terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Das Gorbypizzas,ao professor Bambo

Quando Gorbatchev, depois de dar por concluída a sua missão na ex-URSS, deu o nome a uma pizza, muitas pessoas se escandalizaram e criticaram a ligação espúria entre o poder e o grande capital. Só que, como acontece com muitas outras coisas na vida, certas relações no início estranham-se, mas depois entranham-se. Por isso se explica, por exemplo, que ninguém tenha estranhado o facto de o vice-presidente americano, Dick Cheeney, estar intimamente ligado ao Carlyle Group, um dos maiores produtores americanos de armamento.
Bem, isto era o que eu pensava até ontem…mas descobri que estava enganado. Afinal as pessoas também se escandalizaram quando souberam que Tony Blair - o ideólogo da Terceira Via e destacado membro da banda "War Boys” que nos Açores acordou a invasão do Iraque, que haveria de incendiar o mundo e conduzir-nos a esta triste situação- virou vendedor de malas da Vuitton. Curiosamente, também se escandalizaram quando souberam que o primeiro-ministro da Letónia, Valdis Dombrovskis, foi consultar uma adivinha, para tentar saber o futuro do país, mas saiu de lá muito desiludido, porque a mulher falou como uma pitonisa.
Resumindo: continuamos a ficar com aquele olhar pasmado, cada vez que um político estrangeiro manifesta o seu apoio à iniciativa privada. Só não nos espantamos quando os nossos ministros, assim que abandonam os cargos, se tornam consultores, administradores, ou CEOs de uma qualquer empresa que estava sob a sua tutela, porque se tornou tão banal e corriqueiro que deixou até de ser notícia. Só nos voltaremos a espantar quando Sócrates ( ou Cavaco) chamar a S. Bento ( ou a Belém) o professor Bambo, pedindo notícias sobre o futuro do país.

i-pod(e)?


Quando a política de defesa do consumidor começou a fazer carreira nos Estados Unidos, ficou célebre o caso de uma viúva que apresentou queixa, em Tribunal, contra uma empresa de armas. Alegava a senhora, cujo marido se suicidara, que o livro de instruções da arma não informava que, se alguém premisse o gatilho com a arma voltada contra si, poderia morrer, vítima de uma bala alojada na câmara. A verdade é que a senhora ganhou a causa e recebeu uma choruda indemnização.
Desde então, tornaram-se frequentes as queixas apresentadas por consumidores americanos contra empresas. Uma das querelas mais mediáticas redimidas nos tribunais americanos teve início nos anos 80 do século passado, opondo grupos de consumidores às empresas tabaqueiras. Num país onde os maços de tabaco faziam parte da ração diária fornecida aos soldados, a queixa contra as tabaqueiras causou estranheza, mas a verdade é que depois de episódios rocambolescos – que serviram inclusivamente de tema a um filme com Al Pacino e Russel Crowe ( O Informador)- as tabaqueiras foram condenadas a indemnizações astronómicas e teve início a guerra anti-tabágica.
Mais recentemente, um grupo de consumidores apresentou uma queixa contra a Apple, alegando ter sofrido perdas auditivas pela utilização do i-Pod. Ganharam a causa em primeira instância mas soube-se, por estes dias, que um tribunal da Califórnia apreciou o recurso apresentado pela Apple, ilibando-a de qualquer responsabildade, pois os livros de instruções do i-Pod advertem os consumidores para o perigo de perdas auditivas, no caso de o aparelho ser utilizado indevidamente.Ao ler há dias o Libération, fiquei a saber que, em França, a Apple enfrentou um processo idêntico em 2002 e foi obrigada a baixar o volume máximo dos i-Pod para 100 decibéis, de modo a ficar conforme com o código de saúde pública.
Estes casos levam-me a suscitar algumas questões que me parecem pertinentes. Fico-me por esta: se um destes dias um grupo de consumidores apresentar uma queixa contra uma marca de automóveis, acusando-a de ser responsável pelas multas que foram obrigados a pagar, por circularem numa auto-estrada a mais de 120 kms/hora, invocando que no livro de instruções não se encontra o aviso de que não devem exceder a velocidade imposta por lei, como decidirão os tribunais?

Mrs Robinson

Desde manhã que esta música dos Simon and Garfunkel não me sai da cabeça. Por arrasto, vem o filme a que está associada: "The Graduate". Esta fixação terá alguma coisa a ver com esta bela crónica de Ferreira Fernandes e a estória que lhe serve de pretexto?
Adenda: Sobre este momentoso assunto, o Pedro Coimbra faz novas revelações( ao que parece Mrs Robinson é uma profissional na arte da traição) e a nova versão do celebrizad êxito. Vale a pena ir lá ver...