segunda-feira, 12 de abril de 2010

Rochedo das Memórias (127)

A propósito da morte do presidente polaco de que vos falava esta manhã, ocorreu-me a coincidência trágica do local onde se registou o acidente.
Em 1940, as forças soviéticas executaram 21 mil cidadãos polacos ( a maioria deles pertencente à elite intelectual e militar do país) em Katyn .Era para lá que se dirigia o presidente polaco e uma numerosa comitiva, no intuito de participar numa cerimónia em memória das vítimas. O acidente ocorreu em ...Katyn.
Não há coincidências?

Encontros imediatos na calçada portuguesa


Se perguntar a qualquer um dos leitores o que é uma área pedonal todos me responderão, sem hesitações, que se trata de uma área reservada à circulação de peões. Certo? Não! Num país civilizado a resposta estaria correcta mas em Portugal, onde não há respostas definitivas para nada, tanto pode estar certa como errada. Veja-se, por exemplo, o que se passa na Av. Valbom em Lisboa.

Todos os dias por lá passo e, perante a calçada portuguesa , sou tentado a desfrutar do prazer de me passear descontraidamente. Infelizmente, raro é o dia em que a buzinadela de uma carrinha ou de um camião, na azáfama das cargas e descargas, não me interrompe a tranquilidade do passeio. Fico sempre a perguntar-me a razão de terem pavimentado a rua com calçada portuguesa, se o objectivo era continuarem a permitir a circulação e parqueamento de automóveis e veículos pesados. Até já fiz essa pergunta directamente aos serviços de Urbanismo da CML mas, como era de esperar, já lá vão mais de três anos e ainda não obtive resposta.

Há dias, aproveitando o tempo excelente e o facto de estar a trabalhar na Gulbenkian, decidi comer uma refeição ligeira numa das esplanadas da Valbom. Livro na mão, máquina fotográfica a tiracolo, senti-me um turista em Lisboa.

Estava a saborear calmamente a minha omeleta quando uma carrinha a velocidade demasiado elevada para a zona travou a fundo ao lado da minha mesa. Pelo escape saía um mal cheiroso fumo negro que empestou o ambiente e a comida. Deixando o motor a trabalhar, saiu lá de dentro um indivíduo com um embrulho. Entrou em passo de corrida na tabacaria e voltou rapidamente à carrinha, com as mãos a abanar. Ao passar por mim desejou-me, simpaticamente, bom apetite e arrancou num chiar de pneus, lançando mais uma nuvem de fumo negro para dentro do meu prato. A minha refeição acabou ali. Pedi a conta e voltei para a Gulbenkian, remoendo sobre este comportamento acéfalo dos edis de Lisboa que gostam de agradar a gregos e troianos, mas nunca pensam na qualidade de vida do peão.

Cidades da Minha vida (6)

ESTOCOLMO
Como muitos leitores já sabem, vivi em Estocolmo. Adorava a cidade, o modelo social do país naquela época fazia sonhar qualquer português, mas o Inverno que lá passei tirou-me a vontade de ficar mais tempo. Gosto muito da noite, mas não gosto de almoçar quando já é noite cerrada. Estocolmo para mim é Verão. Por isso, o episódio que vos conto sobre esta cidade passou-se no Verão passado, quando lá fui para me despedir, até uma próxima encarnação.
Às sete da tarde, a temperatura em Estocolmo era de 24º, convidando a desfrutar, numa esplanada, as soberbas paisagens que a cidade oferece. Atravessei Gamla Stan, em direcção a sul. Subi no elevador até ao bairro de Mosebacke, no intuito de me sentar na soberba esplanada do Södra Teatern, de onde se podem admirar os canais, espreguiçando-se entre o casario, desde Djürgarden até Kungsholmen - o bairro aristocrata, onde vivem os mais endinheirados. Mosebacke é, por contraste, a porta de entrada para Soddermälm, onde habita a classe operária. Curiosidades…A esplanada estava a abarrotar, as pessoas acotovelavam-se junto aos balcões para pedir uma bebida, mas lá descortinei uma mesa para seis pessoas, de onde podia gozar todo este esplendor que vêem na imagem (abaixo). Estava de máquina aperrada, hesitando em ferir com a minha imperícia de fotógrafo, a imaculada paisagem, quando duas jovens suecas pediram para se sentar. Como é natural, entabulámos conversa, ficaram muito curiosas quando lhes disse que vivera em Estocolmo há 30 anos e fartaram-se de me fazer perguntas sobre as diferenças entre a cidade de hoje e daquela época.
A determinada altura uma delas levantou-se, regressando alguns minutos depois com três copos de cerveja. Soltou um desabafo em sueco - que não traduzo - e depois disse em inglês:
- Com a crise, a Suécia está a ficar irreconhecível*. Agora temos que nos levantar para ir buscar bebidas ao balcão! Não seria mais normal que, em plena crise, empregassem pessoas, diminuindo o desemprego? Em Portugal também é assim?
- Não! De maneira nenhuma, minha cara…. Em Portugal os patrões empregam as pessoas, mas depois não lhes pagam os salários ao fim do mês, o que é muito mais cómodo.
Olharam-me, meio incrédulas e depois soltaram uma gargalhada.
- Estás a brincar, não estás? Aqui, um sujeito desses ia logo preso e confiscavam-lhe os bens, até pagar as dívidas. Sempre que uma empresa vai à falência, os primeiros credores são os trabalhadores.
- Mais ou menos como em Portugal - respondi tentando esconder o riso.
Bebi um gole de cerveja e desviei a conversa para outro tema menos confrangedor, evitando mostrar-lhes que vivo num país terceiromundista, onde grassa o egoísmo e os vigaristas são sempre recompensados. ( Se quiserem saber como descobri a Argentina, em Estocolmo, vão ler aqui)

*Na segunda metade da década de 90, do século passado, os trabalhadores suecos foram confrontados com três opções: um aumento dos impostos, a redução do salário, ou cortes nas reformas, que atingiriam os trabalhadores já reformados. Trabalhadores, patrões e Estado chegaram a acordo e a decisão foi reduzir os salários entre 0,1% e 0,5 % (de acordo com o vencimento) e aumentar os impostos para os salários mais elevados. Foram igualmente cortadas algumas mordomias dos administradores das grandes empresas, revertendo o valor desses custos anuais para a segurança social. Ficou assim assegurado o valor das reformas actuais e futuras, durante um período de 30 anos. Por cá, os governos seguem o caminho mais simples.



Haja pudor!

A morte do presidente polaco provocou muita consternação em Cavaco Silva e José Sócrates que lhe fizeram lacrimosos epitáfios. Obviamente que qualquer morte, principalmente nas circunstâncias trágicas em que ocorreu a de Karczynski é de lamentar.. mas quando o PR se referiu a ele como sendo um grande democrata, lembrei-me logo disto...

As cidades dos outros (6)

Inicio a semana com a publicação do link para a cidade da Dona Redonda.
Entretanto, solicito a quem se inscreveu para este desafio, mas ainda não publicou os textos, que o faça com brevidade. Já chegaram propostas que alimentarão esta rubrica até dia 21 e continuarei a fazer os links por ordem de chegada. Peço também que, sempre que possível, publiquem uma foto com o post.
Obrigado a todos, uma vez mais, pela vossa participação.

Sugestão do dia

A Gi diz que Só falta um 31 na vida dela. Eu já tenho 31's que cheguem, mas é raro o dia que não a visito, para ver se arranjo mais um. É que um 31 destes vale a pena...