
No tempo em que as empregadas domésticas se chamavam criadas, usavam fardas e grinaldas, trocavam a casa dos pais pela casa dos patrões e havia mais candidatas a criadas de servir do que hoje em dia há candidatos a jornalistas à procura de um emprego, Aduzinda foi oferecer-se a casa de D. Amélia.
Levava uma carta de recomendação de D. Benvinda, amiga de D. Amélia desde o tempo em que tinham andado a estudar para boas mães, no colégio do Rosário. D. Amélia despedira na véspera aquela que há dez anos a servia fielmente, por ter cometido o crime de deixar esturrar a carne do jantar e salgado as batatas fritas.
Aduzinda- lia-se na carta de recomendação que deveria usar, no caso de não agradar a D. Amélia -era honesta, de uma fidelidade canina (sic) e cozinhava maravilhosamente. Estava desempregada, porque D Benvinda, a anterior patroa, se ia mudar de armas e bagagens para Lisboa, acompanhando o marido convidado para ministro de Salazar.
D. Amélia não precisou de ler a carta de recomendação. Olhou para Aduzinda, lembrou-lhe com ar severo as regras da casa e disse:
- Terei muito gosto em que trabalhes aqui, mas há um problema…
-….???
- Todas as criadas que trabalharam cá em casa, anteriormente, se chamavam Marias. Se quiseres que eu te aceite, terei que te chamar também Maria, porque o teu nome é muito difícil de pronunciar.
Aduzinda agradeceu com um brilhozinho nos olhos e apenas respondeu, de olhar baixo:
- Não faz mal, minha senhora. Eu também não gosto do meu nome.
E foi assim que Aduzinda foi crismada, para o resto da vida, sem necessidade de ir à Igreja, nem formalidades burocráticas.
Aposto que nessa altura a roupa era bem mais composta que a da senhora da fotografia.
ResponderEliminarBelo texto
Bom fim de semana
Jorge Soares
Exemplo claro de que o simplex, não foi inventado pelo José.
ResponderEliminarCaso as criadas da minha avó (que não se chamavam todas Maria) tenham sido tão geitosas como a daqui da imagem, até compreendo as fraquezas do meu avô!!!
ResponderEliminarHistória deliciosa e como sempre com uma certa crítica social.
Saudação de fim de semana!
Mais outra Maria e outra história deliciosa e bem ilustrada ;-)
ResponderEliminarBeijinhos e bom fim de semana
No tempo em que as "Marias" também "alegravam" a rapaziada lá de casa, com a possibilidade de umas "investidas à sucapa", que cá por fora (naqueles tempos) eram bem mais difíceis !... :)))
ResponderEliminar.
Uma delícia!
ResponderEliminarMal sabia ela que ainda havia de chegar a primeira dama.
Uma excelente história do "antigamente". Estará muito diferente hoje em dia???
ResponderEliminarCarlos, de repente quando vi a foto, pensei "queres ver que o Carlos, também vai falar do Emmy?"
ResponderEliminarAfinal, eram outras Marias!
Um abraço e bom fim-de-semana.
Estou pr'aqui a pensar o que diria a sobre isso a Amelinha.
ResponderEliminarHá 50 anos todas as criadas se "chamavam" Marias.
ResponderEliminarUm modo de proceder que sempre me fez confusão.
Abracinho meu
Como se chamam hoje as criadas?
ResponderEliminarTexto muito bom
como sempre
Aduzinda ou Maria, essa “menina” teria, hoje em dia, poucas oportunidades de ser contratada nesse ramo! : )
ResponderEliminarOlá Carlos, esta histórias das "Marias" fez-me recordar as minhas férias de verão há muito muito tempo.Lembro-me de ver, em dias de bastante calor, as "Marias" com fardas pretas e rendas brancas, passeando ou entretendo os meninos à beira de água.
ResponderEliminarUm abraço
O que uma pessoa não faz só para arranjar emprego.
ResponderEliminarCaríssimo amigo Carlos Barbosa Oliveira,
ResponderEliminarSem dúvida que no tempo da Ditadura havia muita subserviência nas trabalhadores domésticas, ao contrário das actuais que sabendo dos seus Direitos algumas até revelam tons de sobranceria perante os seus patrões.
É uma história bem pertinente que aqui nos trouxe e nos recorda como os hábitos sociais mudaram muito do outro regime para o actual.
Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt