domingo, 25 de abril de 2010

Contradições de Abril

Temos um PR que recusou uma pensão a Salgueiro Maia mas ofereceu-a a dois ex-Pides.
Temos um PM que escarnece dos direitos dos trabalhadores e bajula o grande capital.
Temos um líder da oposição (Pedro Passos Coelho) que, apesar de ser tão liberal, se candidata a um cargo público para poder dar aos senhores do dinheiro aquilo que ainda lhes falta conquistar.
Vivemos num país obnubilado pela conquista de um título de futebol pelo SL Benfica que, a confirmar-se hoje, incentivará alguns jornais a escrever títulos do género:
“Benfica campeão de Abril”.
Vivemos num país tão emocionado com a visita a Portugal de um Papa que protegeu pedófilos, que decreta tolerância de ponto para celebrar a data, mas se indigna quando o governo dá tolerância de ponto no dia 24 de Dezembro.
Vivemos num país onde emerge uma nova geração de fadistas, restituindo ao Fado a sua insígnia de canção nacional.
Continuamos a viver sob o signo do 3 Efes.
Mesmo assim, valeu a pena ter havido o 25 de Abril. Por isso continuo a celebrá-lo com o mesmo sentimento de sempre.
Não quero outro 25 de Abril... apenas peço que me devolvam o 25 de Abril que me roubaram!

O 25 de Abril da Martinha

Eu sei que não apareço por aqui há muito tempo, mas quem me conhece também sabe que sou tímida e escrevo mal e ambas as coisas me impedem de vir cá mais vezes dizer o que me vai na alma, mas neste dia 25 de Abril não podia deixar de vos vir dizer que celebro esse dia com a minha mamã como se fossemos portuguesas.
Se não fosse o 25 de Abril nunca teríamos podido vir viver para Portugal onde apesar de alguns problemas somos felizes vocês sabem que é difícil a duas mulheres chinesas com uma modesta loja na Lapa serem respeitadas neste país, já muitas vezes foram antipáticos connosco e nos mandaram para a nossa terra, acusaram-nos de andar a explorar os chineses e a enganar os portugueses, fomos acusadas de criminosas e prostitutas, chorámos muitas lágrimas à noite agarradas uma à outra, mas esta é a nossa terra desde que o Carlos nos trouxe para cá, não pude recusar o pedido que ele me fez para escrever neste dia aqui no Rochedo.
O que vos quero dizer é que apesar de continuar a enviar currículos para tudo quanto é sítio continuo desempregada com uma licenciatura que não me serve para nada nem me dá o dinheiro para comprar o pão de que preciso para comer se não fosse a loja não sei o que seria de nós.Eu já um dia vos disse que há um provérbo chinês que diz "Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."
É por isso que continuamos a teimar ficar na Europa e especialmente em Portugal onde, apesar das excepções de que já vos falei, a maioria das pessoas nos trata bem. Desde que para cá viemos aumentou muito o número de imigrantes e nós sentimo-nos aqui muito bem, muito melhor até do que alguns nossos amigos que escolheram outros países europeus mais ricos e civilizados, como a França ou a Alemanha, pelo menos aqui sabemos que ninguém nos vai expulsar. Devo dizer-vos que para nós a crise de que todos falam até tem sido benéfica porque com falta de dinheiro as pessoas vão lá agora comprar mais coisas até estamos a pensar abrir outra loja nos arredores, mas o que eu queria mesmo era poder trabalhar no curso que tanto me custou a tirar mas não me serve para nada, porque só querem chinesas para trabalhos não qualificados. Mesmo assim, quero que saibam que continuo a sentir-me muito bem em Portugal, não quero sair daqui nunca mais e gostei muito de saber hoje um bocadinho mais sobre a história do 25 de Abril, que foi uma coisa muito bonita que vos aconteceu e que eu penso vocês deviam dar mais valor. Desculpem este atrevimento mas vocês sabem que não tenho papas na língua e quem não souber o melhor é ir ler os outros posts que aqui escrevi, basta carregar na etiqueta Intromissões e está lá tudo.
Pronto, fico por aqui, vou fazer os possíveis para voltar mais vezes, mas agora vou-me embora, porque o arroz de lingueirão que vim aqui comer com o Carlos e a minha mamã, depois do desfile, está a arrefecer e eu não posso perder um petisco daqueles.
Beijinhos e até à próxima. A vossa amiga de sempre.
Martinha

Sebastião e o 25 de Abril

Talvez ainda haja muita gente que se comporta de forma pouco civilizada em relação às questões ambientais.
Talvez ainda haja muita gente que duvide das alterações climáticas, ou encolha os ombros face aos avisos dos perigos resultantes da escassez de água.
Talvez ainda haja quem acredite que o homem não tem qualquer responsabilidade na degradação ambiental e que tudo se deve a causas naturais.
Talvez ainda haja quem considere uma bizantinice separar os lixos domésticos, ou poupar os recursos naturais- nomeadamente água e energia.No entanto...
Ninguém pode hoje em dia dizer que não está informado sobre estas questões e a forma de contribuir, individual e colectivamente, para a preservação ambiental.
Ninguém pode dizer que desconhece as desigualdades, a pobreza e a exclusão social.
Ninguém pode dizer “ não sabia”.
Quem persistir em comportamentos anti-cívicos, ou não respeitar o outro, tem de assumir que o faz por decisão própria e não por ignorância.
Só por isso, já valeu a pena o 25 de Abril.

