sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Crónicas de Graça # 7

Revistas cor de rosa
Qual é a coisa qual é ela que ninguém compra, ninguém lê, mas que serve de pretexto às conversas nos cabeleireiros ? A resposta está no título desta CG.
As revistas cor de rosa ( que alguns também apelidam de revistas do coração) são um fenómeno desconcertante. Vendem-se como pãezinhos quentes, mas (quase) ninguém admite comprá-las. A maioria soube das notícias que lá vêm através de uns amigos, ou porque enquanto estava num consultório médico ou no cabeleireiro, à espera de vez, se entreteve a folheá-las, para “passar o tempo” . Ora todos sabemos “o tempo” que os portugueses passam anualmente em cabeleireiros e consultórios médicos, por isso não admira que , no metro, ouça com frequência conversas sobre o mundo do “jet set”.
Foi assim que fiquei a saber, por exemplo, que Cinha Jardim foi passar o Natal a Porto Rico na companhia das filhas e da cadela. Segundo afiançava uma das senhoras sentada à minha frente, terá ido aliviar o desgosto da traição de uma amiga que a terá “empalitado” com Santana Lopes, mas não vos posso afiançar que estas notícias sejam verdadeiras. Limito-me a reproduzir o que ouvi, porque o “passa palavra” é outro método de propagação das notícias da imprensa cor de rosa. Comprar, para ler, é que ninguém compra. Ainda ontem, quando cumpria o ritual de ler as gordas da imprensa matutina, antes de comprar o jornal, no “sítio do costume”, vi uma senhora de idade indefinida, (porque abundantemente maquilhada) mas que generosamente rotulei de septuagenária, recolhendo do escaparate um exemplar de cada uma das revistas da especialidade. Olhei-a de soslaio, mas ela apercebeu-se e apressou-se a dizer à funcionária:
- Sabe, não são para mim, é para levar ao meu marido que está no hospital, coitadinho, e não tem paciência para ler livros. Isto ao menos distrai-o um bocadinho…
Estas cenas explicam, em boa parte, as generosas tiragens e a variedade de títulos à venda em Portugal. Se pensarmos no número de cabeleireiros , de consultórios médicos e na quantidade de pessoas acamadas nos hospitais, compreendemos a razão das generosas tiragens de cada uma destas revistas. Isso também justifica que a imprensa denominada “ séria” não dispense umas páginas de fofoquice , na tentativa de angariar mais leitores. Isto anda tudo ligado…Não percebo, porém, a razão de toda a gente, “apanhada” a comprar revistas do coração, sentir necessidade de dar uma justificação. Bem, talvez a Brites e a Amelinha não necessitem de se explicar e assumam, galhardamente, o seu gosto por este tipo de leituras. São a excepção que confirma a regra.

Nada tenho contra os(as) leitores(as) de revistas cor de rosa, mas tenho alguma dificuldade em compreender o interesse que este tipo de imprensa provoca nos portugueses. Pensei, por isso, que deveria pedir à Brites que me substituísse nesta CG. Azar meu, tal pretensão foi por água abaixo, no dia em que cheguei de Paris, decidido a incumbi-la desta missão.
Ao chegar ao Rochedo, tinha um post-it da Brites afivelado na porta do frigorífico, onde ela me comunicava ter ido passar o fim de ano às Caraíbas, porque já não aguentava tanta chuva. (Só cá entre nós, estou convencido que a decisão da Brites foi influenciada pela leitura das revistas cor de rosa. Palpita-me que esteja em Porto Rico com o trio Jardim e a cadela…)
Frustrada a tentativa de delegar na Brites a missão de escrever esta CG, não tive outro remédio senão pôr os neurónios a funcionar e deixar que comandassem os meus dedos pelo teclado. É assim, com enorme satisfação, que vos comunico o seguinte:
Os portugueses dividem-se em dois grupos: os que gostam de fofoquices e os que gostam de as alimentar, tornando-se seus protagonistas. Tanto bastou, para que de entre estes dois grupos emergissem alguns elementos decididos a ganhar a vida alimentando o voyeurismo dos portugueses. Inicialmente chamaram-lhes colunistas sociais. Mais tarde, por razões que não consigo descortinar, passaram a chamar-lhes jornalistas. Porreiro, pá!
O problema é que, apesar existirem muitos portugueses que adoram ver a sua vida devassada na praça pública, não são em número suficiente , nem têm histórias assim tão interessantes para contar. Vai daí, por vezes é preciso inventar, lançar boatos sobre amores fictícios , rupturas ou infidelidades inexistentes. Mais ou menos como acontece com o jornal “A Bola”, mas com uma pequena diferença. Nem os leitores das revistas cor de rosa, nem os jornalistas que as fazem, são todos do Benfica!
Mas há algumas vítimas ( inclusivamente do Benfica, o que só é mesmo possível na imprensa cor de rosa) que ficam chateadas e reagem, provocando alguns danos.
Pronto, caros leitores e amigos, foi isto que os meus neurónios- esta noite um pouco lerdos- me ditaram. A Brites teria feito muito melhor e dar-vos-ia uma perspectiva, certamente diferente e mais realista, da imprensa do coração, mas foi o que se pôde arranjar.
Em jeito de compensação, sugiro-vos que leiam o que tem a minha parceira a dizer sobre este assunto. Será que ela gosta de revistas cor de rosa? Ou será que foi a Amelinha que me saiu outra vez na rifa? Vou lá ver, porque estou curioso…