domingo, 31 de outubro de 2010

Esquina da memória (11)

Um dia, em Londres, um florista foi cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz:
- 'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O florista ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar à loja, o barbeiro encontrou uma dúzia de flores e um cartão que dizia: 'Obrigado'.
Noutro dia, um polícia foi lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz:
-'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O polícia ficou satisfeito e foi-se embora. Na manhã seguinte, ao chegar à loja, o barbeiro encontrou uma dúzia de donuts e um cartão que dizia:'Obrigado'.
Um dia depois, um português foi lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz:
- 'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O português ficou satisfeito e foi-se embora. Na manhã seguinte, ao chegar à loja... adivinhem o que o barbeiro encontrou à porta ...
Não sabem? Então, provavelmente, ou é leitor recente do CR ou tem memória curta, porque eu já publiquei aqui esta estória em Outubro de 2008 (ahahah). Pronto, eu dou uma ajuda. Se quer saber a resposta leia aqui

Eleições no Brasil: para acabar de vez com os indecisos

Hoje os brasileiros vão a votos, para eleger o sucessor de Lula. Indecisos entre Dilma e Serra, muitos brasileiros só no momento de chegar à urna decidirão o seu sentido de voto. Entretanto, o "Financial Times", percebendo a indecisão dos brasileiros, resolveu dar-lhes uma ajuda num longo artigo onde defende que a eleição de Serra é melhor para o Brasil. Acredito que os brasileiros conhecendo a sugestão, e tendo em consideração a fonte, vão eleger Dilma.

sábado, 30 de outubro de 2010

Mau tempo no canal *


A manhã de ontem foi um autêntico pesadelo para os lisboetas. A chuva alagou a cidade, tornando-a intransitável em algumas zonas. Esta é uma cena vista todos os anos e as reacções populares e jornalísticas não deixam de ser igualmente repetitivas. Detenho-me, no entanto, em duas críticas muito comuns, que parecem renovar-se em tempo de tormenta, numa sincronização que me faz lembrar a chegada das andorinhas na Primavera.
A mais estafada é “ Isto só acontece em Portugal”. Mentira! Quem faz uma afirmação dessas, além de sofrer deste congénito umbiguismo só deve viajar no pico do Verão, caso contrário saberia que isso é vulgar ocorrer, durante o Inverno, em muitas capitais europeias. Londres, Paris,Roma ou Bruxelas, não estão imunes aos maus humores de S. Pedro, que de um momento para o outro decide despejar o autoclismo celeste. Talvez por andar distraído com a música que emana dos ipods,na corte celestial, não cuida do bem estar dos que cá andam em baixo em amarga labuta, sujeitos aos descuidos e desmandos celestes.
Se escolhi estas cidades, foi porque em todas elas já passei por provações idênticas. Também, em todas elas, assisti a reacções que em tudo se assemelham a outra das recriminações muito invocadas pelos portugueses que encontram eco da sua arengada na comunicação social: “A culpa é da Câmara, porque todos os anos acontece a mesma coisa e já deviam ter tomado medidas para evitar a situação”.
Estou em condições de poder afirmar que os actuais sistemas de drenagem de Lisboa não são em nada inferiores aos que existem noutras cidades europeias de maior dimensão e densidade populacional. As inundações provocadas pela intempérie radicam na morfologia específica da cidade de Lisboa e, essencialmente, na incúria cidadã. Cumprissem os lisboetas os seus deveres de cidadania e não teríamos um planeamento urbano caótico, as alterações do PDM não se fariam ao ritmo dos interesses dos patos bravos ou de conglomerados de lojistas que exploram o deslumbramento pacóvio do consumidor das berças, transformado em urbano, por força das migrações internas. É para seu deleite e encantamento que se constroem, com a complacência das autoridades e o lucro ignominioso dos promotores, condomínios privados ou dormitórios sub-urbanos em leito de cheia. Ou se erguem, dentro da cidade, centros comerciais gigantescos, cheios de luzinhas psicadélicas e chilreares metálicos de passarinhos electrónicos - prática vedada em algumas das principais cidades europeias, cujas autoridades obrigam a respeitar escrupulosamente regras de volumetria destas catedrais aonde os consumidores vão em peregrinação rotineira, satisfazer a sua volúpia consumista.
Convém, entretanto, lembrar uma vez mais que estas intempéries se tornaram mais intensas, mais localizadas e mais frequentes, agravando as consequências para os cidadãos. Há mais de 20 anos que cientistas e ambientalistas vêm chamando a atenção para estes fenómenos naturais, cuja frequência se irá intensificar. Deslumbrados com a parafernália da oferta consumista, maravilhados com os prodígios das tecnologias, adormecidos pelo ecrã que domina as nossas vidas e aumenta a nossa passividade, esquecemo-nos de pensar, de reflectir sobre as coisas. Ficamos paulatinamente à espera que nos impinjam a última novidade e, perante um fenómeno natural, uma catástrofe, reagimos como autómatos. Premimos o botão e desatamos a lançar as culpas sobre quem nós escolhemos para dirigir os nossos destinos, porque andamos muito ocupados para nos preocuparmos com essas minudências do planeamento urbano e do ordenamento do território.
Enquanto houver árvores que dêem telemóveis de última geração , ipods, ipads e toda a parafernália de bens de consumo com que nos deslumbramos, não temos tempo para nos preocupar com a Natureza.
Então, se é assim, não venham com lamúrias. É muito bem feito que S. Pedro despreze as regras de civismo terrenas e se esteja marimbando se os dejectos celestiais caem no mar, no deserto , ou nas ruas da cidade, provocando grandes transtornos aos autómatos que por cá habitam.

* Título roubado a um livro de Vitorino Nemésio

Sabotagem

Ontem, pela 11 da manhã, faltou a luz no meu prédio e adjacentes. Depois de muitos telefonemas para a EDP, cerca das 15 horas informaram que só pelas 22 horas seria restabelecido o fornecimento. Subi seis andares a pé, fui obrigado a adiar a intenção de partir à Conquista do Oeste para a manhã de sábado, porque era meia noite e népia. Recuso-me a aceitar que foi negligência ou marimbanço da EDP com os clientes. Caramba, Lisboa é capital de um país europeu e a EDP uma empresa conceituada...
Foi sabotagem da senhora Merkel, só pode. Avisada das minhas intenções, pelos serviços secretos alemães, mandou cortar a luz, para que eu chegasse atrasado ao destino e, entretanto,mandou liquidar os meus contactos. Espero não ter o exército alemão à espera, quando chegar ao Hotel. Nunca mais divulgo antecipadamente os meus planos, pronto(s)!

Perguntar não ofende

Finalmente, 36 pessoas foram constituídas arguidos no processo "Face Oculta". Só gostaria que me esclarecessem uma coisinha. O processo vai ser mais célere do que o dos amigos do professor Cavaco no BPN, ou também vão andar a encanar a perna à rã?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sugestão do dia

Sócrates e Pedro Passos Coelho afirmam que estão afazer um esforço para chegar a um entendimento na aprovação do OE 2011. Pelo sim, pelo não, seria melhor que se levantassem da sanita. É que pode sair ainda mais m....

