A pontualidade
Todos sabemos que a pontualidade não é propriamente um atributo dos portugueses. Aliás, na forma de viver lusa, o relógio não serve para ver as horas, mas sim de objecto decorativo. Seja ele de pulso ou de parede, o importante é que seja bonito, “fashion”, ou “fique mesmo bem em cima daquele móvel da sala”. É este apego pelo relógio, como elemento decorativo, que justifica o grande sucesso da “Boutique dos Relógios” onde se pode comprar um relógio por 240 mil euros. Convenhamos… qual é o interesse de comprar um relógio daquele preço para ver as horas, se qualquer computador ou telemóvel – objectos omnipresentes no nosso quotidiano- trazem um de borla?
Querem mais uma prova de que o relógio é um objecto ultrapassado? O Museu do Relógio em Serpa. Se o relógio não fosse um objecto obsoleto, como se explicaria a existência deste Museu?Na verdade, temos de reconhecer o sentido prático dos portugueses. Somos como somos e embora isso irrite muito os ingleses e os cidadãos de outros países da UE, somos felizes assim e faço votos para que não venha agora uma qualquer Directiva Comunitária obrigar-nos a cumprir rigorosamente os horários. Já basta a sardinha certificada para nos encher de orgulho, não precisamos agora de uma Directiva que nos promova a cidadãos pontuais. Por outro lado, quem anda num vaivém pelos corredores de Bruxelas,em ritmo ofegante à procura da sala onde se reúne a comissão de cujo nome já nem se lembra bem, mas que facilmente identifica porque dela faz parta uma italiana boazona, sentiria um certo desconforto se chegasse à sala e não ouvisse alguém dizer:
“Pronto, já podemos começar a reunião. O português já chegou!”Compreende-se. Se não fosse a nossa peculiar falta de pontualidade, ninguém nas comissões se apercebia que lá estavam portugueses.Por isso, senhores da Europa, deixem-nos ser felizes e continuar a não ser pontuais.É muito mais lógico e útil para os portugueses, que o significado da palavra “pontualidade” continue a ser “coisas pontuais”. Vai melhor connosco, com a nossa capacidade para improvisar e incapacidade para planear as coisas a médio ou longo prazo. É muito mais genuinamente português não planear nada e, por milagre, aparecerem alguns fora de série que conquistam medalhas olímpicas, do que planear tudo muito bem e, quando chega a hora da verdade, acontecer o fiasco.

Se planeássemos e fracassássemos,onde é que iríamos arranjar desculpas? Ainda nos JO de Pequim ficou bem demonstrada a nossa aversão ao planeamento. Tudo programado para trazermos uma catrefa de medalhas e quase toda a gente falhou, lançando o mau estar no seio da selecção olímpica e os ataques da comunicação social. Tudo se teria evitado, se a delegação portuguesa tivesse deixado correr o marfim sem grande preocupações.
Vejam o exemplo de Marcos Fortes, eliminado logo nas provas de qualificação. O rapaz estava habituado a treinar só de tarde e marcaram-lhe as provas para de manhã, claro que chegou atrasado e ensonado. Ora isso é natural, o que não é normal é que obriguem os nossos atletas a competir fora dos horários a que estão acostumados. Como se não bastasse terem de defrontar a diferença de fusos horários…
O português arranja justificações para tudo, adora improvisar,exulta com as acções pontuais, mesmo que desprovidas de qualquer lógica, porque sublinham a sua criatividade. É nesse ritmo de vida que se sente bem.Sendo o improviso uma das características marcantes do português, não é de estranhar que ao chegar atrasado a um encontro, tenha na ponta da língua a justificação adequada. Na verdade o português nunca se atrasa… chega atrasado, porque o autocarro teve uma avaria, o trânsito estava infernal, a tia avó teve uma doença súbita, a gata passou a noite com cólicas, porque estava calor, ou estava frio, chovia ou estava sol. Por isso se explica que, apesar da crise, o nosso primeiro-ministro ( um atrasado incorrigível) continue optimista. Havemos de encontrar uma solução e lá nos desenrascaremos. O importante é ter calma.
A falta de pontualidade dos portugueses já não me irrita, porque me deixa os nervos em franja. Por isso delirei quando, há tempos, o António Fagundes impediu que os retardatários vissem o seu espectáculo no Pavilhão Atlântico mas, dois dias depois, mergulhei numa grande depressão, quando fui ao cinema e me obrigaram a levantar meia dúzia de vezes, após o começo do filme, para deixar passar os atrasados.Em Portugal nada se faz a horas: perdem-se tempos intermináveis em consultórios de médicos pagos a peso de ouro; desespera-se pela entrega da mobília, do televisor, da peça de roupa, ou de um simples par de óculos,certamente porque as empresas que fornecem estes produtos são como algumas pessoas finas que gostam de chegar atrasadas a todo o lado, para dar nas vistas.
Saúdo,pois, a iniciativa de um grupo de cidadãos que decidiu apresentar uma petição na Assembleia da República, no intuito de tornar os portugueses mais pontuais. O problema é que, graças à falta de pontualidade dos nosso deputados, ainda não houve tempo para a analisar.
Já agora, se chegarem atrasados a um encontro, porque estiveram a ler esta insípida CG, podem atirar as culpas para cima de mim à vontade. Com uma condição: têm de obrigar a pessoa que fizeram esperar, a lê-la.
Já agora, digam-lhe também para ler a da minha parceira, que deve ter muito mais graça do que esta.
