sexta-feira, 28 de maio de 2010

Crónicas de Graça # 12

Comadres e Bisbilhotices

Quando era miúdo, ensinaram-me que a bisbilhotice era uma coisa muito feia, própria de gente sem carácter e metediça, que se comprazia a falar sobre a vida dos outros. Nessa altura, a bisbilhotice encarnava apenas em pessoas como a Menina Emília ou a D. Vitória( personagens da série “Conta-me como foi”) cuja actividade profissional proporcionava o desenvolvimento dessa característica.

Havia, porém, perto de minha casa, uma senhora fina que, sem filhos para cuidar, nem afazeres profissionais, passava os dias atrás de uma persiana * entreaberta para não ser vista, e era o melhor veículo informativo de toda a freguesia de Paranhos . Poderão os leitores perguntar como é que ela sabia a vida toda a gente da freguesia, se não saía da janela de casa. A resposta é bem mais simples do que possam imaginar: não actuava sozinha. Mantinha uma excelente relação com todas as empregadas domésticas da vizinhança, criando assim uma vasta e preciosa rede de informadoras que a punham ao corrente do que se passava nas imediações, em reuniões diárias que decorriam à janela de um dos compartimentos da vivenda, para não perderem pitada.

Não sei qual era o seu horário de trabalho, mas presumo que começasse logo depois da saída do marido e só terminasse quando ele regressava a casa ao fim do dia. Por razões que não vou agora aqui explicar, sei que às vezes também fazia turnos da noite, sendo por isso uma trabalhadora incansável que nunca reclamou quaisquer honorários pelo seu trabalho, nem pagamento de horas extraordinárias, porque agia em prol da “dignidade” do nosso bairro.

Apesar de todos saberem o seu nome, ninguém o utilizava para a identificar, preferindo aplicar-lhe, com desdém, o nickname de “Bisbilhoteira”. Só recentemente vim a descobrir quão errada era esta postura desdenhosa dos seus co-fregueses. Mais concretamente, apenas ontem, quando descobri, em trabalho de pesquisa para esta CG, um estudo de dois autores americanos , publicado no “Journal of Applied Social Psychology” onde os autores sustentam que “A bisbilhotice não é um mau hábito, uma falha de carácter. É puro instinto de sobrevivência e, sem ele, os seres humanos teriam evoluído de outra forma”.

Confesso-vos que fiquei perplexo e preocupado. Mas à surpresa e preocupação, juntou-se um misto de revolta. Perdi os melhores anos da minha vida, por não ter esta informação. Poderia ter sido uma pessoa diferente e um jornalista de méritos reconhecidos, em vez de asumir a figura parda de um freelancer, se tivesse percebido a importância da bisbilhotice pois, como conclui o estudo, “a bisbilhotice e a devassidão da vida dos outros é benéfica numa sociedade de concorrência”. Razão tem o povo que diz “aprender até morrer e morrer sem saber”…

Para me reciclar, pensei que poderia ir mais vezes ao barbeiro, onde há dias ouvi falar de um programa em que os telespectadores falam com mortos. Apeteceu-me logo inscrever-me, para ver se a “Bisbilhoteira”, estava disposta a dar-me umas lições, mas desisti porque deve estar muito desactualizada. A bisbilhotice já não é o que era. Agora não é tarefa exclusivamente reservada às mulheres ociosas, nem se exerce por detrás de um reposteiro. Utilizam-se gravadores e máquinas fotográficas com teleobjectivas potentíssimas, podendo assim captar imagens a longa distância e dar mais credibilidade à notícia.

Agora, à “Bisbilhoteira” já não bastaria esgrimir o argumento da sua palavra. Hoje em dia, quem acredita, sem provas fotográficas, ou escutas telefónicas feitas à má fila, que a Tina do Beto anda “metida” com o Janeca da Bitorina, se não houver provas que confirmem a relação adúltera? Só mesmo gente muito crédula- que apesar de tudo, ainda existe.

A informação recolhida também já não se transmite gratuitamente através do tradicional boca a boca:




-“ Ó Mila, tu pelo amor de Deus e pela saúde dos teus filhos não digas nada a ninguém, mas sabias que a Belinha emprenhou do filho dos Reboredo e foi a Espanha fazer um “desmancho”?”

- “Cala-te lá, mulhere, tu vira-me p’ra lá essa boca, pode lá ser! Como é que aquela estampa foi emprenhar uma lambisgóia quase tísica como a Belinha? Mas quem é que te disse, Glorinha?”

- “Ai filha, isso não te posso dizer, porque eu fiz jura de num contar a ninguém. Só te digo a ti, porque és minha amiga e sei que posso confiar-te um segredo, mas olha, desde que soube que trago aqui um aperto… inda bem que tencontrei pra poder desabafar!”

E a Mila, benzendo-se e proclamando “Louvado seja o Senhor”:

“ Está descansada , Glorinha, sabes que sou como um túmulo” e despede-se à pressa porque tem de ir aviar umas coisas à mercearia do sr Casimiro.

Compras feitas, “quanto é sr Casimiro?” , um olhar à volta para ter a certeza que ninguém a escuta e larga em surdina:

“ Ai. Sr Casimiro, nem imagina o que acabei de saber, até estou agoniada”

(O sr. Casimiro, se estivesse para aí virado, ou desconfiasse tratar-se de informação preciosa, pegava em duas latas de conserva ou numas peças de fruta prestes a apodrecer e avançava):

“ Tome lá, leve esta frutinha para os seus filhos, que só lhe vai fazer bem”

-“ Obrigado sr. Casimiro, o sr. é um santo! Sabe que a Belinha….”

Hoje, a bisbilhotice circula rápida pela Internet, em redes sociais como o Facebook , ou é impressa e depois vendida aos curiosos sob a forma de revista. A sua veracidade é, muitas vezes, tão duvidosa como a vendida pela rede da “Bisbilhoteira” que punha a circular informação falsa, só para se divertir ou vingar de alguém, sem receber nada em troca.

A “Bisbilhoteira” teria hoje uma profissão rentável e seria mais reconhecida socialmente. Poderia ser “ fonte bem informada” ou “paparazzi” e, se quisesse investir numa licenciatura, poderia mesmo tornar-se jornalista da“nova vaga” .

Se optasse pela vida política poderia rivalizar com Pacheco Pereira ( sim, hoje a bisbilhotice também é muito apreciada pelo sexo masculino) na audição de escutas numa qualquer Comissão de Inquérito, mas estaria bem em alguns partidos políticos, onde a bisbilhotice tem muitos adeptos e seguidores.

Se quisesse dedicar-se às novas tecnologias, a “Bisbilhoteira” poderia empregar-se numa daquelas empresas que criam e-mails com informação falsa, que depois põem a circular como sendo verdadeira. Ou então, dedicar-se à colocação de vídeos no You Tube.

Se a “Bisbilhoteira” fosse viva, eu estaria agora a garantir-vos que tinha sido ela a colocar o vídeo do Mourinho a chorar agarrado ao Materrazzi. Não acreditam? Olhem que ela era mulher para isso! E por aqui me fico...

Agora, vão ver o que a minha querida parceira tem para vos dizer. Desconfio que ela tem lá uma convidada especialista na matéria…

• Persiana= estores