Brites e o 25 de Abril

Se não tivesse havido 25 de Abril eu nunca teria tido a oportunidade de conhecer essa maravilha da literatura e do jornalismo que são as revistas cor de rosa.
No tempo do Estado Novo ninguém sabia nada das pessoas ilustres deste país. Agora sabemos tudo. Mesmo que a maioria das vezes aquilo que se escreve nessa revistas seja mentira, fico muito entusiasmada quando tenho a possibilidade de partilhar a vida dos ilustres portugueses. São fofocas? Quero lá saber! O importante é poder descobrir os segredos dessa gente que vive em mundos de ilusão que nós acreditamos serem reais.
Longa vida às revistas cor de rosa que nos transportam a um mundo de ficção. É que a realidade é muito dura!

Figurões de Abril


O 25 de Abril não acabou com os tiques do Estado Novo. Nem mudou mentalidades. Voltaram a emergir os lambe botas, os bajuladores, os que estão sempre prontos a vender a dignidade por um prato de lentilhas. Este homem é a prova de que o 25 de Abril ficou por cumprir. Os energúmenos não têm emenda.Mais uma estátua para ele. E para todos os lambe botas que têm lugar reservado na festa dos patrões.

Rua da Saudade

Quatro mulheres prestaram homenagem a José Carlos Ary dos Santos, um dos grandes poetas de Abril, nos 25 anos da sua morte. Asim nasceu este belíssimocom Rua da Saudade. Escolhi, para começar o dia, este tema alegre e bem disposto muito apropriado às majorettes que vamos encontrando ao longo da vida.

Recordações de Abril

Há 36 anos estava preso aqui. Depois de umas horas sofridas, encontrei finalmente a Liberdade. Vivi 19 meses a acreditar na Utopia. Num país melhor, mais justo, mais atento aos problemas dos mais desfavorecidos. Sim, acreditei no PREC, na sinceridade das pessoas que nos prometiam um futuro melhor.
O despertar do 25 de Novembro foi, por isso, doloroso. Parti. Não consegui continuar a viver num país inventado e fui procurar a felicidade para outras paragens. Fui feliz em muitos lugares onde encontrei gente com esperança. Gente abnegada e disposta a ajudar os outros.Passaram vinte anos, até regressar a Portugal. Voltei a ter esperança.
Como acontece sempre, faço um balanço neste dia. Mãos vazias. Ou cheias de nada, porque já não acredito nos cravos que algumas mãos teimam em empunhar.É doloroso perder a Esperança, mas assim me sinto diante destes cravos que mão gentil teima em oferecer-me neste dia. A dona dessas mãos ainda não perdeu a Esperança. Invejo-a por isso. Agradeço-lhe com um sorriso, quando ao bater das badaladas da meia noite ela deposita os cravos numa jarra, na vã esperança de que eles voltem a desabrochar viçosos e me devolvam a alegria.
Mostro-lhe os jornais. Um deles, transformado em sacristia para promoção de beatos, oferece “O Grande Livro dos Papas”. Fosga-se! Num país pretensamente laico, um dos jornais mais carismáticos oferece-me o Papa em fascículos? Será que lá vêm descritos os crimes contra a Humanidade perpetrados pela Igreja Católica, que não se cansa de invocar o nome de Deus em vão?
Outro afiança que Cavaco vai vetar “Lei dos casamentos gay” (sic). Porra! Que é que esta fornada de jornalistas de merda aprendeu em escolas superiores de jornalismo? Se não aprenderam a fazer títulos, nem notícias, pelo menos podiam ter aprendido a pensar!
Outros não dizem nada. São folhas mortas de notícias, que vivem à custa da publicidade e opinadores profissionais, cuja credibilidade é, no mínimo, suspeita.
De seguida mostro-lhe um blog onde um conceituado (????) jornalista chama terrorista a Otelo Saraiva de Carvalho, numa demonstração exuberante de ignorância e imbecilidade. Estamos conversados…Pressinto a desilusão naqueles olhos azuis cor de mar em límpido dia de Verão.
Hesito antes de lhe perguntar se o 25 de Abril foi feito para termos Cavaco como presidente, Sócrates primeiro ministro ou Passos Coelho líder da oposição.Ela reage. Aponta-me os exemplos de alguns miseráveis líderes europeus como querendo desculpabilizar a mediocridade dos nossos líderes políticos que copiam aqueles exemplos para defender o grande capital, o regresso às práticas laborais do século XIX, a redução dos trabalhadores a meros instrumentos, que o capital explora para assegurar o seu enriquecimento. Sou obrigado a concordar e, num assomo de clarividência reconheço a dura realidade da mentira global. No entanto...
É verdade que aumentaram as desigualdades, as prestações sociais, a preocupação com o próximo. A corrupção é mais visível e descarada, o dinheiro nunca teve tanto poder como agora, a comunicação social nunca foi tão oca e imbecil, a justiça continua a proteger os ricos e influentes e a desprezar o cidadão comum, mas uma coisa ganhámos: a liberdade de expressão.
Hoje posso exprimir livremente a minha opinião sobre Sócrates, Cavaco ou seja quem for. Não tenho de falar em surdina à mesa dos cafés, com medo de ser escutado por um PIDE que me engavete e submeta a um rigoroso interrogatório, onde a tortura também tinha o seu lugar. Hoje, o único medo que tenho é dizer abertamente aquilo que penso sobre algumas pessoas que me rodeiam, porque se torna cada vez mas difícil descortinar a diferença entre um “amigo” e um filho da puta travestido de democrata.
Se alguns dos patuscos ( jornalistas incluídos) que convocaram manifs em defesa da liberdade de expressão, fizessem a mínima ideia do que foi a Censura, ter-se-iam poupado ao ridículo da indigência moral e intelectual a que se prestaram. Para eles a Liberdade não tem qualquer valor. A única coisa que lhes interessa é um lugar à mesa do poder. Para mim, é a prova de que o 25 de Abril, apesar de tudo, valeu a pena. Obrigado, Salgueiro Maia!