sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os anjos negros não fazem jejum


Sexta-feira Santa. Uma reportagem de última hora leva-me até ao Oeste. Almoço no litoral, tendo o mar como cenário. A leitura do cardápio sugere-me um bife de atum. Aceito a sugestão. Enquanto aguardo, os meus olhos saltitam entre a leitura das gordas dos jornais e as ondas revoltas esparramando-se no areal. Vindo de não sei onde entra um anjo. Cabelo negro ( quem disse que os anjos são todos loiros desconhece a beleza dos anjos com cabelo de azeviche), caindo sobre um corpo esguio e bem torneado. Senta-se na mesa à minha frente. Pousa os óculos escuros sobre a mesa e pede a ementa. Da carteira recolhe uns óculos de ver ao perto ( os anjos de cabelo negro com problemas oftalmológicos devem pertencer a uma casta especial que não consta dos catecismos) que deixam a descoberto uns olhos verdes deslumbrantes . Anuncia a sua escolha ao empregado sem pronunciar uma palavra. (Os anjos ouvem mas não falam). Volta a pegar na carteira de onde retira um livro. Olha-me e deixa escapar um sorriso disfarçado. Retribuo.
Há qualquer coisa naquele sorriso que me traz à memória a psiquiatra de Tony Soprano, nos tempos da primeira série. O empregado traz-me o bife de atum. De repente, perdi o apetite. Só tenho olhos para aquele anjo, absorvido pela leitura de um livro cujo título não consigo ler. Entrego ao palato a apreciação do sabor do bife de atum, enquanto olho o mar e me interrogo sobre a escolha gastronómica do anjo que está diante de mim, mas agora ostensivamente me ignora. Um peixe grelhado? Uma salada? Talvez aquelas ovas cozidas com molho de vinagrete…
A resposta demora uma eternidade. Já deixei metade do bife de atum abandonada à sua sorte e pedi uma manga para rematar a refeição, quando o empregado traz a encomenda do anjo que algum enviado de Deus colocou à minha frente em tarde de Sexta-feira Santa, para me fazer experimentar a provação. Surpresa! O pedido improvável provoca-me uma breve náusea. Afinal, os anjos também comem favas com chouriço. Ainda por cima numa sexta-feira Santa, dia em que tal pitéu lhes devia estar vedado pela Lei Divina.

Cidades da minha vida (5)

Malaca
É impressionante como , em apenas 60 anos de permanência em Malaca e tendo saído de lá há quase cinco séculos, os portugueses deixaram lá tão bem vincados alguns traços da nossa cultura. Ver malaios a dançar o “vira” , ou ouvir cantar o fado na Praça Lisboa ( Medan Portugis), enquanto se mastiga um arremedo de Bacalhau à Brás é algo que nunca se esquece. A azulejaria e as casas com a Nossa Senhora de Fátima à porta são outra marca surpreendente.De Malaca podia falar-vos de muitas coisas. Desde o bairro português à China Town, passando pela réplica portuguesa de uma caravela que ali se afundou no século XVI, que alberga o museu marítimo, ou dos “riquexós” puxados por bois. Optei por vos descrever um episódio que revela a simpatia e hospitalidade dos malaios que ainda sentem Portugal como o país das suas raízes.
Ia a entrar num museu com uma amiga, quando reparei que o porteiro procurava escutar atentamente o que dizíamos. Já tínhamos passado por ele, quando sinto tocar no ombro e perguntar num linguarejar estranho se éramos portugueses.Quando lhe respondemos que sim, esforçou-se por se fazer entender. Numa mescla de português, inglês e malaio lá ficámos a perceber que era descendente de macaenses e casado com uma malaia de remota ascensão portuguesa. Abreviando… A medo convidou-nos para jantar em sua casa, porque gostava que conhecêssemos a família Sem hesitar respondemos que sim. À hora marcada encontramo-nos `porta do museu e lá fomos até casa do Manoel. No interior, a decoração tinha traços inequívocos de terras lusas, onde não faltavam umas rendas bordadas a lembrar Viana do Castelo. Reparei numa gramática portuguesa e num livro da terceira classe e perguntei à filha, que falava fluentemente inglês, a razão da presença daqueles livros. Foi então que fiquei a saber que, tal como outras famílias a viver no bairro português, tinham pedido á embaixada portuguesa em Kuala Lumpur livros e um professor para aprenderem português. Couberam-lhes aqueles dois exemplares. Quanto ao professor de português esperara e desesperaram. Diziam algumas palavras , sendo que a miúda, de 17 anos, era a única que conseguia dizer umas frases completas.


No final do jantar, como forma de reconhecimento pela nossa presença, cantou um fado. Não sou capaz de vos descrever a emoção que senti naquele dia e ainda agora, ao descrever este episódio, senti os pêlos todos do meu corpo a eriçarem-se. Como é possível Portugal ignorar estes resistentes da cultura portuguesa no Mundo? Talvez vos fale disso, quando aqui trouxer uma imagem de Goa.

Conversas com o Paplagui (44)

- Onde vais com tanta pressa, tuga?
- Vou a uma consulta do coração.
-Não sabia que sofrias do coração.
- Não sei se sofro, mas o melhor é prevenir.
- Então vais ao médico fazer um "check up", é?
- Não! Vou fazer sexo.
- Fazer sexo? Mas ainda esta manhã, quando te encontrei, disseste que tinhas cabado de fazer sexo...
- Claro! Li no jornal que o sexo a dobrar diminui o risco de enfartes , por isso faço duas vezes ao dia. A prevenção é o melhor remédio...
Aviso: se quiserem saber mais pormenores, aconselho-vos a passar por aqui

As cidades dos outros (5)

A cidade escolhida pelo Rogério mereceu, recentemente, a qualificação de melhor destino da Europa. Não diria tanto, mas os profissionais que a escolheram sabem do que estão a falar. Uma coisa é inegável: nestes últimos dias está particularmente bonita.

Sugestão do dia

Uma visita à "Barbearia do Senhor Luís"