quarta-feira, 28 de abril de 2010

10 medidas de combate à crise

Sócrates e Passos Coelho chegaram hoje a um acordo para combater a crise provocada pela acção especulativa dos mercados financeiros, que contempla cortes em prestações sociais como o subsídio de desemprego e as pensões. Já há por aí quem fale em cortes nos vencimentos dos funcionários públicos, agravamento das condições de reforma e congelamento do 13º mês.
Também tenho umas propostas a fazer, que aliviam os cofres do Estado, cortando apenas nos privilégios dos mais favorecidos:
1- Reduzir o número de deputados a metade e acabar com as suas mordomias sumptuárias.
2- Reduzir os gastos dos gabinetes, cortando 25% no número de assessores, secretárias, consultores, etc.
3- Acabar com as boleias, em carros do Estado, às esposas e restantes familiares. As criancinhas podem ir para a escola de transportes públicos e quando for necessário levar o cão ou o gato ao veterinário, podem ir de táxi.
4- Fiscalizar os consultórios de médicos , advogados e outras profissões liberais.
5- Controlar de forma mais eficiente as fugas ao IVA e a facturação das empresas.
6- Obrigar os bancos a pagar tributação idêntica à das restantes empresas.
7- Taxar a 70% os prémios de gestores.
8- Taxar a 45% as despesas com jantares, festas, férias e similares, apresentadas pelas empresas.
9- Acabar com o forró da compra de carros e outros bens imobiliários, em nome das empresas, quando toda a gente sabe que servem, na maioria das vezes, para outros fins.
10- Reduzir o outsourcing na Administração Pública.
Convido os leitores do CR a acrescentar mais propostas a esta lista.

A coisa está a ficar preta...


A única coisa boa que aconteceu a Portugal, nos últimos dois anos, foi o desaparecimento de MFL da cena política. A eleição de Pedro Passos Coelho permite o entendimento entre Sócrates e o novo líder do PSD, essencial neste momento de crise que os movimentos especulativos internacionais agravaram.
Para o futuro dos portugueses que vivem da labuta diária, no entanto, a grande preocupação reside na facilidade de entendimento entre os líderes dos dois maiores partidos portugueses. Quando um diz mata, o outro grita esfola , sendo que o alvo de ambos é a penalização de quem trabalha.
O resultado da primeira reunião entre os dois foi sintomático: a antecipação das medidas do PEC propostas por PPC e de imediato aceites por Sócrates, têm a ver com as prestações sociais. Agravamento da carga fiscal sobre os prémios dos gestores públicos ou taxação das mais valias bolsistas,são coisas em que nenhum deles quer ouvir falar, porque , provavelmente não acalmam os mercados. Os vampiros que infestam o sistema financeiro só se satisfazem com o sangue de quem trabalha.
Não custa nada perceber que os ataques especulativos dos mercados, materializados pelas agências de "rating", só terminarão quando o governo fizer exactamente o que eles exigem: degradação da qualidade de vida dos trabalhadores e mais apoios para a alta finança.
Já em 1992 eu anunciava, nas páginas da "Tribuna" de Macau, o meu temor sobre as consequências de uma globalização assente na defesa dos interesses dos mercados e não das pessoas. Não faltou quem me chamasse catastrofista ou "esquerdalho", mas a prova de que tinha razão está aí aos olhos de todos.
Não sei até quando o governo - agora com o apoio do PSD que em próximas eleições irá cobrar este entendimento, apresentando-se ao eleitorado como o Salvador da Pátria- conseguirá esticar a corda, sem que os trabalhadores reajam de forma violenta. Infelizmente, a estratégia dos governos de Sócrates tem sido mesmo essa. Ir esticando a corda, testando a paciência dos trabalhadores e dando uma mãozinha aos senhores da alta finança, enchendo-os de mordomias. Um dia a corda vai partir, só não é possível saber quando. Espero não estar por cá quando isso acontecer, porque já foi para mim suficientemente penoso ter assistido ao “Corralito” na Argentina, no início deste século.
Não imaginam o que senti ao ver o desespero das pessoas que, depois de terem festejado efusivamente o fim da ditadura e o regresso da Democracia, perceberam que tinham caído no logro da dupla de vigaristas Menem /Caballo, que os levou à ruína. A reacção foi violenta, como alguns leitores estarão lembrados.
A coisa aqui em Portugal está preta, como diria o Chico, mas a última coisa que desejaria era assistir a um remake do que se passou na Argentina e de que vos sugiro a leitura deste breve retrato . Será possível?

