sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Crónicas de Graça # 10

O piquenique

Não gosto de piqueniques. São tantas as razões, que nem sei por onde começar. Tentemos então ir pela mais fácil. Parece-me bizarro que,a pretexto de conviver com a Natureza, as pessoas cometam, nesses momentos, verdadeiros atentados contra a sua preservação. Se no final de um dia de Verão passarmos por alguns locais onde as pessoas habitualmente param para refeiçoar ao ar livre, ficamos com a sensação que um exército a caminho de uma campanha bélica, por ali parou para recompor o estômago, sem cuidar de apagar os vestígios.
Pelo recinto deixaram espalhadas latas de conserva, restos de comida e uma parafernália de objectos que por ali ficarão expostos, à espera de um grupo de voluntários, amigos da Natureza, que os venha remover. Sacos de plástico contendo guardanapos e toalhas de papel, copos e talheres “usa e deita fora”, uma tupperware partida, garrafas e restos de comida, que os comensais deixaram encostados às árvores.
A falta de civismo casa bem com gente que não pensa. Poucas horas depois de o local ter sido abandonado, já há cães vadios farejando os sacos, atraídos pelo cheiro dos restos do arroz de frango ou por uma lata de atum “Bom Petisco” aberta, mas não consumida e pelos restos de um gelado familiar da “Olá” reduzido a uma viscosa pasta colorida. O espectáculo torna-se ainda mais degradante. Sacos de plástico agora esventrados, de cujas entranhas se solta o conteúdo, espalhado pela gula dos cães que não são obrigados a ter as boas maneiras que se esperava fizesse parte da conduta dos humanos.
Um olhar mais atento vislumbra marcas de pneus avançando pinhal dentro, porque os comensais piqueniqueiros não quiseram deixar o carro na berma da estrada e avançaram até ao local do repasto. Na caminhada destruíram alguns pequenos arbustos, esmagaram plantas, cortaram cerce a vida a quem importunava o seu caminho.
É neste momento que começo a imaginar o cenário do dia.
Pelo fim da manhã, famílias ou grupos de amigos saíram de casa, transportando nas bagageiras dos seus automóveis, o arroz de frango, os rissóis e os croquetes, uma sobremesa doceira à espera dos elogios dos restantes comensais. À medida que chegam procuram os melhores lugares, onde pensam poder estar mais isolados ( tarefa inútil, porque passado uma hora já há mais gente à sua volta do que na tenda dos couratos à porta do Estádio da Luz) e vão despejando, de cestas de verga as tupperwares e tachos onde acondicionaram os pitéus que depositam em toalhas que servem de mesas improvisadas.
Reunido o grupo, cada agregado desfila o reportório da sua ementa. Cada um tem de provar de tudo, sob pena de ser considerado careta ou mal educado. Um bocadinho de arroz de frango aqui, um pouco de feijoada acolá, mais o entrecosto a grelhar num fogareiro próximo, eventualmente uma sardinha que lhe fazia companhia, um pastel de bacalhau, uma empada especialidade da D. Joaquina, uma fatia de pudim, receita secreta da D. Arminda, um olhar enjoado para o gelado da Olá, uma fatia do bolo da D. Berta, especialmente recomendado para o café que será acompanhado pelos homens com um whiskey ou um bagaço, para ajudar à digestão.
No final da refeição, a que não faltou a companhia de melgas, mosquitos e uma ou outra abelha que provocou gritinhos apavorados nas representantes do sexo feminino. Quando um exército de formigas marcha em direcção à mesa improvisada e dois cães vadios esperam o melhor momento para surripiar as sobras, alguém pergunta:
“E se fossemos dar um passeio para desentorpecer as pernas e fazer a digestão?” O repto é de imediato aplaudido por alguns que, olhando para a tralha espalhada, vêem no passeio uma boa oportunidade para se furtarem à desagradável tarefa de ter de arrumar a tenda. As vítimas do costume dizem “vão lá vocês que nós ficamos aqui a arrumar”. Recebem como resposta um pouco convincente “ Deixem lá isso que arrumamos tudo quando voltarmos”, enquanto iniciam a caminhada sem olhar para trás, não vão as vítimas do costume mudar de ideias e decidir acompanhá-las. Ao longe ouvem-se vozes de adolescentes “ Olha que borboleta tão gira! Ficava mesmo bem no meu caderno de biologia.” Iniciam a caçada, afastando-se do grupo dos adultos.
Entretanto, o Joãozinho, o Carlinhos e o Toneca renunciaram ao passeio e ficaram a ensaiar dribles e caneladas, enquanto se esforçam por anichar a bola numa baliza improvisada com dois ramos arrancados a uma árvore que “estava mesmo a jeito”. O jogo terminou quando numa jogada mais disputada o Toneca atirou a bola com força e esta foi bater na cabeça do avô Gregório, que já se tinha estendido na rede montada entre duas árvores, para dormir uma sesta onde não faltarão os acordes de uma melodia ronqueira, provocando risos abafados nos que renunciaram ao passeio.