À Conquista do Oeste

"A Conquista do Oeste" foi um dos filmes que mais me marcou na adolescência. As quase três horas do filme, magistralmente dirigido por John Ford, narram os 50 anos da expansão americana ( 1830-1880) de forma tão cativante, que ainda hoje retenho algumas cenas. Fiquei de tal forma preso à história e às personagens de Carrol Baker, John Wayne, Gregory Peck, Henry Fonda ou Debbie Reynolds que, terminado o filme, fui a correr iniciar a colecção de cromos que à época eram um sucesso de vendas. O filme é de 1962 e nunca pensei que, quase 50 anos depois, me fosse proporcionado assistir à conquista de um outro Oeste, por um grupo de mafiosos seduzidos pela miragem da fortuna.
Tudo começou quando Pedro Bidarra, vice-presidente da BBDO, criou um slogan que visava tornar Portugal mais atraente para o turismo: Europe´s West Coast. A ideia de realçar a localização geográfica de Portugal, parecia uma boa ideia, mas deu buraco. No sentido literal do termo porque, para atrair os turistas, fizeram-se dezenas de campos de golfe. Acontece que os buracos não atraíram apenas o turismo de qualidade que os promotores do golfe esperavam. Quando o país se tornou num gigantesco queijo gruyère, o cheiro atraiu também alguns ratos. Primeiro, vieram os ratos finaços da alta finança, que puseram a circular papel com rentabilidades elevadíssimas mas, de um dia para o outro, começaram a surgir no mercado papéis falsos que reduziram belas promessas de fortuna fácil a pesadelos. Vieram pedófilos que publicitaram o país da pior maneira, especialmente a Casa Pia e o caso Maddie.
Mais tarde chegaram uns tipos da ETA e, finalmente, a Mafia italiana viu em Portugal um paraíso para as suas actividades, talvez aliciada pelas notícias da brandura da justiça portuguesa para com os criminosos.
E foi assim que a promissora Conquista do Oeste lusitano se transformou numa aventura infernal, de alto risco para quem por cá vive. Esbulhado pelos ratos das finanças que lhes cortaram o direito ao sonho e levaram as poupanças, os tugas equacionam seriamente a hipótese de emigrar, deixando a Europe’s West Coast entregue aos senhores do FMI, ou a um Coelho rabino que nos seduz com o Pais das Maravilhas, mas que apenas irá fazer um registo de propriedade do solo lusitano em nome da clientela laranja.

Por isso, antes que seja tarde, decidi passar este fim de semana alargado no Oeste. De papo para o ar, à espera do Orçamento do Estado para 2011. Parece-me que o Oeste é o lugar ideal para ser vítima de um assalto, já que aqui se reúne a nata ( crème de la crème) do crime internacional. Ora como já conheço os membros do gang Sócrates/Coelho, que me irá assaltar de OE em riste, talvez consiga escapar –lhes antes de me sacarem o guito.
Se isso não acontecer, sempre terei hipotese de me tornar num mártir, reconhecido como herói nacional.Enquanto relaxo e espero pelo acordo PS/PSD, vou escrevendo o argumento para um novo épico, onde serei protagonista. Enfrentarei a crise com estoicismo e aquela sensação heróica de estar a salvar o país, entregando as poupanças do meu trabalho de anos, nas mãos de gente que nos irá livrar deste atoleiro, comprando submarinos e material de guerra no bem equipado arsenal da senhora Merkel. E depois, meus amigos, quando tivermos armas suficientes, invadimos a Alemanha e seremos finalmente um país rico.
































































Ao serviço de Sua Majestade

Depois das revelações do Wikileaks sobre a boa nova que EUA e Inglaterra, com o beneplácito de Durão Barroso e Aznar, foram levar ao Iraque, ficamos agora a saber que as boas práticas do exército britânico também incluem algumas regras democráticas dignas dos maiores encómios. Presto a minha humilde vassalagem ao exército de Sua Majestade, pelo exemplo que dá ao mundo no que concerne ao respeito pelos direitos humanos.

O manual de boas maneiras que rege a sua conduta com os prisioneiros deve servir de exemplo ao mundo, como expoente máximo da democracia que os países ocidentais, numa missão digna de Cruzados, em boa hora decidiram expandir em nome da globalização.

E agora a sério. Presto a minha homenagem ao Guardian pela divulgação desta lista de horrores. Poderia ser um bom exemplo para os jornais portugueses ( se gostassem de copiar bons exemplos, claro...) sempre prontos a criticar qualquer espirro dos temíveis ditadores sul-americanos, mas que não escreveram uma única linha sobre este caso ocorrido em Portugal. Ocultaram a notícia dos leitores porque, como é evidente, estavam a defender a liberdade de expressão, único valor democrático que defendem zelosamente... quando lhes interessa.

É sempre bom lembrar...

Podem fazer-se muitas críticas a Teixeira dos Santos, acusá-lo de insensibilidade social, de ter cometido erros, e tudo o que se queira, mas não fica mal lembrar que enquanto ele permanece no seu posto, fazendo o seu trabalho e tentando equilibrar as contas públicas, muitos dos economistas ex-ministros que hoje dão receitas, abandonaram o cargo à primeira contrariedade e agora utilizam os areópagos televisivos para criticar as suas medidas. Que propõem que se faça? Na generalidade o que eles não tiveram coragem de fazer quando foram ministros.
Não é verdade, sr. ex- ministro das finanças doutor Eduardo Catroga, digníssimo emissário do professor Cavaco Silva às negociações do OE, em putativa representação do PSD?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Auto-censura

Se fossem as casas de um outro presidente o alvo das buscas da PJ, "A Bola" teria colocado imediatamente a notícia no topo do seu site . Mais: tê-la-ia actualizado ao longo do dia e, invocando fontes não identificadas ( que todos sabemos quem são) lançaria mais umas achas para a fogueira, transformando boatos e puras invenções em notícias.
Como o alvo foi o patrão, até esta hora nem uma linha, porque o respeitinho é muito lindo. Talvez amanhã seja notícia de primeira página ( ah!ah!ah!). A isto chama-se auto-censura, sabiam?
Entretanto, mão amiga, fez-me chegar estas novas revelações sobre o processo Apito Dourado que, em boa parte, explicam a nomeação de Duarte Gomes para o Académica- FC do Porto no próximo fim de semana.

Polvo de Vinagrete


Morreu o polvo Paul, o molusco adivinho que viveu glória efémera graças às previsões do Mundial 2010. Depois da autópsia, a Interpol foi chamada a intevir para desvendar as causas da morte, pois tudo indica que o pobre Paul terá sido assassinado.
Ao contrário do que aventou Ricardo Araújo Pereira em entrevista ao CR, o suspeito não é um fanático adepto portista, irado com a previsão de que o SLB ainda iria ser campeão este ano. As suspeitas recaem sobre um político do eixo franco-alemão que entrou em histeria quando soube que Paul vaticinara a derrocada do império franco-germânico, provocada pela revolta dos PIGS que, ao sentirem-se asfixiados com as exigências da dupla tanguera Sarkozy/Merkl, decidiram abandonar a União Europeia.
Entretanto, fonte normalmente bem informada, confidenciou ao CR que o pedido de intervenção da Interpol não visa punir o criminoso. Apenas querem encontrá-lo para lhe pedir que mate de uma vez o polvo que está a minar a credibilidade da Europa e tem tentáculos em Portugal, presumivelmente na região Oeste, já mundialmente conhecida por abrigar etarras e mafiosos.
"O polvo português continua de boa saúde, graças a Deus"- confirmou a mesma fonte, que pediu o anonimato.
Entretanto, fiquei a saber que a boa saúde do polvo lusitano se deve, em boa parte, ao actual e futuro PR, Aníbal Cavaco Silva. Como se depreende do discurso auto elogioso em que anunciou a sua recandidatura, foi a sua acção que impediu o polvo de piorar.

Que estará, desta vez, debaixo da calçada?


