

Chego tarde para comentar dois prémios Nobel que sempre me merecem especial atenção ( ainda falta o da Economia, que também aguardo com expectativa…)
Começando pelo Nobel da Literatura, atribuído a Vargas Llosa, só peca por ser tardio. Há muito tempo que o escritor peruano, um arrependido que virou à direita, fazendo o mesmo percurso de alguns ateus convertidos à Fé, merecia receber o Nobel, porque a sua obra é notável e não se deve confundir nunca a obra literária de um autor com as suas opções políticas. A Academia do Nobel redimiu-se, mas está ainda a dever uma distinção à América do Sul, nomeadamente à Argentina. Jorge Luís Borges morreu sem nunca ter sido distinguido, o que considero uma tremenda injustiça.
Quanto ao Nobel da Paz, a coisa pia mais fino. Já em 2009, quando Obama foi distinguido, manifestei a minha decepção pelo facto de a política ter sido determinante na escolha. Obama estava à frente dos destinos dos EUA há pouco mais de seis meses e nada justificava a atribuição de um Nobel com tão grande significado, a alguém que nada fizera ainda pela paz. O tempo, infelizmente, veio a dar razão às minhas reticências. Este ano a política voltou a falar mais alto.
É certo que a atribuição do Nobel ao dissidente chinês é justíssima, mas é demasiado óbvio que a escolha serve de pretexto para um ataque à China, que me parece inadmissível.
A mania de ver o mundo inteiro só com os olhos do Ocidente parece ter atacado a Academia que, ao escolher o dissidente chinês para premiar a paz, desenterrou o machado de guerra contra a China.
Obama aproveitou para exigir a libertação de Liu Xiaobo, sendo de imediato secundado pelos fiéis servos europeus.
Já conhecemos o conceito de liberdade dos americanos, principalmente aqui pela América Latina. Só os líderes servis a Washington são respeitadores dos direitos humanos. Depois temos Guantanamo, outro belo exemplo de defesa dos direitos humanos, praticados pelos Estados Unidos. Finalmente, um país que infectou propositadamente centenas de cidadãos guatemaltecos com sífilis e gonorreia para fazer experiências científicas merece, obviamente, o aplauso do mundo inteiro.
Não deixa também de ser irónico que os países europeus, onde a xenofobia e o desprezo dos direitos dos imigrantes está a alastrar de forma alarmante, se congratulem pelo facto de o Nobel da Paz ter sido atribuído a um homem que luta há mais de duas décadas pela defesa dos direitos humanos na China. É caso para dizer “Bem pega Frei Tomás…”
O cúmulo da hipocrisia é o mundo ocidental insurgir-se contra a China, por desrespeitar os direitos humanos. Não é esse mesmo ocidente que ao fortalecer diariamente os laços económicos com a China (seja através da deslocalização de empresas, seja pelas trocas comerciais cada vez mais intensas) está a incentivar a manutenção de salários baixos e condições de trabalho por vezes sub humanas? O Ocidente só se preocupa com a violação dos direitos humanos, quando se trata de questões políticas. Pouco importa aos cínicos lideres ocidentais que as pessoas vivam com salários de miséria, morram de fome ou cansaço, não tenham as mínimas condições de trabalho, se em causa estiver a Economia.
Nesse casos fingem que está tudo no melhor dos mundos e vão depositar em "off shores" as mais valias oferecidas pelos agentes economicos, a quem cumulararam de privilégios enquanto estiveram no poder.
Tenho um blog sobre curiosidades e gostaria de saber de você se haveria a possibilidade de você me ajudar
ResponderEliminarcolocando o link do meu blog no seu e eu faria o mesmo com o seu,meu nome é Luciano e sou Bombeiro Militar
no Rio de Janeiro,
parabéns pelo trabalho que vem fazendo com seu blog e fico aguardadando sua resposta
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Caro Carlos,
ResponderEliminarParabéns pelo texto, verdadeiro e desassombrado.
Espero que o regresso definitivo esteja para breve.
Beijinho
Quanto a Vargas Llosa:
ResponderEliminarDepois de ter escrito os quatro volumes de Conversa na Catedral (que li e reli), Varas Llosa conquistou lugar de honra na catedral da literatura mundial, agora reconhecido, e bem, pela Academia Sueca com a outorga do Nobel da Literatura.
Narrador invulgar, surpreendeu o mundo literário com a técnica do diálogo, antes vista também, em Garcia Marquez e José Saramago.
Um dia quase o íamos perdendo como grande da literatura, quando decidiu candidatar-se com ideias neoliberais, por um partido de direita, à presidência do Peru. Valeu-nos, para o mantermos como escritor, ter perdido as eleições.
