quarta-feira, 24 de março de 2010

Memórias do padre Frederico



Os recentes pedidos de desculpas do Papa trouxeram-me à memória um caso ocorrido em Portugal em 1993.
Embora na altura vivesse em Macau, a notícia do padre Frederico, acusado, julgado e condenado, por ter matado um jovem de quem terá abusado( ou tentado abusar?) sexualmente, foi por lá bastante discutida e levantou discussões acesas, com intervenientes que agora prefiro não recordar.
Lembro-me que, na altura da hilariante - para não dizer degradante - “fuga” do Padre Frederico para o Brasil (dias depois entrevistado em Copacabana por um canal de televisão português) foram várias as vozes que se levantaram contra a justiça portuguesa, acusando-a de estar a querer enxovalhar a Igreja Católica.
Alguns órgãos de comunicação social alimentaram esta tese, favorável às pretensões do clero. Da Igreja Católica, não me recordo de ter ouvido qualquer condenação.Neste momento, com a descoberta dos inúmeros casos de pedofilia em todo o mundo- a que não falta um proxeneta que, no Vaticano, arranjava miúdos com que alimentava os vícios privados de alguns- consta que em Portugal haverá 10 padres sob suspeita . Não me surpreenderei se o número vier a aumentar substancialmente. Apenas me surpreende o silêncio de algumas vozes tão exaltadas que saíram em defesa do padre Frederico.

O Horror Económico

Viviane Forrester tornou-se conhecida dos portugueses, no início da década de 90, depois da publicação do seu livro “O Horror Económico”,no qual tecia duras críticas e lançava diversos alertas sobre a globalização.
Quatro anos depois,o seu novo livro “Uma estranha ditadura” ( tradução directa do original) onde o ultraliberalismo voltou a ser alvo das suas críticas, foi outro sucesso de vendas. A mensagem que Viviane Forrester procura veicular nos seus livros é a de que o actual sistema funciona como uma fábrica de excluídos onde, em última análise, se encara o ser humano como mero receptor de produtos e serviços. Tece várias críticas à forma como os imigrantes são tratados nos países receptores, lamenta a indiferença dos políticos face aos problemas do sub-emprego, (forma de empregabilidade precária que dá muito jeito às estatísticas) e afirma que vivemos num sistema ditatorial que alastra à escala mundial.
Ao ler os livros de Viviane Forrester,os menos atentos poderão pensar que estão perante uma feroz adversária da globalização que aproveita a sua boa capacidade de escrita para denegrir, em livros, o ultraliberalismo que caracteriza a nova economia. É possível que alguns pensem mesmo que a autora é uma “gauchiste”, com toda a carga negativa que, para alguns, a palavra encerra.Puro engano!
De origem burguesa, filha de banqueiros e sem acção política conhecida, esta crítica literária do prestigiado jornal francês “Le Monde” afirma ser grande defensora da globalização e até foi convidada para participar no “Forum de Davos” onde os mais poderosos discutem o futuro do planeta à escala económica. Aí chamou a atenção para aquilo que considera dois grandes erros:Em primeiro lugar, a confusão que se estabeleceu entre globalização ( cujas vantagens enaltece) e “ultraliberalismo” que condena veementemente por considerar uma forma de destruição do ser humano e da própria economia.Em segundo lugar, advertiu que a globalização, enquanto “gerida pelo ultraliberalismo” está a conduzir a uma ditadura de tipo estalinista, muito bem camuflada, para que não pareça uma ideologia. Ou seja: como defende em “Uma Estranha Ditadura”, Viviane Forrester afirma que vivemos numa ditadura, mas não conhecemos o rosto do ditador, o que torna muito mais difícil combatê-lo. A ser assim, pergunto: afinal a profecia de Georges Orwell em 1984 cumpriu-se...apenas não demos por ela?
A posição de Viviane Forrester, face à globalização, não difere muito da que foi defendida pela maioria dos participantes no “Forum Social Mundial” que decorreu há meses em Porto Alegre. Nesta manifestação paralela à “Cimeira de Davos”, associações ambientalistas, de consumidores, ou de defesa dos direitos humanos, parecem estar de acordo com as vantagens da globalização. O que une todos aqueles que protestaram em Seattle, Praga, Copenhague, Londres, Génova ou Porto Alegre, e prometem continuar a fazê-lo ao longo dos próximos tempos nos mais variados pontos do Globo, é a face desumana da globalização que, aliada ao ultraliberalismo, está a gerar por todo o Mundo uma onda imparável de pobreza e exclusão e a permitir a concentração da riqueza e do Poder num cada vez mais reduzido número de pessoas.Tal como aconteceu no mundo do consumo, onde os consumidores se foram progressivamente afastando do produtor ou fornecedor de serviços, também neste mundo global os cidadãos se vêem cada vez mais afastados dos instrumentos de decisão e sabem que o voto que o regime democrático lhes confere está a perder significado.
É altura de pararmos para pensar e compreender que o centro da discussão não está em ser a favor ou contra a globalização, mas sim sobre a forma de a implantar. Quando todos compreendermos isso, talvez tudo recomece de novo. Parafraseando o Padre Vítor Melícias, numa conversa televisiva, talvez seja então chegada a altura de percebermos que temos dois olhos (um para ver o bem e outro para ver o mal) e verificar que temos andado com um deles tapado.
É que, se custa a compreender que paguemos num restaurante de Lisboa 3 euros por uma chávena de café da Papua, cuja colheita é paga aos trabalhadores daquele país a três cêntimos /hora, logo perceberemos, destapando o outro olho, porque razão no Perú as plantações de café estão a ser substituídas por plantações de coca. É que enquanto no mercado mundial o preço do café desceu aos níveis mais baixos desde 1994, o preço da folha de coca aumentou substancialmente...

Portugal no feminino (18)


Embora tenha nascido em Itália, em 1930, Anna Mascolo veio viver para Portugal com 10 anos O importante papel que desempenhou no desenvolvimento do bailado em Portugal, justificam a sua inclusão nesta galeria de grandes mulheres portuguesas.
Fundou em 1958 a Escola de Dança Clássica Anna Mascolo, cuja criação se ficou a dever ao facto de ter sido impedida de integrar o American Ballet Theatre por…ser casada!
Dez anos mais tarde funda, conjuntamente com alguns dos seus alunos, o “Grupo de Bailado Anna Mascolo”. O forte desejo de aprender e ensinar levaram- na a permanecer durante longos períodos fora do país, nomedamente na sua Itália natal e, nos anos 80, esteve durante algum tempo em Macau. O sucesso do bailado que apresentou com o bailarino chinês Cheog Son Seng, motiva o convite para criação de uma escola de Dança Clássica naquele território mas, tal como sempre acontecera desde 1960, o governo português negou-lhe qualquer apoio.

Blogs no feminino (18)

Hoje aconselho-vos uma ida até à Planície da Memória