segunda-feira, 8 de março de 2010

Carta à mulher portuguesa

Tenho sentimentos contraditórios em relação ao Dia Internacional da Mulher. Expressei isso mesmo numa "Carta à Mulher Portuguesa" que publiquei no CR ano passado.
Como muitas das leitoras que hoje em dia me visitam, não tiveram oportunidade de a ler, aqui fica o link para o post de 8 de Março de 2009.

Portugal no feminino (6)

Maria do Céu da Conceição

Neste Dia Internacional da Mulher escolho para destaque uma mulher jovem. A escolha tem um objectivo. Mostrar que, apesar de tudo o que se diz, há mulheres portuguesas, jovens, que têm preocupações que vão muito além da superficialidade que normalmente os adultos lhes atribuem. Mulheres que não se preocupam apenas com a satisfação pessoal, ou com a ascensão programada nas escolas das jotinhas, onde o jogo das cumplicidades lhes assegura o sucesso. Mulheres que não se completam na realização da sua vida profissional que lhes assegure desafogo financeiro, mulheres que se preocupam com os outros.

Maria do Céu da Conceição, 32 anos, é uma dessas mulheres. Assistente de bordo da Emirates Airlines, fez uma escala de 24 horas em Dhaka ( capital do Bangladesh). Corria o ano de 2004 , tinha 26 anos e vontade de conhecer o mundo, usufruindo das vantagens que a profissão lhe proporciona. Só conhecia a cidade pelas notícias e perguntou, no hotel, o que havia para ver. Responderam-lhe “aqui só orfanatos”. Foi ver um, de onde saiu impressionada. Seguiu-se uma visita a um hospital . O espectáculo de miséria e a falta de higiene que os seus olhos presenciaram, não a fizeram virar a cara e regressar ao hotel acabrunhada. Resolveu agir. Ofereceu-se como voluntária . Recusaram-na. Não baixou os braços. De regresso ao hotel, passou por dezenas de meninos abandonados que lutam pela subsistência, vendendo produtos variados. Pensou: se me recusam como voluntária, tenho de fazer alguma coisa. Na sua cabeça começou a crescer o embrião de um projecto que permitisse tirar as crianças da rua e aliviar a pobreza de quem vive nos bairros de lata de Dhaka, em condições miseráveis.

Assim nasceu, em 2005, o Dhaka Project. Numa casa alugada albergou 39 meninos de rua a quem deu comida, roupa, brinquedos e educação básica. O namorado não gostou da ideia e deixou-a. Maria do Céu ganhou mais forças. Conciliando o trabalho no ar com a acção em terra, deu asas ao sonho. Pediu aos amigos que contribuíssem com roupas, brinquedos, livros e tudo o que pudessem arranjar para aqueles meninos.Assim foi germinando o seu projecto. Crescendo regado pelo amor que depositava na sua tarefa.

Cinco anos volvidos, o Dhaka Project abrange 600 crianças. Uma creche, uma escola pré-primária e uma escola primária, frequentadas por mais de 200 crianças que recebem comida, roupa, brinquedos, educação e, acima de tudo, muito carinho. Outras 500, frequentando outras escolas de Dhaka, são apoiadas pelo Projecto com que Maria do Céu da Conceição fintou o destino. Recebem assistência médica, duas refeições diárias e dinheiro para as propinas escolares.

O Dhaka Project também apoia meia centena de pais destas crianças. Dá-lhes aulas , ensina-lhes regras de Higiene e Planeamento Familiar e depois procura encontrar-lhes um emprego. Parte dos salários destes pais sustentam a educação das crianças até aos 18 anos. Depois, será a vez destes jovens darem o seu contributo às crianças mais pequenas, que entretanto forem acolhidas pela instituição.

A revista “Emirates Woman” distinguiu em 2009 esta mulher de coragem, com o prémio “Emirates Women of the Year”. Ela agradeceu. Em nome das crianças e dos patrocinadores que apoiam o Dhaka Project. De seguida, meteu mãos à obra para lançar outro projecto: criar um orfanato no Brasil, para crianças das favelas.

Sem surpresa...



Este ano não pude ver a cerimónia dos Óscares. Pelos relatos que me vão chegando, não perdi grande coisa. E, quando esta manhã soube o nome dos principais vencedores, não tive qualquer surpresa. " Estado de Guerra " arrebatou seis estatuetas - entre os quais o de Melhor Filme- e a realizadora Kathryn Bigelow tornou-se a primeira mulher a receber o prémio para o melhor realizador. Não vi "Estado de Guerra" e não posso opinar sobre o mérito do filme mas, como ontem já tinha comentado em alguns blogs, estes prémios pareciam-me tão óbvios que tive a sensação de já terem sido anunciados antes da cerimónia. Que grande diferença para o "suspense" do ano passado, quando "Slumdog Millionaire" foi o grande vencedor!

Homenagem às mulheres portuguesas


Estas flores são uma forma simbólica de homenagear, neste Dia Internacional da Mulher, todas as leitoras que fazem o favor de me ler. Por agora, deixo-vos com este poema de António Gedeão. Volto mais tarde, com "Portugal no Feminino". Tenham um bom dia.
Calçada de Carriche
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
( António Gedeão/ Poesias Completas)