Hoje, os franceses voltam às ruas para protestar contra a alteração da idade da reforma dos 60 para os 62 anos.
Nos últimos dias, ouvi várias vozes estabelecerem uma comparação entre este movimento contestatário e o Maio de 68. Discordo em absoluto, por várias razões. Se quiserem saber o que penso sobre aquele mês que a geração de 60 içou ao altar do mito, convido-vos a ler isto.
Mas não são apenas as questões que aduzo naquele post que me levam a estabelecer uma destrinça entre estes dois momentos. Acima de tudo há uma diferença de valores, mas há também uma diversidade profunda na génese e na estética da contestação. É, aliás, da estética do Maio de 68, que preservo as melhores recordações. Quanto ao resto, estou com Cohn-Bendit: “ É melhor esquecê-lo a lembrá-lo”. Para não ter de recordar que Maio de 68 acabou com uma gigantesca manifestação de apoio a De Gaulle e ser levado a pensar que , desta vez, tudo acabe numa manifestação de apoio a Sarkozy.
Ao recordar Maio de 68 parece haver uma tendência para adulterar a realidade e conferir-lhe uma dimensão que nunca teve. Na verdade nunca houve “ uma praia debaixo da calçada”. Houve apenas uma amálgama de irreverência e devaneios juvenis, com consequências que não merecem muito a pena ser lembradas, salvo se pretendermos “dourar a pílula”.Querem apenas um exemplo? Então aqui vai. No Maio de 68, gritavam-se “slogans” sobre a liberdade sexual. Quarenta anos mais tarde, é mais fácil acabar com a carreira de um político ( ou uma figura pública) denunciando a sua infidelidade amorosa, do que acusando-o de corrupção.
Pensar sobre o que se terá ganho e perdido, entre as gerações de Maio de 68 e Outubro de 2010, é o desafio que vos deixo. Talvez seja na conclusão de que a geração de 60 traiu os seus valores, que esteja a explicação para a crise que actualmente vivemos.

Um país de luto

O casal Kirchner marcou a História da Argentina na primeira década do século XXI
Morreu Nestor Kirchner, o presidente argentino que recuperou, em apenas dois anos, a Argentina de uma crise de proporções gigantescas. Já aqui escrevi vários posts sobre a influência deste homem de esquerda moderada, que os argentinos eram unânimes em considerar o Presidente que lhes devolveu o orgulho e a dignidade.
O segredo de Kirchner foi saber humanizar a crise. Compreendeu o drama do seu povo, teve sensibilidade para as dificuldades dos mais desfavorecidos, recusou a arrogância, não enfileirou em discursos de esquerda panfletária.Terá contra si as classes mais endinheiradas que viram os seus privilégios diminuir. É natural... mas isso não o deve incomodar muito, pois sabe que algum preço teria de pagar para ressuscitar a Argentina e o povo ficou-lhe grato.
( Aqui pode ler mais sobre o papel de Kirchner no milagre azul-celeste. Algo que nos podia servir de lição neste momento conturbado que Portugal atravessa).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Isto sim, é violação do direito à informação!

O direito à informação é um dos mais básicos direitos dos consumidores. Nesta perspectiva, existe há décadas uma Lei de Afixação de Preços, que obriga o comerciante a exibir o preço dos produtos à venda nos seus estabelecimentos.Mas, como acontece em tudo, os governos põem e dispõem a seu bel prazer, transformando a política de defesa do consumidor num mero instrumento de arremesso a certos sectores de actividade, quando lhes dá jeito.
A defesa do consumidor, que serviu para catapultar José Sócrates na ribalta política, tomando algumas medidas corajosas quando foi secretário de estado do ambiente, perdeu todo o protagonismo quando José Sócrates se tornou primeiro-ministro. Não deixo, porém, de me espantar,quando fico a saber que, por decisão da ministra da saúde Ana Jorge, os medicamentos comparticipados deixarão de exibir o preço nas embalagens. A medida é economicista, mas de uma insensatez inqualificável. O próximo passo será, certamente, voltar a permitir que os supermercados exibam os preços em etiquetas de papel, para que assim possam alterar os preços diariamente, como faziam noutros tempos.
Esconder dos consumidores as alterações de preços dos medicamentos, negando-lhes o direito à informação, sem que algum governante dê uma explicação plausível para a aplicação desta medida, é uma ignominia. Espero que Teresa Caeiro, sempre tão preocupada ( e bem…) com a política do medicamento - em Portugal envolta numa nuvem de suspeitas – não deixe passar mais este atentado medieval aos direitos dos doentes e dos consumidores em geral.

A lição da Madeira

Na última quinta-feira, a Madeira voltou a ser assolada por um temporal, que me trouxe à memória um post que escrevi em 21 de Fevereiro, durante a tragédia que matou um número indeterminado de pessoas. (Digo indeterminado, porque não confio nos números oficiais apresentados pelo governo regional).
Persistem os erros que então apontei em vários posts sobre o assunto e não foram corrigidos, porque a pressa em alindar a ilha para a recepção aos turistas durante a Festa da Flor, resultou em intervenções mal feitas, de que resultaram as cheias da semana passada. O governo da Repúbica e a União Europeia ajudaram financeiramente, como lhes competia, mas não adianta atirar dinheiro para cima das tragédias, se ele não for aplicado na resolução correcta dos problemas, de molde a evitar catástrofes futuras.
Aqui fica a transcrição de um dos posts que escrevi na altura:
"Durante meia dúzia de anos (entre 1979 e 1985, se a memória não me atraiçoa) razões profissionais obrigaram-me a ir à Madeira em Janeiro ou Fevereiro, durante duas ou três semanas por ano. Pude, durante esse período, acompanhar o desenvolvimento inicial da ilha e afeiçoar-me ao território e à sua gente. A tragédia de ontem marcou-me, por isso, de forma muito profunda.Passaram cerca de 20 anos até voltar à Madeira. Espantei-me com o seu desenvolvimento, mas não deixei de dar ouvidos a alguns ambientalistas que me alertaram para atentados ambientais que prenunciavam a eventualidade de uma catástrofe de proporções muito superiores às de 1993. Aconteceu ontem. Infelizmente.
Não é altura de fazer recriminações, mas também não podemos fazer como a avestruz e fingir que o que se passou ficou a dever-se, apenas, à chuva excessiva. Catástrofes semelhantes vêm ocorrendo com frequência em vários pontos do globo, afectando especialmente as zonas costeiras, de forte crescimento turístico. Como vêm avisando há quase 20 anos vários cientistas prémios Nobel, estas catástrofes tornar-se-ão cada vez mais frequentes, mais violentas e localizadas. Uma das causas é o aquecimento dos oceanos, outra é resultante da actividade humana. Não é momento para criticar o crescimento desordenado do Funchal, mas também não é altura para exigir a quem foi perguntado sobre o assunto (como um dirigente da QUERCUS) que se cale e esconda a verdade. Não é o momento para tentar tirar dividendos políticos de uma tragédia, como o próprio AJJ fez questão de salientar. Atacar Jardim e o governo da Madeira por ter ignorado as Leis da Natureza é tão pornográfico como criticar Sócrates pelo facto de não se ter deslocado de imediato à Madeira, ignorando que não o podia fazer, porque o aeroporto do Funchal estava encerrado.É no entanto o momento oportuno para reflectir no que se passou e tentar tirar algumas ilações sobre o que se passa na nossa orla costeira, para evitar catástrofes anunciadas.
O temporal nas vésperas de Natal na Região Oeste foi um aviso para alguns perigos que corre a costa portuguesa, se não arrepiarmos caminho no desenvolvimento acéfalo e dominado apenas pelo lucro, ignorando as Leis da Natureza.É altura de pensar nos crimes ambientais que se cometem à sombra dos PIN (Projectos de Interesse Nacional) criados pelo governo de Sócrates, para alimentar o lucro sôfrego de alguns investidores na área do turismo e da indústria.
É o momento certo para repensar os Planos de Ordenamento da Orla Costeira. É chegada a altura de não ter medo. Urge derrubar construções clandestinas, em vez de permitir que sejam elas a derrubar membros do governo que desenvolveram exemplarmente as suas tarefas em prol do ambiente. Está na hora de impedir a construção de unidades hoteleiras, centros comercias, ou complexos turísticos em zonas que ocupam os leitos de rios e ribeiras, comprimindo-os de tal maneira, que um dia acabam por se revoltar . O que sucedeu nos últimos dias no Algarve é, apenas, um alerta para o que poderá ocorrer, a curto prazo, em toda a costa portuguesa, onde a construção clandestina e desordenada ameaça seriamente o futuro. "
Estão criadas as condições para qeu a tragédia da Madeira se repita. Esperemos que o bom senso seja capaz de a evitar.