Assim nasce um boato



No metro, duas senhoras sentadas à minha frente discutem uma notícia de jornal
-Já viste esta pouca vergonha?
-Este país está cada vez pior.
- E é para isto que a gente lhes paga. Ao menos podiam saber comportar-se.
-Olha, eu já deixei de votar há muito tempo. Pelo menos ninguém me culpa de os pôr lá.
- Pois, são todos iguais. Ouvi ontem na rádio que foi por causa das greves. Os comunas é que provocaram tudo, como sempre.
-Ó mulher, aqueles do padreca armam-se em sonsos, mas ainda são piores…
- Quem? Os do Bloco, ou lá como lhe chamam?
-Sei lá como se chamam! São os daquele padreca de óculos, ‘tás a ver?
Logo que comecei a ouvir a conversa percebi qual a notícia que estavam a comentar. É que de manhã, quando a minha empregada chegou e lhe perguntei como estava, respondeu-me:
-Eu estou bom o nosso Portugal é que está cada vez pior
-Então porquê?
-Andaram todos à pancada no Parlamento.Já viu que vergonha?
- Onde é que você ouviu isso?
-Está aqui no jornal, ora veja lá…
Tirou da carteira o Global Notícias e estendeu-mo, ufana, por me estar a dar uma grande notícia em primeira mão.Nem precisei de ler a legenda, que identificava a foto com o Parlamento ucraniano. Bastou-me olhar para a foto da primeira página, para perceber que não podia ser cá.
- Ó mulher, mas isto não é cá?
-Não é cá? Então o Parlamento não é cá?
-Você não leu o que está escrito por baixo da fotografia?
-Não. Só li “Pancadaria no Parlamento” que é o que vem escrito na fotografia e pensei que fosse cá.
-Ó senhora mas há parlamentos em todo o mundo!
-Mas este jornal é português e se fala de Parlamento devia ser o nosso, não é?
-Valha-me Santa Engrácia. Então você vê uma fotografia , não lê o que está escrito por baixo e começa por aí a dizer que o nosso país está uma vergonha? É assim que se lançam boatos, já viu?
- Eu, não!!!! Olhe que as minhas colegas na camioneta hoje vinham todas a falar da mesma coisa e a dizer que "o nosso Portugal" está uma vergonha.
-Porquê? Porque os deputados andaram à pancada no Parlamento?
-Pois… Eu acho que foi por causa disso.
Suspirei fundo e comecei a tomar o pequeno almoço. Podia responsabilizar o analfabetismo dos portugueses pela boataria e pela crise, mas seria injusto. Não só a Dona Manuela - que tem curso superior- se fartou de lançar boatos, quando era líder do PSD, como também as agências de “rating” fazem a mesma coisa, lançando ataques especulativos contra Portugal.
Assim, penso que é mais justo culpar os economistas e o sector financeiro pela desgraça em que estamos a mergulhar. São eles os verdadeiros culpados pelos dias negros que se avizinham para todos nós. Espero é que tudo não passe de um boato...

Cidades da minha vida (18)

