Quando Gorbatchev, depois de dar por concluída a sua missão na ex-URSS, deu o nome a uma pizza, muitas pessoas se escandalizaram e criticaram a ligação espúria entre o poder e o grande capital. Só que, como acontece com muitas outras coisas na vida, certas relações no início estranham-se, mas depois entranham-se. Por isso se explica, por exemplo, que ninguém tenha estranhado o facto de o vice-presidente americano, Dick Cheeney, estar intimamente ligado ao Carlyle Group, um dos maiores produtores americanos de armamento.
Bem, isto era o que eu pensava até ontem…mas descobri que estava enganado. Afinal as pessoas também se escandalizaram quando souberam que Tony Blair - o ideólogo da Terceira Via e destacado membro da banda "War Boys” que nos Açores acordou a invasão do Iraque, que haveria de incendiar o mundo e conduzir-nos a esta triste situação- virou vendedor de malas da Vuitton. Curiosamente, também se escandalizaram quando souberam que o primeiro-ministro da Letónia, Valdis Dombrovskis, foi consultar uma adivinha, para tentar saber o futuro do país, mas saiu de lá muito desiludido, porque a mulher falou como uma pitonisa.
Resumindo: continuamos a ficar com aquele olhar pasmado, cada vez que um político estrangeiro manifesta o seu apoio à iniciativa privada. Só não nos espantamos quando os nossos ministros, assim que abandonam os cargos, se tornam consultores, administradores, ou CEOs de uma qualquer empresa que estava sob a sua tutela, porque se tornou tão banal e corriqueiro que deixou até de ser notícia. Só nos voltaremos a espantar quando Sócrates ( ou Cavaco) chamar a S. Bento ( ou a Belém) o professor Bambo, pedindo notícias sobre o futuro do país.

