sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Crónicas de Graça # 9

LIVROS
Uns, estão espalhados pelo meu gabinete de trabalho, sempre à espera que os convoque para lhes pedir uma informação ou confirmar um diagnóstico; outros, passeiam-se pela casa. Invadem as salas, saltam para cima de sofás, trepam pelas paredes, ou empilham-se em cima de uma secretária em paciente espera , aguardando o momento de serem folheados, lidos, ou devorados.
Quando entram cá em casa, todos têm uma certeza. Não irão parar a um caixote do lixo, como acontece com muitos que têm o azar de ser proscritos por Vasco Pulido Valente. Para mim, um livro nunca pode terminar numa incineradora, nem na reciclagem, a fazer companhia a papel de embrulho, ou de jornal, que serviu para acondicionar castanhas. O pior que lhe pode acontecer é ser entregue a uma biblioteca, uma espécie de Lar de Velhos para livros, onde ficam em repouso, à espera que alguém lhes faça uma visita, acaricie as suas lombadas, ou lhes desvende as entranhas. Alguns vão para lá novos. São aqueles de que não gosto e entraram por engano lá em casa. Olho para eles, travo um curto diálogo e arrumo-os a um canto, até ao dia em que irão fazer companhia aos mais velhos. Tenho a certeza que um dia alguém se encantará por eles.
Já perceberam que gosto de livros e os tenho como bons companheiros. Levo sempre alguns em viagem, à praia, à esplanada, ou ao Rochedo, onde converso com eles enquanto gozamos os prazeres do mar.Houve no entanto, ao longo da História, quem considerasse os livros perigosos.
Visto com reservas pelos poderes ditatoriais, o livro foi personagem principal num filme que marcou uma época: “Farenheit 451”. Em 1755, Diderot chamava a atenção na “Encyclopédie” para alguns dos seus perigos:
“ Convidam à preguiça, mobilizam demasiado a nossa atenção, são um obstáculo à aquisição própria de conhecimentos, levam a que negligenciemos outros meios que nos levam ao conhecimento das coisas. Ocupam o nosso espírito com coisas sem qualquer utilidade e afastam-nos da realidade do quotidiano”.
O livro sempre foi visto com desconfiança por poderes autoritários, mas serviu de meio de propaganda desses poderes. Há livros que nunca viram a luz do dia, ou viveram na clandestinidade, por causa da Censura.
Salazar, ao que consta, gostava de ler, mas foram muitos os livros cuja edição foi proibida em Portugal, por serem considerados “transmissores de ideias perigosas e nefastas, susceptíveis de corromperem a sociedade e os cidadãos”.
Em “O Palácio dos Sonhos” , do escritor albanês Ismail Kadaré, ficamos também com uma visão dantesca da relação entre o poder e os livros.
São inúmeros os casos de livros que só apareceram, porque os seus autores se exilaram noutros países, para dar asas à sua criatividade. Lembro apenas três, dos mais conhecidos: Solnietsjine, Kundera e Salmon Rushdie, mas os exemplos de escritores exilados é um rol extenso de más memórias.
Para exercer na plenitude a sua função, o livro precisa de viver em sociedades democráticas. É aí que o livro se sente bem e se assume, sem subterfúgios, nas suas diversas – e por vezes antagónicas- vertentes: veículo de informação ou propaganda, instrumento de entretenimento e cultura, ou simplesmente objecto decorativo destinado a emoldurar as prateleiras de uma estante, depositário de saberes, ou despertador de consciências.
Tal como o pão que compramos na padaria, a peça de vestuário que compramos na loja da esquina, ou a recordação que trazemos de uma viagem, também o livro é um bem económico que deve ser tratado como os demais. Há, porém, características que o diferenciam e tornam um objecto único.
Começa logo na fase de produção. Escrever um livro é um acto solitário e muitas vezes de sofrimento, só comparável à solidão do artesão que molda as suas peças. O livro também pode assumir valores comerciais diferentes consoante a forma como é editado. Um livro de bolso tem um valor diferente do que é encadernado em pele, embora o seu conteúdo e a sua qualidade sejam exactamente iguais. A finalidade é que pode ser diversa. Alguns querem os livros apenas para ler, outros gostam de os ver como objectos decorativos.
O livro também não está sujeito à moda, nem tem prazo de validade. Se assim não fosse, não se venderiam livros escritos há séculos, os clássicos não seriam lidos pelas novas gerações, um livro esgotar-se-ia num prazo drasticamente curto (Eu sei que há excepções, mas prefiro não falar delas).
Finalmente, porque a prosa vai longa, não é possível avaliar um livro de forma objectiva. Ao contrário de um automóvel, de um computador, ou de um electrodoméstico, nenhum vendedor pode garantir a um consumidor, que o livro tem qualidade ou se ajusta às suas necessidades e gosto. Os livros não têm rotulagem, nem certificado de garantia que assegure aos consumidores a qualidade da tradução, a inexistência de gralhas, ou acabamentos perfeitos.
Ciclicamente, há quem prenuncie a sua morte. Foi o que fez , por exemplo, Mc Luhan nos anos 40 do século passado, quando a televisão começou a despertar o interesse das pessoas. Com o advento da Internet fizeram-lhe novo enterro e outro se anuncia, com a chegada dos e-books. Mas os e-books não são livros. São formas mecânicas de leitura, que nos retiram o prazer de folhear um livro.
Acredito que o livro vai continuar a resistir a todos os ataques . Se um dia o matarem , estarão a roubar-nos a possibilidade de sonhar. E uma sociedade que não sonha, estiola rapidamente e acaba por morrer.
Qual será a opinião da minha parceira sobre os livros?