sexta-feira, 19 de março de 2010

Portugal ao espelho


Portugal não é apenas esse país exótico que inventou os PIN para viabilizar projectos turísticos, comerciais ou industriais em áreas protegidas, ou altera um PDM num piscar de olhos, para proteger a actividade de um sucateiro cuja influência pode ser importante no resultado eleitoral de um concelho recôndito.
Portugal é o país do “jeitinho”, do “empenho”, (“ ó sr doutor, se me arranjasse qualquer coisa ao miúdo que anda há dois anos ao alto sem conseguir trabalhar… Obrigado stôr), onde (quase) ninguém já acredita ser capaz de mostrar o seu valor se não tiver um encosto, um padrinho, uma “cunha”.
Mas Portugal é, também, um dos países europeus onde os cidadãos mais fogem ao cumprimento dos seus deveres fiscais, utilizando as mais imaginativas artimanhas para iludir o Fisco.
Em Portugal, não é só o merceeiro que rouba no peso do fiambre. Também o médico ou o advogado evitam passar recibo sobre os seus serviços e, quando lho exigem , vai de carregar sobre o preço da consulta.
No final de uma refeição num restaurante, há sempre um empregado solícito que pergunta: "deseja factura?"
Quando pedimos a um electricista, um canalizador, ou um carpinteiro, algum serviço em nossas casas, a pergunta sacramental, antes de fazerem o orçamento é: "quer recibo?" Ou seja, quer que lhe ponha mais 20 por cento de IVA na conta?
Claro que o português não quer, por isso responde logo: "não, deixe lá isso!"
Portugal é o país onde a Segurança Social detectou, nos últimos meses, 80 mil infractores. Ou seja, 80 mil cidadãos que se locupletaram indevidamente com quantias que não lhe eram devidas, pagas por todos nós. Baixas fraudulentas, gente a receber subsídio de desemprego, enquanto trabalha noutro local, ou está a gerir o seu boteco.
Portugal é o país onde a alta finança se move tranquilamente em off shores, a banca está sempre sob suspeita e as gasolineiras aumentam o preço dos combustíveis quando desce o preço do petróleo.
Resumindo: somos um país de vigaristas!
Perante este panorama, espanto-me quando vejo os portugueses obcecados e deprimidos com a ideia de um conselheiro de Estado ser um troca tintas ou de um PM ter metido a mão na massa de um “outlet”. Mas afinal não são os nossos governantes portugueses? Não pertencem eles à oligarquia de interesses de um Centrão que governa o pais há mais de 30 anos , retribuindo-se favores e prebendas, partilhando salomonicamente os cargos decisórios?
O Centrão lembra-me, com inusitada frequência, o comportamento de duas famílias que lutam pelo poder de uma região. Convivem alegremente nas festas de casamento entre membros dos clãs, fazem discursos elogiando o significado daquela união, mas vão ao funeral dos membros da família adversária com aquela doce sensação de que ganharam mais poder com o seu enfraquecimento. Perdem a compostura e sacam de naifas ou revólveres, para eliminar o adversário, no momento em que a conquista de uma posição favorável no tabuleiro de xadrez depende de uma ida às urnas. Encarniçam-se, fazem jogo sujo, mas unem-se para alertar os seus súbditos que a luta se limita aos dois clãs.
Sinceramente, não tenho pachorra para tanta mesquinhez. Estou fora deste filme, porque quando se trata de lutas de “famiglia”, prefiro o recurso ao DVD, para ver os requentados episódios de “La Piovra”! Ao menos, aquilo é ( aparentemente) apenas ficção.
Parafraseando aquele “graffitti” na cidade do México, onde se podia ler “Basta de realismo, queremos promessas!”, apetece-me dizer:Basta de telenovelas noticiosas, queremos saber o fim da história!

Portugal no feminino (15)

Palmira Bastos
(1875-1967)
Filha de espanhóis, nasceu em Portugal ( Alenquer) porque os seus pais faziam parte de uma “trupe” que apresentava peças de teatro de terra em terra.
Nasceu no teatro e representou quase até ao fim da vida. Não terá sido a maior actriz portuguesa de todos os tempos ( embora se encontre indiscutivelmente entre as maiores), mas trago-a aqui porque ela era a figura principal da primeira peça de teatro "adulto" a que assisti ao vivo. Foi no teatro Monumental, e a peça era “As Árvores Morrem de Pé”.
Ainda hoje sinto um arrepio percorrer-me de alto a baixo quando lembro aquela noite.No momento em que Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala no chão, diz “ As árvores morrem de pé!”, todo o público se levantou, empolgado, numa estrondosa salva de palmas. Percebi, pela primeira vez, a grande força do teatro. Arrepiante!
Palmira Bastos trabalhou no teatro até Dezembro de 1966, falecendo no ano seguinte.

A ficção socialista

São cada vez mais as vozes, dentro do Partido Socialista, que se insurgem contra o PEC . Considero uma reacção natural, pois nenhum socialista pode apoiar medidas que penalizam fortemente quem vive do seu trabalho e beneficiam os especuladores.
O PEC é insustentável, mas já há muito se sabia que Sócrates vive num mundo de ficção, de que ele é o epicentro e que sempre governou favorecendo a direita, esquecendo-se que é secretário-geral do PS e não do PSD ou do CDS. Esta reacção peca, por isso, por tardia. Se na altura própria os verdadeiros socialistas se tivessem insurgido contra a política de direita prosseguida pelo governo de Sócrates, talvez nunca tivéssemos chegado a uma situação tão difícil como a que vivemos. Agora, é tarde. O Partido Socialista - que na prática está arredado do poder desde 2001- vai continuar fora da governação durante muitos anos, porque aqueles que tinham a obrigação de ter denunciado em tempo oportuno que Sócrates era um logro, mantiveram-se demasiado tempo calados, pactuando com uma ficção.

Blogs no feminino (15)

Hoje, a minha sugestão é que vejam o mundo através dos óculos da Teresa. Em Os meus óculos do mundo a autora dá-nos algumas perspectivas que valem a pena. Não percam, por exemplo, um video sobre o dia do Pai que hoje se assinala.