A dúvida

De visita à Alemanha, o presidente chileno Sebastien Piñera escreveu no livro de hóspedes da presidência alemã: " Deutschland über alles".

A imprensa portuguesa diz que foi uma gaffe.A imprensa portuguesa tem esta particularidade: quando uma figura que lhe é grata diz uma bacorada, é uma gaffe. Quando a figura lhe é antipática diz que é ignorância. Neste caso não foi gaffe, nem ignorância. Foi convicção mesmo. Se a imprensa portuguesa andasse atenta ao que se vai passando lá por fora, sabia que Sebastien Piñera manifestou a sua admiração por Pinochet durante a pré -campanha eleitoral no Chile.

Não sei no entanto dizer se a forma como a notícia foi veiculada na nossa imprensa foi gaffe, ignorância, ou... preguiça!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pedro, o Duro



Pedro Passos Coelho esteve hoje reunido com Sócrates para falar sobre o Conselho Europeu do próximo dia 29. Levou "testemunhas" como já havia anunciado anteriormente. Está no seu direito. O líder do PSD precisa de dar à opinião pública uma ideia diferente da que criou depois de se ter metido numa série de trapalhadas ( como Vasco Pulido Valente tem salientado até à exaustão) que o fizeram descer nas sondagens.

Esta postura de "durão", no entanto, não me convence. Faz-me lembrar um daqueles putos, com pretensões a líderes do grupo, que depois de "levarem com os pés" da miúda que todos queriam conquistar, tenta ultrapassar o enxovalho dizendo aos amigos: "Eh pá, dei com os pés à gaja. Ela não vale nenhum e é uma convencida. Não tenho pachorra para gajas assim".

Os amigos, que já o conhecem de gingeira, aplaudem a sua decisão mas, quando ele vira costas, comentam em galhofa: " O gajo tem a mania que é bom, foi bem feito ter levado com os pés". E vão todos jogar futebol, sem convidadrem o engatatão, porque estão farto das suas fanfarronices.


Às armas, às armas!

Na estação do Saldanha, entra um trio de velhotes. Ele senta-se ao meu lado e as duas senhoras ocupam os lugares em frente. Vinham em conversa animada mas eu, entretido com a leitura de “O Nosso GG em Havana”, de Pedro Gutierrez, não prestei atenção ao que diziam até ao momento em que o cavalheiro, elevando a voz ( talvez para dar mais força ao seu argumento, ou à espera que os restantes passageiros irrompessem numa salva de palmas aprovadora) sentenciou:
“ Pois é como lhes digo, isto só vai lá com uma Guerra Civil como a de Espanha em 37. Limpa-se o país dos “comunas” e desses tipos todos que só querem confusão e nem querem ouvir falar em trabalhar e vão ver se o país não vai em frente. Tudo o que fosse sindicalista devia ser fuzilado”.
Gelei ao ouvir a sentença. Há meia dúzia de anos, creio que era improvável ouvir uma conversa destas em público. Levantei os olhos do livro, ainda a tempo de ver a expressão das senhoras. Um misto de terror e conformismo, como quem comentava para os seus botões: “Pois se essa for a única solução, então que venha a Guerra”.
Por hábito não me meto nas conversas alheias, muito menos em transportes públicos. Desta vez, apeteceu-me mesmo dizer ao bárbaro que estava sentado ao meu lado, que a solução para a crise também passava por dar uma injecção atrás da orelha, ou enviar para apodrecimento num gulag, gente como ele. Contive-me. O homem,porém, precisava de aplausos e aquiescência para a sua teoria. Tocando-me com o cotovelo, perguntou:
- O senhor não concorda?
Respondi-lhe com uma pergunta:
- O senhor desculpe,mas que idade tem?
- Setenta e seis, meu amigo. E trabalhei no duro até aos 70. Foram 52 anos de trabalho e nunca faltei um dia.
-Então está a receber uma reforma, não está?
- Uma miséria. Não chega a mil euros, veja lá!
- Mas só começou a descontar depois do 25 de Abril, não é verdade?
- Pois, foi quando esses bandidos me começaram a descontar no ordenado. Até lá recebia o ordenado limpinho, sem ter de descontar para esses tipos andarem a gastar em automóveis e viagens e comesainas. É um fartar vilanagem!
- O senhor desculpe, mas se não descontasse, como é que queria que o Estado lhe pagasse a reforma?
- Ah, isso não sei, eu não sou político.
-Mas sabe que antes do 25 de Abril as pessoas não descontavam e também não tinham reformas pagas pelo Estado, não sabe?
- Olhe, mas vivíamos muito melhor nessa altura, porque poupávamos para a velhice!
-Pois vivíamos! As pessoas deixavam de trabalhar e morriam na miséria pouco tempo depois.
Uma das velhotas decidiu intervir.
- O senhor sabe quanto é que eu tenho de reforma? Não chega a cinquenta contos! Faz uma ideia da dificuldade que é viver com cinquenta contos por mês ?
- Felizmente não faço ideia e acho essas situações muito tristes, mas diga-me uma coisa: a senhora trabalhava?
- Trabalhava sim senhora, tive de cuidar de quatro filhos. Acha que isso não é trabalho?
-Mas nunca descontou para a segurança social, pois não?
- Se eu não ganhava ordenado como é que ia descontar? Olha qu’essa é boa!
- De qualquer modo recebe duzentos e cinquenta euros, não é verdade?
- 238! 238! Mais uns centavos, ou cêntimos, ou lá como é que se diz agora.
- Tem toda a razão, é muito pouco, mas há quantos anos está a receber essa pensão?
- Desde os 62. Tenho 78, faça o senhor as contas…
- São 16 anos. Há 16 anos que o Estado lhe está a pagar (uma miséria, é certo), mas a senhora nunca contribuiu em nada para a Segurança Social. E também não paga impostos, pois não? Sabe o que isso quer dizer? Que há 16 anos que o Estado está a pagar-lhe uma pensão e tem de retirar esse dinheiro de algum lado. Sabe onde tira? Àqueles que estão a fazer descontos (alguns há mais de 30 anos) a contar com uma reforma por inteiro, mas que não vão recebê-la porque o Estado tem que retirar-lhes, parte da pensão de reforma a que teriam direito, para pagar a pessoas como a senhora que nunca contribuíram com um tostão para o Estado.
( Pronunciei “para pagar a pessoas como a senhora” com especial ênfase. Acabava de lhe chamar parasita. Sabia que a minha argumentação não tinha qualquer base de sustentação, não tinha pés nem cabeça, mas foi a maneira que encontrei para humilhar quem se comportava daquela maneira infame . Mas ainda não tinha terminado…)
O velhote olhou para mim de soslaio, respirou fundo como a ganhar coragem para o que ia dizer a seguir:
- Já estou a ver que você ou é comunista ou é da pandilha do Sócrates e também anda a mamar.
- Sabe qual é a sua sorte? É que hoje esqueci-me da seringa em casa e não posso dar-lhe uma injecção atrás da orelha- respondi contendo a raiva.
Levantei-me e saí na paragem seguinte, percorrendo a pé o caminho até minha casa, para libertar a fúria. Quando estva na sala, a remoer a conversa, concluí que, afinal, ainda tenho de estar grato a estes velhotes, que me obrigaram a fazer uma caminhada suplementar.

Queixam-se de quê?