Com acerto escreveu Vargas Llosa:
"O génio artístico ou literário não é, em caso algum,garantia de lucidez política."
Sugiro, a quem não conheça, a leitura de Tia Júlia e o Escrevedor.
Quanto ao resto, inteiramente de acordo com a sua lúcida crónica.
Abraço
Gostei muito de ver premiado o Vargas Llosa, que me acompanha desde adolescência e cujas obras li quase todas (não me atrevo a dizer todas, mas ainda estou a tempo). Em geral, tenho gostado sempre das eleições que a Academia faz para Literatura: mesmo no caso de escritores que não conhecia, acabei por gostar dos que li (não li todos, isso também é verdade).
ResponderEliminarRelativamente ao Nobel da Paz, não posso dizer o mesmo: há tempo que deixei de acreditar nele. Nunca sei em que se baseiam para o outorgar. E nesta oportunidade até parece que só pretendem cobrir as aparências. Duvido que isto vá mudar nada quanto ao respeito pelos direitos humanos na China.
(Esqueci dizer que entrei para comprovar se voltara e alegrei-me de encontrar postagens novas, Carlos, mesmo que sejam só esporádicas.)
ResponderEliminarO Nobel da Paz é o mais politizado, Carlos.
ResponderEliminarPor aí não há novidades.
Julgo que a Academia deixou um recado à China (escrevi isso) - não basta ser uma grande potência económica e militar; ter um esatuto de grande peso no contexto das relações internacionais.
Chegou a hora de colocar de lado a desculpa da ingerência nos assuntos internos e de participar activamente na construção de uma nova ordem meundial.
Subscrevo o teu texto. Abomino a hipocrisia com que este mundo parece conviver tão bem...
ResponderEliminartexto excelente, como sempre.
ResponderEliminarCompletamente de acordo.
Carlos,
ResponderEliminarMuito bem colocadas as suas palavras. Gostei do Nobel de Literatura para Mario Vargas Llosa (como você disse, tardio) e jamais me esquecerei do brilhante "A festa do bode". Excelente livro, riquíssimo.
Beijo
Carla
Concodro inteiramnete consigo.
ResponderEliminarPermita que lhe sugira a leitura du livro aterrador de Jim Marrs, intitulado "A Ascensão do Quarto Reich-As sociedades secretas que ameaçam tomar conta da América"
Boa semana.
Gosto tanto da forma clara, com que o Carlos diz as verdades...
ResponderEliminar- Que imenso Mundo hipócrita, o nosso - por vezes custa-me bastante viver nesta realidade, por isso, tento procurar fugas porque não me é possivel manter o pensamento virado para esta míséria de humanidade que temos. Não consigo conviver naturalmente com facto como a pobreza, a injustiça, a mentira o oportunismo, os compadrios, a discriminação por tudo e por nada, a pequenez no nosso País, já nem falo no mundo.
É preciso muito estofo para viver conformado, com o estado das coisas, tendo presentes estas verdades e pouco poder fazer para as alterar.
Grande abraço Carlos e até breve,
Cristina
Adorei o Vargas, é um dos meus escritores de eleição. Aquele "Tia Júlia e o escrevedor" é qualquer coisa de magnífico.
ResponderEliminarJá o Prémio Nobel da Paz...
Desta vez fiquei satisfeita com as escolhas do Nobel! Mas sabe que eu não tinha pensado nessa hipótese do ataque à China e ela é extremamente viavél, afinal agora encontraram uma "forte" justificativa.
ResponderEliminarQuando me mudei prô mato, antes mesmo de arrumar a casa, plantamos um pomar com aproximadamente 2 dúzias de laranjeiras de diversas espécies.As árvores cresceram e frutificaram rapidamente.De uma hora para outra começaram à minguar e morrer
Descobrimos que era uma praga chamada Greening,causada por uma bactéria."Dizem" que foram os americanos que reintroduziram mudas infectadas no pais.Era uma praga da década de 60 que estava controlada. Mas desta vez voltou com uma variante asiática da mesma bactéria.Isso porque "dizem" que a exportação brasileira estava prejudicando a produção americana.O resultado é que tivemos de arrancar todos os pés, colocar fogo e agora temos que esperar 5 anos para poder tentar outra vez.
Subscrevo por completo a sua crónica Carlos. No caso do Nobel da Paz é por demais evidente a politização do prémio mas não foi a primeira vez que o usaram para alfinetar uns quantos regimes ditatoriais. Pois que sirva pelo menos para abrir algumas frestas do lado de dentro da muralha.
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