela tem uma história muito interessante para vos contar sobre a vida das mulheres durante o Mundial de Futebol. Bora lá ler?