Magistrados do ministério público e juízes estão em pé de guerra com o governo, porque não aceitam a perda de algumas regalias, impostas pelo Orçamento de Estado. Acusar o governo de impôr as restrições para se vingar da classe, por causa de processos como o Freeport ou o Face Oculta parece-me indecoroso. Principalmente, depois de o relatório europeu sobre a eficácia da justiça ter concluído que apesar de os juízes serem dos profissionais mais bem pagos em Portugal, temos a segunda justiça mais lenta da Europa.
Seria altura de os senhores juízes e demais agentes fazerem mea culpa e explicarem aos portugueses as razões da morosidade da justiça. Em vez disso, o sindicato dos magistrados do MP vem insinuar que o governo manipulou o estudo. Se já nem os agentes que a manuseiam e aplicam mantêm decoro e compostura, o que podemos esperar da justiça?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Perdoa-me!

Enquanto Eduardo Catroga e Teixeira dos Santos procuram chegar a acordo quanto à encenação que levará o PSD a viabilizar o OE 2011, Pedro Passos Coelho prepara-se para a segunda versão do “Perdoa-me", inspirado no amigo David Cameron, obrigado a pedir desculpa aos britânicos por os ter enganado, poucos dias depois de ter sido eleito. Vencedor das eleições com um programa onde prometia a manutenção dos abonos de família, da qualidade dos serviços públicos e das prestações sociais e não aumentar as propinas, assim que chegou ao poder Cameron fex exactamenteo contrário: redução dos abonos de família e das prestações sociais, despedimento de 500 mil funcionários públicos, cortes salariais e aumento das propinas. Depois de fazer tudo ao contrário do que prometera, David Cameron pediu desculpa aos britânicos por os ter enganado mas, agora, pouco interessa. Já está refastelado em Downing Street, os britânicos terão que aguentar as suas políticas de empobrecimento da classe média e penalização dos mais desfavorecidos, enquanto os mais ricos e poderosos continuarão a enriquecer.Em Portugal, a euforia em torno de Passos Coelho parece estar a esmorecer. Ainda não chegou ao poder e já teve de pedir perdão aos portugueses por duas vezes, imagino quantas mais encenações irá produzir,se um dia lá chegar.

Chamem a polícia!

Cenas destas 36 anos depois do 25 de Abril, apenas demonstram que continuamos num patamar muito baixo da Democracia.

Caderneta de Cromos (21)

Agostinho Branquinho

O ex-deputado Branquinho, que há tempos protagonizou esta cena infame, abandonou o cargo para ir trabalhar para a Ongoing. Se esquecermos o facto de os deputados serem eleitos para representarem os portugueses no Parlamento, poder-se-á admitir que estas situações são normais. Especialmente no PSD. Durão Barroso, quando era Primeiro Ministro, também abandonou o país que, nas suas palavras, estava de tanga, para rumar a Bruxelas e defender os interesses dos grandes grupos económicos.
A deserção de Branquinho tem, no entanto, contornos mais complexos. O ex-deputado, que já foi jornalista do Comércio do Porto e editor da RTP ( adivinhem quando...)foi também um dos principais protagonistas da comissão de inquérito ao negócio PT/TVI. Nessa altura, Branquinho questionou diversas vezes a linha editorial da Ongoing, acusando-a de sustentar as posições do governo. Para a sua causa, contou com a preciosa colaboração dessa lenda do jornalismo, o jornalista palhaço, que todas as noites perguntava num programa de pseudo informação da SIC Notícias:
“Mas quem é esta gente da Ongoing? De onde vem?”
Sintomática esta viragem do ex-jornalista e ex-deputado Branquinho, acérrimo defensor da privatização do RTP. Elucidativo o silêncio aquiescente do Bloco Central de interesses e do seu apêndice circunstancial, o partido de Paulo Portas, que vai apanhando as migalhas que sobram das grandes negociatas do poder com os interesses económicos.
Para Branquinho a situação é transparente. Pois…a água também é transparente, mas essa característica, por si só, não assegura que não esteja contaminada.Também não deixa de ser curioso que a notícia surja na mesma semana em que MMG rescindiu o seu contrato com a TVI para, muito provavelmente, ir em breve para a SIC. Para ocupar o lugar de Mário Crespo, que acompanhará Branquinho na Ongoing? Ou será que MMG também se transferirá para a empresa onde o marido, vice-presidente da empresa - que tem negócios no Brasil na área dos media e das novas tecnologias- lhe arranjará um programa ajustado às suas características?
É por estas e por outras, que prefiro o tinto.

Chavez em Portugal

Chavez esteve ontem em Portugal. Vei comprar um barco e encomendar mais alguns, aliviando assim o nosso défice. Aguardo, ansioso, as reacções saloias de uma certa direita travestida de democrata.

domingo, 24 de outubro de 2010

Que bela notícia!

A partir de hoje os hipermercados voltam a poder abrir ao domingo, durante todo o dia. Quem vai perder mais com a medida vão ser os supermercados de menor dimensão, que vão ver fugir alguma clientela. Os portugueses ficam a ganhar, porque têm mais um sítio para onde ir nas tardes de domingo. Algumas famílias vão passar a encarar o domingo com menos enfado. Já podem variar e alternar as visitas aos centros comerciais com idas aos hipermercados. Num período de retracção do consumo, não deixa de ser curiosa esta medida... Mas, mais interessante ainda, é que esta autorização esteja em contraciclo com o que se passa na Europa civilizada. O imprtante é fazer os consumidores felizes. Por isso, proponho que a próxima medida seja manter os hipermercados abertos 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso, sim, geraria milhares de postos de trabalho.

Há gente que só percebe as coisas, se lhes fizerem um desenho

Se o jornalismo desportivo fosse feito por gente capaz de reproduzir um texto, fazer notícias e abster-se de leituras interpretativas, com que intoxica a opinião pública, este comunicado nunca teria sido necessário. Só burros, ou mal intencionados, deturpam o que foi dito. Percebem-se as intenções, mas isso não lhes retira o epíteto de mentecaptos.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sakharov e Alzheimer em diálogo europeu

Na última década o prémio Sakharov foi atribuído, por três vezes,a cubanos. Só consigo explicar esta obsessão europeia por Cuba, com um agravamento da doença de Alzheimer que atacou a Europa na última década. Não há outras ditaduras no mundo ? Não há gente noutros países a lutar contra regimes ditatoriais? Claro que há, mas se os outros retaliassem com cortes de relações comerciais, por exemplo, era uma chatice, não era? Ora, assim, mais vale descobrir um cubano em qualquer parte, porque dali não resultam melindres nem retaliações. Mas já agora, apena uma sugestão: porque não atribuem o prémio a um cubano preso nas cadeias americanas?

Adenda: A quem não tiver dúvidas sobre a justiça da atribuição do prémio, recomendo a leitura deste post

Sugestão fim de semana

O lançamento do livro foi ontem, mas visitar a exposição pode ser um bom programa de fim de semana. Fui ver e achei interessante.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Foi você que falou em coragem?

Esta criatura foi apontada por muita gente, incluindo alguns jornalistas, como um exemplo de coragem, por ter publicado escutas desrespeitando uma ordem do tribunal. Apesar de saberem que a transcrição das escutas foi truncada e que não tinha como objectivo informar, mas interesses meramente políticos, alguns escribas de jornais erigiram-no a símbolo da defesa da liberdade de expressão. Quando li esta notícia apeteceu-me de imediato esfregá-la na cara desses jornalistas, para ver se aprendem o que é coragem, o que significa liberdade de expressão e deixam de confundir dever de informar, com direito a informar.

