quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Misérias portuguesas"

" (...)o jornalismo, que devia ser, e já foi, uma referência em forma de caução, é a miséria que por aí se vê. Mais cedo do que tarde terá de proceder a um mea culpa; mas nem assim arredará as gravíssimas responsabilidades que lhe cabem no desrespeito geral.
Viver em conjunto precisa de conflito, de polémica, de emoção. E da construção de um elo plural, com valores que desenvolvam o sentimento de pertença e de diferença. Todos estes padrões têm sido desprezados, com proficiência, por políticos manifestamente de segunda ordem e por jornalistas de adiantada mediocridade, agigantado ego e gramática fugaz.
O escabroso espectáculo no Parlamento, fornecido por Mário Crespo, José Manuel Fernandes e Felícia Cabrita, tidos como apreciáveis jornalistas (enfim: a estimativa não é generalizada, bem pelo contrário) desacreditou, ainda mais, o já azarento ambiente em que vive a Imprensa(...)"

(Misérias portuguesas: Baptista Bastos, DN hoje)

Gostava- como certamente muitos outros jornalistas da minha geração, de poder discordar destas palavras, mas não posso.Nasci no tempo em que um jornalista tinha de driblar a Censura e apurar a escrita para se fazer entender nas entrelinhas. Hoje em dia não há Censura, nem é preciso apurar a escrita. Basta uma mente criativa que invente uma manchete capaz de vender jornais. Não é preciso que seja verdadeira,o essencial é que gere polémica e atraia leitores. O desmentido virá depois em nota de rodapé.
Não me espanto, por isso, que jornalistas mais ou menos responsáveis confundam a publicação de escutas em segredo de justiça com liberdade de imprensa;
Que comparem uma providência cautelar com "exame prévio";
Que aplaudam um director de jornal que usou diversas artimanhas para não ser notificado de uma previdência cautelar, depois de terem criticado uma viagem de Pinto da Costa a Vigo, para se eximir a receber uma notificação;
Que se curvem reverencialmente perante o espectáculo circense protagonizado por Mário Crespo na AR;
Que se remetam ao silêncio quando, depois daquele espectáculo, Mário Crespo aparece na SIC Notícias a moderar um debate onde vários jornalistas faziam a análise à entrevista de MST ao Primeiro- Ministro;
Que haja jornalistas que estejam mais interessados em fazer política do que jornalismo.
A única coisa que me surpreende é que ainda haja gente a comprar jornais.

Gosto de pessoas assim

Apresenta, há sete anos, um dos programas de maior audiência na televisão portuguesa. É uma figura simpática, mas são muitos os que não o suportam, pela vacuidade do seu discurso, pela sua postura apalhaçada, pelo estilo repetitivo, pela ignorância que revela.

Há dias veio parar-me acidentalmente às mãos uma revista onde era entrevistado. Comecei por ler as gordas e detive-me numa das chamadas: “ Nunca na minha vida li um livro. E agora?”.
Uma pessoa que assume publicamente nunca ter lido um livro é merecedora do meu maior respeito. Num mundo onde o politicamente correcto obriga muitas pessoas a darem de si uma imagem diferente da real, onde toda a gente garante ter pelo menos cinco livros na mesa de cabeceira e não falta quem armazene uma colecção de “pensamentos de ilustres” para citar durante uma entrevista, só posso louvar quem tem a coragem de assumir a sua aversão aos livros.

A única vez que falei com Fernando Mendes foi em 1993. Estava de passagem por Lisboa, fui convidado para uma festa num lugar “in” e ele meteu conversa comigo, porque me confundiu com outra pessoa. Desfeito o equívoco conversámos durante alguns minutos. Pareceu-me uma pessoa simpática e afável. As conversas de circunstância não dão para tirar mais ilações.
Anos mais tarde, já em Portugal, vi-o numa série televisiva “ Nós os Ricos” (???) que segui com pouca atenção. Talvez um pouco mais do que a que dispenso ao “Preço Certo”( que é nula), pelo que não tenho opinião formada sobre as suas qualidades artísticas. Percebo apenas, em conversas que ouço no Metro, ou circunstancialmente em grupos de amigos, que as opiniões se dividem. Nunca tomei partido nessas conversas, precisamente porque não tenho opinião. Depois de ler a entrevista tenho pelo menos uma (aparente) certeza: Fernando Mendes é uma pessoa genuína e descomplexada que não alinha pelo pensamento e discurso politicamente correcto. Não se embrulha em papel de celofane, para vender a imagem. Assume-se. Diz que não gosta de ler e ponto final. Gosto de pessoas assim.
Enquanto escrevia este post, lembrei-me do que escrevi há uns tempos sobre Tony Carreira.

Vinho e criatividade

Ao contrário da publicidade que aqui vos trouxe ontem, este anúncio é, em minha opinião, genial.
E vocês, o que pensam?