Quando os caminhantes regressam, já está tudo arrumado, da forma já descrita, mas a D. Josefina que guardara na sua cesta de verga algumas sobras para o almoço do dia seguinte pergunta, solícita:“Ninguém quer comer nada? Ainda sobraram uns pastelinhos de bacalhau, uns ovos cozidos e uns rissóis de camarão…”
Todos recusam, mas o Alípio ainda atira “ se houver por ai uma bejeca fresquinha…”
“ Não te ponhas a beber mais, pá!" responde o Belmiro estirado na rede deixada livre pelo avô Gregório que, traído pela próstata, foi obrigado a procurar alívio nuns arbustos afastados.
O grupo está de novo reunido e vai começar a debandada. O dono da telefonia pede licença para a desligar e começam as despedidas.
“ Onde está o Pedro?”- pergunta o tio João. “E a minha Isabelinha?” – acrescenta a avó Matilde. Olham em volta e vêem os dois jovens caminhando na sua direcção. A Isabelinha traz na mão uma flor oferecida pelo Pedro, em momento de arrebatamento e ajeita discretamente a saia amarrotada. Quando chegam junto dos adultos, rostos afogueados, atropelam-se na explicação da caçada à borboleta.
“ E onde está a borboleta?”- pergunta o Carlinhos, como sempre inconveniente, enquanto esmaga com o pé uma centena de formigas que regressavam a casa, carregadas de mantimentos.
Bem, vamos lá embora” – responde o pai do Pedro, enquanto pisca disfarçadamente o olho ao filh em sinal de aprovação.
Todos estão felizes, acharam o dia fantástico e discutem já o local do próximo piquenique. Todos têm uma sugestão, mas já é tarde para decidir, por isso o grupo delega a decisão nas senhoras.Mais uns beijinhos, o Pedro ainda pergunta “ Não há nada que se coma?”, mas a avó Matilde responde de imediato. “ Ó filho vamos mas é embora que se está a fazer tarde. A avó tem ali um tupperware com umas coisinhas, comes no carro”.
Finalmente a partida. O Pedro e a Isabelinha despedem-se com uma troca de olhares cúmplice. Os carros fazem-se à estrada. Isabel leva a flor encostada ao peito. Pedro vai distraído a pensar no próximo encontro. Ninguém repara numa árvore com dois corações entrelaçados e a frase “Pedro Ama Isabel”. Ficou esculpida a canivete uma tarde memorável de convívio com a Natureza. Vá lá, a borboleta safou-se de acabar espalmada numa folha A4…
Os cães aproximam-se finalmente dos despojos. Chegou a hora do seu piquenique.

Eu sei que hoje em dia os piqueniques já não são assim. A única semelhança com a cena descrita é o desrespeito pela Natureza. Será que a minha querida parceira tem uma opinião mais positiva sobre os piqueniques? Creio bem que sim, mas vão lá confirmar...