A lição da bailarina espanhola


Aviso prévio: este post não é sobre futebol. Apenas o chama à colação, para mostrar outra faceta da vida real .
Agosto de 1995
- Chego a Istambul, ao final da tarde, a bordo de um barco que me trouxe desde Éfeso. O pôr de sol deslumbrante desperta-me para a magia das noites turcas. Desembarco e vou directo para o hotel. Preciso de tomar um banho e mudar de roupa. Formalidades higiénicas cumpridas vou jantar, com dança do ventre incluída na ementa. O vinho corre livremente, atenuando os efeitos do picante gastronómico. Terminado o jantar, saio disposto a dar uma volta pela cidade. Assim que transponho a porta, entro em pânico. Uma multidão ululante, empenhando bandeiras que desconheço, percorre as ruas da cidade em transe. Um petardo arremessado de uma camioneta zumbe nos meus ouvidos, não me atingindo por milagre. Regresso ao restaurante assustado. Pergunto o que se passa. Terei sido apanhado no meio de uma revolução? A última coisa que eu desejava era ser surpreendido por uma revolução na Turquia, num momento em que estava a viver um período de euforia.
À minha pergunta, o proprietário do restaurante tranquiliza-me. Não há razões para alarme. A população ululante nas ruas, está apenas a manifestar a sua euforia pelo apuramento do Besiktas para a Liga dos Campeões Europeus, feito inédito na vida do clube.O proprietário do restaurante apresenta-se como adepto, não militante, do Galatasaray. Na verdade não gosta de futebol, por isso verbera o espectáculo das ruas.“ Pobre povo deste país que vibra desta maneira com o futebol, mas é incapaz de sair à rua para lutar pelos seus direitos”- diz com uma certa ponta de ironia.
Não percebia, à época, absolutamente nada do futebol turco. Perante a minha ignorância , Kahill diz-me que os clubes turcos aliciam os árbitros nas competições europeias, oferecendo-lhes noites de luxúria na companhia de odeliscas. Perante o meu descrédito diz-me que o Besiktas foi apurado, porque o árbitro assinalou um penalty inexistente a favor da equipa turca. Percebendo que permaneço na dúvida, estende-me um cartão de um night club.
“ Vá lá, e vai ver como encontra o árbitro do jogo desta noite. O clube é privado, mas com este cartão tem entrada livre e direito a duas bebidas”.
Não fui. Preferi atravessar o Bósforo e ver outra face da noite de Istambul. Além disso aquele adepto do Galatasaray, com toda aquela prosápia, provavelmente só me queria convencer a ir a um local de que deveria ser proprietário. E não gostei da forma como se refriu ao clube adversário. Na Europa torço por todos os clubes portugueses, pensava que os turcos seriam iguais. E se calhar até são, mas apanhei uma má rês. Por cá também há exemplares destes.
Outubro de 2010: o FC Porto vai a Istambul, jogar com o Besiktas. Entra no jogo mandão, domina a seu bel prazer e o primeiro golo surge naturalmente. É nessa altura que uma bailarina espanhola vestida simbolicamente de vermelho e mascarada de árbitro, decide tornar-se protagonista de um espectáculo para que tinha sido convidada pelo anfitrião. Quando a equipa portuguesa marca o segundo golo ( limpinho!) a bailarina espanhola decide invalidá-lo. Logo de seguida expulsa ( bem) um defesa azul e branco, por ter empurrado um adversário que se encaminhava isolado para a baliza portista. Poucos minutos depois, Falcão está isolado na área turca, é placado por um adversário e a bailarina espanhola, com trejeitos efeminados, manda seguir o jogo.
Quem não gostou da coreografia e decidiu vingar-se da duplicidade de critérios foi Hulk que, na segunda parte, marcou dois golos portentosos elevando o marcador para 0-3 favoráveis aos portistas. Os milhares de adeptos turcos não lhe reagtearam aplausos, o que me leva a acreditar que a minha teoria sobre o adepto do Galatasaray que conheci há 25 anos, devia estar certa.
A bailarina espanhola estava estarrecida. Via fugir-lhe uma noite gloriosa na companhia das soberbas odeliscas turcas e decidiu jogar uma última cartada, expulsando inexplicavelmente mais um jogador azul e branco.Os turcos ainda reduzem para 1-3, mas nada mais havia a fazer. Não sei se, para premiar o esforço, o árbitro terá tido direito a uma noite com uma odalisca num bordel rasca.
Felizmente na UEFA não há dirigentes da arbitragem dispostos a fazer figura de palhaços e sair a terreiro criticando o desempenho de um colega de profissão, só porque um dirigente de um clube que pretende ser intocável, impôr as suas regras e vencer a qualquer preço, mobiliza a imprensa desportiva e, com o seu apoio, tenta adulterar a verdade desportiva.
No final do jogo de Istambul o placard assinalava, inapelável, BES 1- POR 3.Desta vez Portugal levou a melhor sobre um Banco. Mas isso foi no futebol. Na vida real, continuamos a ser derrotados pelo poder financeiro.Era bom que aprendêssemos a lição e, bravamente, lutássemos contra os árbitros de Bruxelas que nos querem condenar a uma vida de míngua, obrigando-nos a claudicar perante as exigências da odalisca Merkel, cuja volúpia irá conduzir a Europa ao abismo.Saibamos ser bravos. Insurjamo-nos contra a injustiça, como os azuis e brancos fizeram em Istambul, perante uma bailarna espanhola apostada em derrotar –nos, pervertendo as leis do futebol, numa demonstração de despotismo desavergonhado.
Tal como no futebol, também na vida podemos lutar contra as adversidades e derrotar aqueles que, obnubilados por uma noite de luxúria, exigem que dobremos a espinha às suas exigências perversas, alterando as regras do jogo democrático. A alta finança, que está a esmagar os trabalhadores e a perverter as regras do jogo da Democracia, só poderá ser derrotada se nos unirmos e tivermos força para mostrar que rejeitamos a batota.

Era fácil, não era?

A solução deste problema que vos coloquei era mesmo fácil. Em Portugal, desde 1976, as leis são numeradas anualmente. Exemplos: Lei 29/ 81 ou Lei 5/2010. Ora, assim sendo, a Lei 3359 nunca poderia ser de 2002. A existir, tratar-se-ia de uma Lei aprovada durante o Estado Novo. Significa isso que a Lei não existe e foi uma invenção do autor do mail? Não exactamente. A Lei , na verdade, existe e trata do assunto que é transcrito no mail . Só que… é brasileira e, por isso, nunca poderia ter sido publicada no Diário da República ! Naquele país continua a ser utilizada a numeração sucessiva das leis, seguida da data da sua aprovação, sendo a publicação feita no Jornal Oficial.
Não sei se o autor deste mail agiu de má-fé, ou por ignorância, mas o resultado é o mesmo. É assim que se intoxica a opinião pública. O mais grave, é constatar que quem ma enviou tinha obrigação, pela sua actividade profissional, de saber que era mentira e deveria ter-se abstido de a reencaminhar.
Para muita gente, talvez esta questão não seja demasiado importante. Discordo de quem assim pensa. Creio não ser o único que, com tanta patranha que por aí circula, põe em dúvida mails que podem ter objectivos sérios. Ainda há tempos circulavam por aí mails pedindo dádivas de sangue, ou doações de medula, invocando necessidades do Instituto do Sangue ou do IPO, que aquelas organizações vieram esclarecer serem falsos. Com coisas sérias não se brinca e o assunto tratado neste mail é bastante sério e não merecia tratamento tão leviano.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Noites europeias

Comecemos pelo fim. O Sporting cilindrou uns belgas toscos, traídos por uma Lei Bosman que desvirtuou as regras do futebol europeu, reduzindo um país com tradições futebolísticas a parceiro de circunstância.
Ontem, o SLB – que a imprensa desportiva garantia ir deslumbrar a Europa -fez exibição miserável e perdeu, inapelavelmente, com um Lyon enfraquecido,por 0-2. Nem as bravatas do seu Jesus redentor evitaram a humilhação.
Na véspera, um Sporting de Braga retraído venceu uns sérvios aguerridos. A magia do futebol falou mais alto. Depois de terem sido derrotados pelo Shaktar, num jogo que poderiam ter ganho facilmente, os bracarenses ganharam um jogo onde a felicidade lhes sorriu.
Finalmente, na tarde desta quinta –feira, um FC Porto personalizado e mandão, que terminou o jogo com nove, venceu de forma autoritária o Besiktas,em Istambul. Um árbitro simbolicamente vestido de vermelho, bem tentou contrariar a supremacia portista, mas os bravos vestidos de azul e branco demonstraram que, desde que não haja na Europa um Vítor Pereira travestido de independente, nem um proto juiz que usa os túneis para fazer malabarismos e adulterar a verdade desportiva, é capaz de enfrentar todas as adversidades.

