segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Caderneta de cromos (10)


Numa análise global, não vejo razões para grandes críticas à mensagem de Ano Novo do PR, de que li apenas excertos na imprensa. Sendo um presidente de direita,não seria expectável outro tipo de discurso. Há porém, em Cavaco Silva, uma tentação enorme para se repetir e uma necessidade de mostrar equidistância que não tem reflexos na forma como vem exercendo o seu mandato.
Ano passado falou do crescimento explosivo da dívida externa e este ano reincidiu, ao afirmar que “ o desemprego e a dívida externa podem levar ( o país) a uma situação explosiva”. Todos estarão de acordo com estes avisos, mas seria bom que esta tendência para discursos anti- pirómanos do PR tivesse, da sua parte, a correspondência prática, facilitadora do apaziguamento na sociedade portuguesa. Ora, na verdade, Cavaco Silva também tem exercido, em algumas ocasiões, o papel de detonador. Basta recuar ao Verão de 2009 e recordar o triste episódio das escutas, para ficarmos com a sensação que a proposta conciliadora de Cavaco não encontra eco na sua própria prática enquanto PR.
Sendo assim, as palavras de Cavaco podem soar bem, mas se não encontram eco em quem as profere, que valor lhes podemos dar?
A escolha do cromo e da figura da semana foi feita com base em leituras, com os eventuais riscos que isso acarreta. Como habitualmente, podem encontrar a figura da semana no Delito de Opinião.

Postais de Paris (1) - "Les Deux Magots"

Na última semana do Ano, Paris deve ser parecido com a Black Friday do El Corte Inglês. Embora nunca tenha estado nesse evento que põe meia Lisboa de cabeça à roda sei, por alguns relatos, que por lá andam milhares de tugas eufóricos, com a oportunidade de compras a metade do preço. Em Paris não havia muitos turistas tugas, quem andava por lá não andava à procura de saldos, mas não faltavam italianos aos berros, em número suficiente para encher dois estádios de San Siro, russos alcoolizados e brasileiros bastantes para encher o Maracanã em dia de Fla-Flu.
Ora, nestas circunstâncias, visitar museus não é a melhor opção. As filas estendem-se por centenas de metros, desafiando a paciência dos turistas mais fleumáticos, que passam um dia inteiro entre as filas e uma visita a um museu. Já estive em Paris umas duas dezenas de vezes fora das época de grande afluxo turístico e, por isso, conheço razoavelmente bem a maioria dos museus mais emblemáticos. No entanto, uma visita ao Georges Pompidou é sempre obrigatória. Arrostei com uma fila de 300 metros que se movia a bom ritmo e lá fui cumprir o meu ritual.
O resto do tempo passei-o a desfrutar a cidade. S. Pedro esteve pelos ajustes, fechou as torneiras e, apesar das temperaturas gélidas durante a maior parte da minha estadia, pude passear por Montmartre, Saint Germain, Quartier Latin, Montparnasse, Grand Boulevards, Trocadero ou Champs Elysées.
Gosto de passear por cidades com história e os edifícios de Paris têm vida e guardam memórias que ajudaram a construir a História da Europa. Uma História diferente- porventura mais vivida- daquela que se guarda entre as paredes de um museu. Gosto de me sentar em cafés e esplanadas frequentadas noutros tempos por escritores, poetas ou filósofos, que fazem parte da cultura e da História ocidental.
Ao início de uma tarde sentei-me na esplanada do “Les Deux Magots", no preciosíssimo bairro de Saint Germain. Este emblemático local de Paris, fundado em 1813 uns quarteirões distantes da sua localização actual, era um estabelecimento comercial onde os parisienses procuravam “novidades”. Em 1873 transferiu-se para as actuais instalações, onde permaneceram bem visíveis as duas estátuas de madeira ( na foto) que lhe deram o nome.A partir dessa data, “Les Deux Magots” passou a ser um café/ casa de chá muito frequentado por intelectuais contando, entre os seus assíduos visitantes, nomes como André Malraux, André Gide, Anatole France, Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre ou Albert Camus. Também Hemingway aqui escreveu algumas das páginas dos seus livros e Picasso pintou alguns dos seus quadros.
A importância de “Les Deux Magots” na vida cultural parisiense está bem patente na criação, em 1933, do prémio literário Les Deux Magots que, ainda hoje, é uma referência incotornável no meio cultural da capital francesa.
Enquanto saboreava uma omelette aux trois saveurs, imaginei-me a viver naqueles tempos, compartilhando o espaço com alguns dos vultos que fizeram a História da Cultura Europeia. Saí de lá reconfortado e continuei o meu passeio por Saint Germain, até desaguar no Quartier Latin. No caminho descobri, numa placa de mármore, um pequeno pedaço de Portugal. Sobre isso vos falarei amanhã.

Rochedo das Memórias (126) - Flashback


Ao fazer um balanço da primeira década do século XXI, pode dizer-se que não deixa saudades. Aliás, o mesmo se aplica aos anos 00 do século passado, principalmente em Portugal. Para quem pretenda recordar alguns dos momentos que marcaram a primeira década do século XX, sugiro uma leitura do Rochedo das Memórias aqui e aqui.
A segunda década do século XX foi igualmente de má memória, tendo ficado marcada pela I Guerra Mundial. A década que se iniciou há dias também não augura nada de bom. O mundo está em ebulição, não se antevê o fim da crise económica ( alguns analistas prevêem que só para 2017 poderemos respirar com alguma tranquilidade) os mercados andam agitados, a tensão social tende a agravar-se, fruto do aumento do fosso entre ricos e pobres, ninguém consegue estancar o crescimento do desemprego e talvez apenas os mais optimistas acreditem que tudo se irá resolver sem perturbações.
Como já aqui escrevi diversas vezes, o mundo há muito mudou de mãos, mas ninguém parece querer convencer-se disso. Este será o século da China, talvez também do Brasil. A Europa está definitivamente para trás. Assolada pela crise, está manietada por um conjunto de líderes que ficarão na História como os mais inaptos de que há memória.
Bem, mas no Rochedo das Memórias não se fazem antevisões, apenas balanços, pelo que ao longo dos próximos dias irei aqui recordar os principais acontecimentos que marcaram a década e nomearei – segundo a minha opinião- as figuras do ano e da década a nível nacional e internacional.
De regresso casa- e apesar do trabalho duro que me espera este mês- será também tempo para retomar as visitas a todos os amigos e vizinhos de quem já sinto tantas saudades e a quem agradeço o apoio e incentivo que me vão transmitindo e a compreensão que têm revelado pelas minhas ausências. Sem vocês, este Rochedo já se teria afundado.Espero continuar a desfrutar da vossa companhia ao longo de 2010, um ano que para mim será (espero) de grandes mudanças, como mais lá para diante poderão constatar.