segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A receita do costume

Portugal vive uma crise financeira gravíssima. Os números do desemprego não param de subir. A pobreza aumenta. A maioria dos portugueses à beira da reforma, com mais de 30 anos de descontos, vê as suas pensões cortadas de forma brutal, nublando o seu futuro.A maioria dos portugueses verá os seus salários reduzidos em 2010. A saúde está cada vez mais cara e há famílias em sérias dificuldades para comprar remédios. A justiça move-se à velocidade do caracol e processos escaldantes continuam em banho Maria, enquanto a opinião pública vai cozendo em lume brando arguidos, suspeitos e suspeitos de serem suspeitos. Há pessoas julgadas em praça pública, que talvez nunca venham a ser julgadas, nem sequer constituídas arguidas.
Seriam casos suficientes para os portugueses se indignarem. No entanto, o que leva as pessoas a indignarem-se e convocar manifestações? A divulgação de escutas em segredo de justiça que, eventualmente, implicam alguns membros do governo na tentativa de manipular a comunicação social. Como número de circo, não me parece mal. O problema é que este tipo de manifestações faz-me recuar ao Chile dos anos 70…
O “Público” diz que a manif é convocada por gente de direita e de esquerda. Vai ser giro ver os revolucionários BE de braço dado com os "betinhos" de direita, à porta da AR. ( Felizmente o PCP põe-se a recato do folclore e não embarca em manifs ao estilo dos "Morangos com Açúcar").
Embora preze a liberdade de expressão, como um dos valores fundamentais de uma democracia, a convocação para esta manif é ridícula. Não só peca por estar desfazada da realidade, como levanta questões de credibilidade. Qual foi o governo dos últimos 25 anos que não tentou controlar a comunicação social?
Esta manif sugere-me mais um PREC da direita. Só podia ser no Inverno, claro, porque no Verão a direita está toda a bronzear-se e a beber caipirinhas nas festas algarvias da socialite, não tem tempo para manifs, nem para se preocupar com a liberdade de expressão. Caso contrário, talvez se tivessem preocupado há mais tempo com os jornalistas que têm de trabalhar na Madeira, por exemplo.
Agora na quinta-feira até calha bem. Como na véspera é lançado o livro da novel vítima da liberdade de expressão, já podem levar o livro debaixo do braço, para lhes sevir de Bíblia. Até proponho um nome, inspirado no Livro Vermelho:Livro de Pensamentos do Grande Líder Crespo”.
Enfim, quando o povo reclama pão, a direita oferece-lhe circo. A receita do costume.

Caderneta de cromos (15)


Quando os jornalistas são o centro da notícia, algo vai mal . Mário Crespo conseguiu, durante esta semana, ser o centro das notícias. Fica-lhe mal . A sua imagem piora quando se vitimiza e, de imediato, anuncia a publicação de um livro. Descredibiliza-se, quando se vitimiza à custa de um camarada de profissão, que apenas cumpriu o seu dever. Mário Crespo, infelizmente, não é o único a agir assim, mas tudo piora, quando se sabe que foi apoiante do PS. É legítimo perguntar se não está a agir por despeito.

Vamos lá cambada...


Sá Pinto bateu no seleccionador nacional, Artur Jorge, por não ter sido convocado, e algum jornalismo desportivo apressou-se a encontrar atenuantes. Anos mais tarde chegou a director desportivo do Sporting. Ao fim de dois meses andou à pancada com um jogador e foi despedido, entre loas e cânticos.
Scolari, seleccionador nacional, esmurrou um jogador adversário e a comunicação social que lhe era afecta, de imediato procurou desculpá-lo.
Carlos Queiroz, seleccionador nacional, andou ao murro com um comentador da SIC, delegado da UEFA, que o zurze constantemente nos seus espaços de opinião e toda a gente pede a demissão de Carlos Queiroz.
Há aqui qualquer coisa que me escapa…