Assim nasce um boato


A maioria das pessoas já percebeu que recebe, diariamente, mails cujo único objectivo é lançar um boato ou criar confusão. Não sei se já vos disse, mas há “empresas” (?) que pagam a “criativos”(???) para lançarem boatos na Internet, através de e-mails cuja redacção pareça fidedigna.
A dificuldade em determinar as origens desses mails tem permitido aumentar exponencialmente a circulação desses boatos que , não raras vezes, são ataques comerciais de uma empresa sobre a concorrente. Muitos destes mails estão bem elaborados e é difícil detectar a fraude. Não é o caso deste que ontem recebi e de imediato percebi ser falso, pois tem uma incorrecção grosseira, facilmente detectável. Desafio-vos a detectarem o erro grosseiro de que falo. É muito fácil, asseguro-vos.
“O Hospital da Luz exigiu 2000€ a uma pessoa para ser internada de urgência!
SAÚDE: Lei Sobre o Depósito de Valores nas Clínicas Privadas, Antes do Internamento.
Foi publicada no DIÁRIO DA REPÚBLICA em 09/01/02, a Lei nº 3359 de 07/01/02, que dispõe:
Art.1° - Fica proibida a exigência de depósito de qualquer natureza, para possibilitar internamento de doentes em situação de urgência e emergência, em hospitais da rede privada.
Art 2° - Comprovada a exigência do depósito, o hospital será obrigado a devolver em dobro o valor depositado, ao responsável pelo internamento.
Art 3° - Ficam os hospitais da rede privada obrigados a dar possibilidade de acesso aos utentes e a afixarem em local visível a presente lei.
Art 4° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Não deixe de reenviar aos seus amigos, parentes e conhecidos. Uma lei como esta, que deveria ser divulgada, está praticamente escondida da população! E isso vem desde 2002. Estamos em 2010...!!!”
Assim se levantam suspeitas sobre a seriedade de uma empresa, se lança uma campanha de desinformação e se dissemina um boato na opinião pública, na mais completa impunidade.

Casa dos Segredos (2)

Ouvido no Metro:
-Qual é a semelhança entre o caderno de classificados do DN e a Casa dos Segredos?
- Ambos fazem publicidade a bordéis...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Casa dos Segredos


Sinceramente, não consigo perceber a indignação de alguma opinião pública ( e publicada) pelo facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter anunciado em directo, no seu espaço de opinião, a data e local onde Cavaco Silva vai anunciar a sua recandidatura. Ora pensem lá um bocadinho…Marcelo Rebelo de Sousa é comentador da TVI, certo? A TVI que exibe um “reality show” chamado “Casa dos Segredos”. Certo? Marcelo Rebelo de Sousa é conselheiro de estado, nomeado por Cavaco, putativo candidato a PR. Certo? Então qual é o espanto?
Não vejo assim muita diferença entre a Casa dos Segredos e uma reunião do Conselho de Estado! Em ambos os locais, é costume os participantes irem ao confessionário soprar as confidências que um dos residentes está interessado em dar a conhecer publicamente.

A desempregada milionária


Manuela Moura Guedes rescindiu o contrato de trabalho com a TVI, mais de um ano depois de ter metido baixa. Como ela própria anunciou, só colocaria a hipótese de rescisão a partir de um milhão de euros. Presumo, por isso, que tenha recebido uma indemnização choruda e não precise de continuar de baixa. Estou farto de contribuir, com o dinheiro dos meus impostos, para pagar as baixas de uma senhora mimada e super protegida pela união conjugal.
Não sei quanto terá custado aos portugueses a baixa ( presumo que psiquiátrica,pelo facto de, durante esse período, se ter deixado fotografar para capas de revista em noites de folia), mas não tenho dúvidas em afirmar que são estas baixas que delapidam a segurança social, deixam os seus cofres à míngua. e põem em causa o Estado Social.
Manuela Moura Guedes, com a desfaçatez que lhe é peculiar, escreveu na sua página do Facebook: "Faço parte, a partir de hoje, do imenso grupo de desempregados deste País! Está acabado o meu contrato de trabalho com a TVI! Acaba-se um ano de pesadelo sempre à espera que se fizesse justiça... E era impossível voltar porque seria para fazer o que sempre fiz, jornalismo verdadeiro que não cede a pressões vindas de onde... vierem. Estou um pouco assustada com o Futuro... mas, para já, obrigada pelos mimos que me dão!"

O caso de MMG é paradigmático da sociedade em que vivemos. Quantos desempregados neste país teriam hipótese de aproveitar um espaço de opinião, oferecido pelo cônjuge, para urdir uma teia mediática de proporções escandalosas e sair airosamente, rindo-se do povo português que lhe alimentou a preguiça durante um ano?Não me espantará se, dentro de pouco tempo, MMG escrever um livro de memórias em torno do caso “Freeport”. Com a avidez coscuvilheira do povo português, não serão os tempos de crise que impedirão que o livro se torne um best seller e MMG passe a emparelhar ao lado de outras grandes escritoras do género, como Carolina Salgado.
Ou se assinar um contrato com a SIC para voltar a agitar o país com outro qualquer escândalo envolvendo figuras públicas. Provavelmente, outro escândalo de corrupção que animará a comunicação social portuguesa, sedenta de vender papel, ou aumentar audiências. O temor reverencial não permitirá que os jornalistas deste país se revoltem contra a corrupção moral que o caso MMG/TVI encerra. De lorpas que confundem o jornalismo de investigação com o jornalismo da insídia, está o pais cheio. Falta é gente que tenha a coragem de denunciar que o caso MMG/TVI foi um escândalo de proporções inauditas que pôs a nu a promiscuidade entre a(lguma) comunicação social e o poder político.

Coreografias

O conclave laranja esteve reunido durante todo o dia. Presumo que o objectivo tenha sido ensaiar uma nova coreografia para apresentar aos portugueses a peça “ Perdoa-me II”, em que Pedro Passos Coelho justificará as razões que levam o PSD a abster-se na votação da proposta do OE para 2011.
Ninguém duvida que o PSD irá viabilizar o OE, porque todos sabemos que a última coisa que PPC deseja, neste momento, é ser Primeiro Ministro. A exemplo do que sucedeu noutros episódios desta curta, mas peculiar, democracia portuguesa, o PSD espera que o PS faça o trabalho sujo, espera que caia de podre e depois refastela-se no poder como um nababo. Quando as coisas começarem a cheirar a esturro, PPC segue o exemplo de Durão Barroso e pira - se…
Mas para que esta coreografia resulte, PPC vai apresentar algumas exigências a Sócrates. E aí, é que as contas podem sair furadas, porque Sócrates também encenou o seu número. Seaceitar algumas das exigências laranjas, das duas uma: ou carregou nas cores negras do OE, para dar margem a um recuo e está disposto a ir à luta á para o Verão, quando Cavaco dissolver a AR, ou também ele está ansioso por se ir embora e, nesse caso, manter-se-á intransigente, bate com a porta e lança o ónus da crise sobre PPC.
Lá para o Verão, saberemos se os portugueses preferem a coreografia laranja, ou continuam a apostar na rosa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Viagem ao hemisfério sul, pelas ruas de Lisboa

