sexta-feira, 14 de maio de 2010

Crónicas de Graça # 11

Feiras e Mercados

Quando era miúdo, com excepção da Feira dos Capões em Freamunde e do mercado do Bolhão no Porto, não gostava de feiras nem mercados. Quando a minha mãe me arrastava pela mão até à feira de Espinho, a minha vontade era sempre dizer-lhe para me deixar em casa, que eu em troca comia a sopa toda, sacrifício tão grande como ir à feira de Espinho, mas com a vantagem de ser muito mais rápido a digerir. Os gostos mudam com a idade e, hoje em dia, não só gosto de sopa, mas também de feiras e mercados.
Mercado de Rabaul ( Papua Nova Guiné)
Gosto daquelas feiras decadentes ( como Portobello, Le marché aux pouce ou a Feria de Santelmo) que estão incluídas nos roteiros de grandes cidades europeias e sul americanas, onde se vendem roupas e quinquilharias adjacentes, como relógios Rolex “made in Thailand” e óculos RayBan, provenientes de Taiwan, misturados com “antiguidades” feitas à pressa num vão de escada de uma vila esconsa.
Adoro os mercados do sudeste asiático, onde a par da policromia fascinante, ainda encontramos frutos e legumes exóticos . Levanto-me com prazer às 4 da manhã para visitar o “Floating Market” em Bangkok, e na Papua Nova Guiné adorava os sabores dos pequenos almoços nos mercados de Rabaul ou de Goroka.
Portugal é um país de feiras, algumas das quais fazem também parte de roteiros turísticos, mas as feiras de que realmente gosto são as tradicionais, onde se pode comprar de tudo e ter a sensação de estar num gigantesco centro comercial, com hipermercado acoplado, com a vantagem de gozar os prazeres do ar livre.
Nos espaços estreitos entre as bancadas cruzam-se, na azáfama das compras, pessoas de todas as idades, raças, credos, cores políticas e escalões sociais.

Feira de San Telmo ( Buenos Aires)

Peças de lingerie misturam-se com sacos de grão, camisas Benetton com blusões Levis, garrafas de Coca Cola com latas de Red Bull , numa orgia de marcas.
Brancos coelhos, de olhar rosáceo, ruminam pacientes , lado a lado com galos cacarejantes. Pregões de feirantes ecoam no ar, enquanto “vendedores de banha da cobra” exaltam, empoleirados no tejadilho de uma Ford Transit, a qualidade de atoalhados, lençóis e colchas indianas, feitas numa qualquer fabriqueta do Vale do Ave.De repente, eclode uma zaragata e o burburinho entrecorta os ares. É uma "vendedeira" que, cansada de tanta “regateirice”, por parte de uma senhora envergando um casaco de pele de coelho ameaça, de cachucho em riste, teatralizar um poema de Tolentino, pondo em sentido a impertinente que ousou pôr em dúvida a frescura das marmotas.
O regateio é uma cena peculiar das feiras, chegando a confundir-se a feirante com a cliente, igualizadas democraticamente no vernáculo do linguarejar. Por vezes, putos mal educados envolvem-se em rixas na defesa das matriarcas, emprestando um ar picaresco à confusão reinante.A feira nunca mais se olvida. Não há nada igual.
A feira pode ser a rixa momentânea, o insulto democratizado, mas também é altivez. A feira é a desconfiança, mesclada com o prazer de lá ir. É Rui Veloso lado a lado com Quim Barreiros. É prostitutas ombreando com senhoras “queques”. É putos reguilas, em tirocínio para a idade adulta, construída em malgas de sopa onde fumega um pouco de água fervida, misturados com “betinhos” mal educados em aprendizagem das regras da lei do mais forte, do desrespeito pelos outros, com personalidades deformadas construídas em pretensos berços de oiro.
É nas feiras que encontramos o verdadeiro retrato , sem maquilhagem, do fenómeno do consumo. É lá que reina a contrafacção? Será... mas que importa se as pessoas, embriagadas pela publicidade aspiram mais a “parecer” do que a “ser”?

Floating Market ( Bangkok)
Cá por mim, continuo a gostar de feiras onde não há sorteios de Mercedes, nem cartões Visa ou de fidelização, mas há o calor dos feirantes. Onde não há empregadas anoréticas, vestidas a rigor com sorrisos de plástico, mas há um rosto humano por trás de cada banca. Não há luzes psicadélicas imitando o sol e o estralejar de foguetes, nem cassettes gravadas imitando o canto de passarinhos, porque tudo isso está lá, em estado natural , fazendo também parte da grande festa.E nas feiras há, acima de tudo, a mescla de odores e sons que faziam parte da minha infância.
Qual será a visão da minha querida parceira sobre feiras e mercados? Tenho um palpite que será muito bem humorada. Bora lá ver?