Como a maioria dos leitores já terá reparado, sou um bocado anarca. Ou, como diria o Jorge Coelho, referindo-se aos independentes que militavam à época no Partido Socialista, sou imprevisível. Por outras palavras, tomo decisões que são irracionais aos olhos dos outros, mas para mim são a escolha acertada. É assim que decido as minhas férias e não me tenho dado nada mal.
Raras foram as vezes em que planeei férias com mais de duas semanas de antecedência. Não se espantem, por isso, se vos disser que a minha decisão de entrar o ano de 2002 na Sardenha foi tomada a 23 de Dezembro. A primeira escolha tinha sido Dubrovnik, mas a dificuldade em arranjar voos até lá e as memórias ainda frescas das guerras que durante quase uma década assolaram a região balcânica fizeram-me mudar de ideias. No fundo, tive medo de ver em ruínas uma cidade que me galvanizara quando vivera na ex-Jugoslávia, pelo que adiei o regresso a Dubrovnik por dois anos e apontei à Sardenha.
Ir à Sardenha em pleno Inverno não é a escolha mais sensata e perder três dias em Cagliari uma perfeita estupidez, porque é das cidades mais feias e porcas que vi em dias da minha vida. O problema é que fui para a Sardenha “às escuras”, sem previamente me documentar sobre a ilha e achei que o mais sensato seria reservar hotel em Cagliari para a véspera e dia de Ano Novo.
Cheguei num dia 27 de Dezembro tenebrosamente cinzento, mas sem chuva. Ao fim de duas ou três horas estava farto e decidi iniciar, logo no dia seguinte, a volta de reconhecimento à ilha.
Às oito da manhã já eu estava na Avis a alugar um carro e, abençoado por um sol límpido que se manteria até ao dia do regresso, comecei o meu périplo sardo. Paisagens bonitas, praias de areais extensos a prometer verões para mais tarde recordar, mas dias curtos que obrigavam a encurtar as paragens mais do que o desejado.
Em três dias tinha percorrido a ilha quase toda e preparava o regresso a Cagliari, no dia 31, para passar a noite de fim de ano, descendo pela costa Oeste. De tudo o que até então vira nada me deixou de “água na boca”. Nem a badaladíssima Costa Esmeralda, com luxuosos “aldeamentos” turísticos de gosto mais ou menos duvidoso onde coabitam vedetas do espectáculo e jogadores de futebol ( Luís Figo incluído) me deixou roído de inveja.
É certo que a Sardenha tem praias belíssimas, cabos escarpados de grande imponência, e baías largas abrigando extensos areais mas em pleno Inverno, com tudo fechado e deserto, senti-me personagem de um filme de ficção, desempenhando o papel de único sobrevivente de uma qualquer catástrofe. Apenas o sol me transmitia algum alento e, por diversas vezes, dei por mim a lamentar a opção de celebrar a entrada no Euro - a mirífica moeda que nos havia de salvar a todos da bancarrota, transformando a abóbora tuga num coche de cristal puxado por cavalos brancos “puros sangue”- naquela paradisíaca ilha italiana.

(A História está sempre a dar provas de que os contos de fadas são muitas vezes traiçoeiros e quase sempre ilusórios. O coche de cristal tuga está transformado numa carcaça velha que a qualquer momento pode ser abatida por um qualquer sucateiro cotado nas bolsas de Tóquio ou Nova Iorque e dos “puro sangue” nem sinais. Quanto aos passageiros tugas, depois de viverem durante algum tempo a ilusão do fausto, estão agora a desfazer-se ao longo do caminho das jóias com que a sociedade da hiperescolha os embelezou, a troco de promessas de endividamento fácil e barato.
Mas que é que isto tem a ver com Alghero e a Sardenha? perguntará, com carradas de razão, qualquer leitor já cansado de tanta prosa inútil.Reconheço , humildemente, que rigorosamente nada… mas eu não avisei logo de início que sou imprevisível? Retomemos então o fio à meada…)
Abandonei a Costa Esmeralda e iniciei a descida para Cagliari pela costa Oeste. Ao longo da viagem a Sardenha parecia ter começado a ganhar vida, dando a sensação de toda a população se ter concentrado naquela zona da ilha. Já começava a anoitecer quando chego a uma cidade a fervilhar. Nas suas ruas profusamente decoradas e iluminadas, as pessoas acotovelavam-se numa azáfama que ainda não tinha visto na Sardenha. As esplanadas regurgitavam de gente encasacada e de turistas do Norte da Europa, a quem os 15 graus despertavam o apetite da cerveja de lúpulo ( preciosidade local) e convidavam a despojar-se da roupa.
Alghero fez-me sentir como se tivesse acabado de chegar a um oásis. Passeei-me pelas suas ruas estreitas dos tempos medievais, onde ainda são visíveis alguns traços da ocupação catalã durante a Idade Média. Vagueei pelo porto, beberiquei mirtos, limoncellos e vernaccias e, seguindo a máxima “se conduzir não beba”, deixei-me ficar por lá até ao dia seguinte.


