terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mentira piedosa


Almoço em passo de corrida, entre uma conversa com imigrantes de Leste e uma visita a uma comunidade cigana. Quando a adrenalina está no auge, porque as reportagens me empolgam e os prazos para entregar os trabalhos se aproxima do limite, o período que diariamente consagro ao almoço - sem hora certa mas com um generoso intervalo para saborear calmamente a comida, fumar a cigarrilha e, quando possível, cochilar * dez minutos – reduz-se drasticamente. Mal saboreio a comida e qualquer coisa me serve para enganar o estômago. (De tantas vezes se sentir enganado, por vezes revolta-se, mas isso é outra história).
Este mês, raras vezes tive o prazer de um almoço prolongado e, no dia a que se reporta esta CENA, o tempo foi de tal maneira exíguo que decidi aportar a um desses locais de comida a peso, onde normalmente se paga na razão inversa da qualidade. Sentei-me na companhia de um linguado deficientemente grelhado e uns legumes cozidos a vapor, sentindo a falta de um copo de vinho que abrilhantasse o elenco, prazer a que apenas me entrego, à hora do almoço, quando o palco é a minha casa.
Na mesa ao meu lado, sentou-se um distinto cavalheiro, na casa dos setenta. Reparei que olhava com enlevo para o seu prato, onde acamavam quatro suculentas fatias de picanha, bocados de banana frita, uma salsicha grelhada e uma generosa dose de batatas fritas, num apetecível bacanal gastronómico. Pressenti, no seu olhar guloso, a iminência do pecado. Suspeitei que aquela refeição não respeitasse os cânones dos seus hábitos alimentares. Olhando-o discretamente entrevi, por detrás das lentes grossas, o relato de uma fuga à prescrição médica, aconselhando evitar fritos e carnes vermelhas.
Terminado o linguado, pedi café. O telemóvel do cavalheiro tocou. Atendeu lesto.
- Só vim aqui comer qualquer coisa, vou já para aí. Não te preocupes, sabes que o médico está sempre atrasado.
Do lado de lá alguém lhe deve ter perguntado o que estava a comer.Sem hesitar, respondeu.
- Um linguadinho grelhado com legumes cozidos.
- …?
- Não, batatas não, sabes que não devo comer . Olha, vou desligar que estou com pressa.
Desligou. Olhou-me de soslaio. Fez sinal à empregada que dá apoio às mesas e pediu:
- Traga-me meia garrafinha de vinho, faz favor.
Atirou-se à picanha e às batatas fritas. Com prazer e sem remorsos. Bem haja!
* O computador informa-me que cochilar não existe. É um ignorante, coitado. Nem imagina como é bom passar pelas brasas a seguir ao almoço.

O que é nacional é bom...lá fora|

O amigo Ferreira-Pinto levanta neste post uma questão muito pertinente.
Desdenhamos os produtos nacionais que os turistas procuram, porque somos um bocado pacóvios, embasbacados com as maravilhas que vêm da estranja.
Catarina Portas - que acaba de abrir uma loja no Porto depois do sucesso alcançado em Lisboa- bem nos tenta despertar para aqualidade dos produtos nacionais mas, ao que julgo saber, os seus melhores clientes são os turistas. Nós, como escreve nas entrelinhas o Ferreira-Pinto, continuamos a ir até lá fora para encher as malas de cheirinhos com "pedigree".