segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Caderneta de cromos (11)


Isilda Pegado é uma figura bizarra da nossa Democracia. Enquanto em todo o mundo democrático vão sendo reconhecidos os direitos das minorias e a maioria luta por mais direitos, ela luta contra os direitos de alguns. Lutou contra a despenalização do aborto, exige um referendo sobre a liberdade de casamento entre homossexuais e um dia destes, provavelmente, vê-la-emos na linha da frente a protestar contra a eutanásia. Não se pode dizer que a senhora não seja uma lutadora, mas vale a pena lembrar-lhe que há mais de um século, milhares de mulheres lutaram – e muitas morreram- pela igualdade de direitos com os homens e em Portugal, antes do 25 de Abril, as mulheres só podiam trabalhar, ou deslocar-se ao estrangeiro, com autorização do marido. Já depois do 25 de Abril, mulheres que lutaram pela liberdade, foram enxovalhadas por grupos de machões no Marquês de Pombal, que as apalpavam e insultavam.Se não tivesse havido mulheres a lutar pela dignidade, Isilda Pegado ainda não teria direito a votar e talvez estivesse a tomar chá com as amigas, realizando-se em reuniões de "tupperware".
Eu só queria perceber o que leva Isilda Pegado a esta luta desbragada contra os direitos dos outros. Em que medida é que os seus direitos são afectados com a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo? Porquê palavras tão azedas e anti democráticas contra os direitos dos homossexuais?
Quando alguém me explicar, com razoabilidade, as razões da luta de Isilda Pegado, talvez eu retire o seu nome desta caderneta de cromos. Até lá fica aqui muito bem. Como também ficariam aqui alguns homofóbicos, mas isso é outra história. Eu prefiro mulheres que lutam e ficam na História. Ou mulheres como a que escolhi para figura da semana.

O comentário virou post

Não é a primeira vez, mas raramente destaco comentários dos leitores. Parto do princípio que, quem por aqui passa, costuma ler a caixa de comentários e, por isso, o destaque torna-se repetitivo.
No entanto, desta vez não resisto a reproduzir este comentário da Turmalina ao meu post sobre a figura da década, aqui publicado na última semana. Não só pela qualidade do comentário e pelo conceito de democracia que dele ressalta e enaltece a sua autora, mas também porque as palavras que ela escreve se poderiam aplicar integralmente à realidade portuguesa, este comentário é para ler e meditar.

"........concordo que Lula seja a Figura Internacional da Década e graças à ele, somente ele com sua carismática figura, temos um reconhecimento internacional até que invejável.Seu discurso carismático me conquistou ainda na universidade. E acreditando em um país econômica, social e politicamente melhor votei nele na primeira vez que foi eleito Presidente.O mesmo, conscientemente, não pude fazer na reeleição.Pela primeira vez na vida me abstive de votar e justifiquei minha ausência porque eu não tinha um candidato.E eu não voto em qualquer um.
A economia passa por uma falsa sensação de estabilidade. Não existe mais governo e oposição, depois de tantos conchavos, todos os políticos estão em todos partidos. E lembro o caso Sarney para afirmar que a corrupção aqui é consentida.
Socialmente vivemos num consumismo ilusório.Enquanto as classes dominantes continuam no mesmo ritmo, a classe média e a baixa nunca trabalharam tanto para sobreviver. A ilusão de poder comprar um televisor de LCD em 10 vezes sem juros coloca o trabalhador num trabalho extenuante e altamente estressante. As leis trabalhistas nunca foram tão respeitadas, mas por outro lado, nunca tantos trabalhadores precisaram de dois empregos para pagar as contas.O sistema de educação está em frangalhos, a qualidade de ensino vai de mal a pior. Mas os números não mentem e nunca tantas crianças frequentaram a escola.E talvez saiam mais ignorantes do que entraram.Na saúde, crianças continuam morrendo de diarréia por falta de saneamento(necessidade básica)mas os pais se dizem felizes com a Bolsa Família.
Eu ainda acredito num povo com expectativas reais, educação e saúde de qualidade, trabalho justo e principalmente dignidade.E não será com a continuidade desse governo que aí está.Governo este que, hoje, não é mais o Lula.E honestamente acho que ele merece, ao final deste mandato, um lugar de destaque na política internacional.Afinal, nesta área e até em algumas outras, ele fez muito pelo país!"