Quando acordei percebi que as liras já não serviam para nada e os escudos ainda menos, fiz fila para levantar os primeiros euros numa caixa multibanco e de seguida pensei em dar um mergulho naquela água de cores convidativas mas, como animal de climas quentes, afastei a ideia logo que pisei a areia e senti uma leve brisa marítima anavalhar-me o nariz.
Almocei numa esplanada gozando um sol tímido. Comi o queijo local com pane carasau. Apesar de estaladiço, pareceu – me seco mas, perante a minha reclamação, o proprietário respondeu, indignado, que aquele era o melhor pão do mundo e que podia ser comido até um ano depois de ser confeccionado. Pensei que fosse “tanga de italiano”, mas a consulta do guia que comprara em Cagliari confirmou que era mesmo verdade.
Esfomeado, atirei-me ao churrasco variado servido em buffet, cuja principal estrela era um leitão que – não tenho quaisquer dúvidas - devia ter enviuvado umas três vezes antes de ser atirado para uma grelha, como petisco para turistas incautos.
Nesse dia 1 de Janeiro de 2002, em Alghero, nasci como cidadão europeu de pleno direito. Fiquei desobrigado de complexas operações cambiais onde o escudo era sempre a parte mais fraca, servindo de idiota e bombo de festa nos bacanais dos mercados financeiros. Finalmente passava a integrar o clube dos ricos, pagava em euros como qualquer espanhol ou grego, companheiros de infortúnio habituados a viver na cauda da Europa e mandava as liras às urtigas, escarnecendo desses ricaços italianos que certamente por engano, ou graças a uma forte cunha, faziam parte desse clube de ricos que à época se chamava G-8, mas a inflação e os mercados financeiros obrigaram a rebaptizar de G-20, incluindo maltrapilhos como a China.Que interessa agora se tomei uma decisão precipitada ao escolher a Sardenha? O importante foi que naquele dia pude , pela primeira vez na minha vida, dizer a um italiano, com o peito inchado e a transbordar de orgulho “o meu dinheiro é igual ao teu. Toma e embrulha!"



Olha que dois!




Manuela Ferreira Leite passou seis meses a chamar mentiroso a José Sócrates. Nunca apresentou uma prova, mas repetiu a acusação até à exaustão. Esperava que na Comissão de Inquérito da AR a ex-líder do PSD explicasse, finalmente,com um caso concreto, quais os fundamentos das suas acusações.Ao fim de hora e meia de interrogatório, o país ficou a saber que as provas de MFL assentam na “experiência com crianças” e no seu raciocínio.
Seria hilariante, não se desse o caso de MFL ter sido durante quase dois anos líder do principal partido da oposição e candidata a chefe de governo.Não sei qual a experiência que MFL terá com crianças, mas quanto ao seu raciocínio deve andar pelas ruas da amargura.
Entretanto, Cavaco Silva, no seu discurso do 25 de Abril “aconselhou” o governo a investir na cultura. Quem não se lembra do forte investimento de Cavaco Silva nesta área, quando era primeiro-ministro, com a nomeação de dois vultos da cultura portuguesa, como Santana Lopes e Sousa Lara?
Estas atoardas do par que sonhou dirigir os destinos do país serão efeito do calor, ou da eleição de Passos Coelho?

Não é novidade, mas...

Não é propriamente uma novidade, mas é preocupante. Principalmente porque isso se passa não só a nível de colaboradores, mas também de jornalistas que ocupam lugares de responsabilidade.

As cidades dos outros (18)

A ematejoca conta um episódio interessantísssimo sobre uma cidade europeia. Ao contrário dela, esta também é uma das cidades da minha vida e não esqueço o deslumbramento que senti quando lá cheguei pela primeira vez, de barco, num esplendoroso pôr do sol que parecia incendiar a cidade.

Sugestão do dia

Der Terrorist Vão até lá sem receio, porque as únicas bombas que por lá aparecem são de bom humor.