
Na última semana do Ano, Paris deve ser parecido com a
Black Friday do
El Corte Inglês. Embora nunca tenha estado nesse evento que põe meia Lisboa de cabeça à roda sei, por alguns relatos, que por lá andam milhares de tugas eufóricos, com a oportunidade de compras a metade do preço. Em Paris não havia muitos turistas tugas, quem andava por lá não andava à procura de saldos, mas não faltavam italianos aos berros, em número suficiente para encher dois estádios de San Siro, russos alcoolizados e brasileiros bastantes para encher o Maracanã em dia de Fla-Flu.
Ora, nestas circunstâncias, visitar museus não é a melhor opção. As filas estendem-se por centenas de metros, desafiando a paciência dos turistas mais fleumáticos, que passam um dia inteiro entre as filas e uma visita a um museu. Já estive em Paris umas duas dezenas de vezes fora das época de grande afluxo turístico e, por isso, conheço razoavelmente bem a maioria dos museus mais emblemáticos. No entanto, uma visita ao Georges Pompidou é sempre obrigatória. Arrostei com uma fila de 300 metros que se movia a bom ritmo e lá fui cumprir o meu ritual.
O resto do tempo passei-o a desfrutar a cidade. S. Pedro esteve pelos ajustes, fechou as torneiras e, apesar das temperaturas gélidas durante a maior parte da minha estadia, pude passear por Montmartre, Saint Germain, Quartier Latin, Montparnasse, Grand Boulevards, Trocadero ou Champs Elysées.
Gosto de passear por cidades com história e os edifícios de Paris têm vida e guardam memórias que ajudaram a construir a História da Europa. Uma História diferente- porventura mais vivida- daquela que se guarda entre as paredes de um museu. Gosto de me sentar em cafés e esplanadas frequentadas noutros tempos por escritores, poetas ou filósofos, que fazem parte da cultura e da História ocidental.

Ao início de uma tarde sentei-me na esplanada do
“Les Deux Magots", no preciosíssimo bairro de Saint Germain. Este emblemático local de Paris, fundado em 1813 uns quarteirões distantes da sua localização actual, era um estabelecimento comercial onde os parisienses procuravam “novidades”. Em 1873 transferiu-se para as actuais instalações, onde permaneceram bem visíveis as duas estátuas de madeira (
na foto) que lhe deram o nome.A partir dessa data,
“Les Deux Magots” passou a ser um café/ casa de chá muito frequentado por intelectuais contando, entre os seus assíduos visitantes, nomes como André Malraux, André Gide, Anatole France, Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre ou Albert Camus. Também Hemingway aqui escreveu algumas das páginas dos seus livros e Picasso pintou alguns dos seus quadros.
A importância de “Les Deux Magots” na vida cultural parisiense está bem patente na criação, em 1933, do prémio literário Les Deux Magots que, ainda hoje, é uma referência incotornável no meio cultural da capital francesa.
Enquanto saboreava uma omelette aux trois saveurs, imaginei-me a viver naqueles tempos, compartilhando o espaço com alguns dos vultos que fizeram a História da Cultura Europeia. Saí de lá reconfortado e continuei o meu passeio por Saint Germain, até desaguar no Quartier Latin. No caminho descobri, numa placa de mármore, um pequeno pedaço de Portugal. Sobre isso vos falarei amanhã.