Acordo com saudades do hemisfério sul. Nem o sol ainda pálido que entra pela janela anunciando um dia esplendoroso, nem o azul imaculado do céu, conseguem transmitir-me um pouco de alegria. Ronceiro, cumpro o ritual da cepriega em jejum, barro as torradas com a manteiga de sempre, mastigo com enfado. O chá preto que veio substituir o mate escorre-me lentamente pelas goelas. Arrasto-me para a banheira e deixo-me fustigar pela água do chuveiro durante longos minutos, recuperando o prazer de me banhar nas águas de Quebrada de Humahuaca, ao dardejar dos primeiros raios de sol. Visto-me e saio para cumprir o ritual de todas as manhãs. Fico suspenso na chávena de café enquanto leio, no escaparate, as primeiras páginas dos jornais:
“ Portugueses vão enfrentar a crise com salário médio de 777 euros” (DN). O número, cabalístico, impressiona-me pela vacuidade do seu significado. O 7 é um número vazio, sem significado. Se o salário médio fosse 888 ou 999 euros, ainda podia haver esperança, pois são números risonhos , prenunciadores de fortuna.
“ Há cada vez mais gente sem dinheiro para comer”(JN) . Sinto a epiglote fechar-se num nó, barrando o caminho a qualquer alimento.
“Principal conselheiro económico de Passos Coelho diz que Governo perdeu o respeito pelos contribuintes” ( Público) Não percebo a razão desta notícia de primeira página. Desde Cavaco que a história se repete, por que razão só agora é notícia de primeira página?Será porque desta vez, alguém nos quer fazer acreditar que os mais ricos também vão pagar a crise? Ou será que vão pagar mesmo ( pelo menos uma ínfima parte) e estão revoltados com a afronta do governo? Fico na dúvida…
Na capa do mesmo diário uma notícia, acompanhada de foto a preceito, leva-me, finalmente, a esboçar um sorriso:
“Fiéis foram à missa de capacete, em sinal de protesto”. Estou-me nas tintas para saber a razão do protesto, manifestações políticas nas Igrejas são comuns desde o 25 de Abril. O ineditismo talvez esteja no facto de o protesto ter tido lugar em Lisboa. De qualquer modo, decido não comprar nenhum jornal, iniciando assim o meu combate à crise.
Ao princípio da tarde empreendo uma caminhada por Lisboa. Escolho o Rato para ponto de partida, seguindo depois pela Rua da Escola Politécnica. Deambulo por um Bairro Alto ainda meio adormecido, ressacando da vigília da véspera. No Largo do Carmo, as esplanadas estão cheias de turistas, sorridentes, gozando os favores de um sol prazenteiro. Ao descer a rua do Sacramento escorrego em caca de cão e quase me estatelo ao comprido. Dizem que dá sorte e logo à noite há sorteio do Loto 2. Mas isso não é válido para os lisboetas. Com tanto cocó de cão nas ruas, o mais difícil é mesmo não pisar uma cagadela. Palpita-me que este era grão fino. Devia ter acabado de debicar croissants com compota de frutos silvestres, na Bénard, e aliviou-se na primeira oportunidade, com o beneplácito da dondoca que, provavelmente a fazer contas à vida, preocupada com a redução de 10 por cento no seu salário de 5 mil euros, nem se apercebeu da indelicadeza do caniche.
Prossigo a caminhada ziguezagueando pelo Chiado, desço a Rua do Carmo e desaguo na rua Augusta, à procura de algo que me “toque” e faça sentir saudades de Lisboa. Ao contrário de outros tempos, nada sinto. Nem uma campainha tilinta no meu cérebro, os meus neurónios continuam insensíveis a tudo aquilo que os meus olhos captam. Há muita gente nas ruas. Gente de olhar fechado, caminhando em silêncio, cabisbaixa, como se transportasse aos ombros o peso do insucesso da Pátria amada. Sem nada para festejar, mas com muito para temer.
Por momentos deixo-me levar até ao reboliço da Calle Florida, entre a Avenida de Mayo e a Casa Rosada, onde àquela hora Cristina Kirchner deve estar reunida com os seus conselheiros, na tentativa de encontrar solução para a greve dos trabalhadores do lixo. As ruas de Buenos Aires a tresandar a lixo é coisa que não acontece desde os tempos do Corralito, já lá vai quase uma década. Maus odores é coisa que não se sente na Calle Florida, onde as pessoas passam em frenesim a caminho dos empregos, vozeirando, rindo, mastigando qualquer coisa de forma descuidada. Esta imagem devolve-me a Lisboa, traz-me à memória Cavaco Silva comendo bolo rei enquanto fala para as câmaras.
É hora de empreender o caminho de regresso. Junto ao elevador de Santa Justa, mais de uma centena de turistas aguarda a sua vez de subir e deixar-se conquistar por Lisboa. Olho em sentido contrário. O castelo de S. Jorge recorda-me Saramago e a História do Cerco de Lisboa. Quem está cercado neste momento, sou eu. De recordações. Os meus olhos humedecem, banhados por uma torrente de nostalgia e amargura.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………… O sol desapareceu há pouco no horizonte, deixando o Rochedo mergulhado numa penumbra fria. Pálido, anunciava a chegada do Inverno. Dentro de poucos dias, as noites passarão a ser mais longas, os dias cinzentos, chuvosos e tristes. Seria a ordem natural das coisas se no próximo mês de Março a Primavera irrompesse, viçosa e traiçoeira, inundando Lisboa com uma luz de esperança, batida por ventos prenunciando a bonança. O problema é que o Inverno que se anuncia ameaça prolongar-se por muitos meses. Provavelmente anos. Sem esperança, para a maioria, de voltar a enxergar nos tempos mais próximos a Primavera, quanto mais o Verão do bem –estar, da despreocupação, a que nos habituámos.
Já é noite cerrada em Lisboa. No hemisfério sul, os índios da Quebrada de Humahuaca preparam os seus rituais de boas vindas e anunciarão pela primeira vez, num Dazibao, a chegada do Verão, em dia certo. No hemisfério sul, o Inverno das ditaduras patrocinadas pelos mandatários do Tio Sam, já lá vai. O sol primaveril anuncia a chegada do Verão. Milhões de pessoas libertar-se-ão da pobreza, muitas sentirão pela primeira vez o prazer de se banhar nas ondas do mar. Olham para o futuro com esperança, acreditam que o Verão virá para ficar.
"Aqueles" índios da Quebrada de Humahuaca continuarão a regular-se pela passagem do Tren a Las Nubes para o ritual da mudança das estações, com a certeza de que a Natureza se renovará ciclicamente, porque não sabem o que é um telemóvel , desconhecem a Internet, estão imunes às más notícias porque não têm televisão, não lêem jornais e... nunca jogaram na Bolsa.


Imparcialidade incómoda para Lula

Sem surpresa, Marina Silva anunciou, ontem, que não apoia Dilma nem Serra na segunda volta das presidenciais brasileiras, a realizar no dia 31.

Com as sondagens a aproximarem os dois candidatos, a neutralidade de Marina Silva e do Partido Verde que a apoiou, irá provavelmente acabar por beneficiar Serra. Para um europeu, pode parecer que os brasileiros são mal agradecidos, se não elegerem a candidata de Lula, o presidente que transformou o Brasil. Em minha opinião, não é isso que efectivamente se passa. Na verdade, muitos brasileiros não vêem em Dilma uma sucessora de Lula e encontram poucas diferenças entre os dois candidatos. Para os 20 por cento de brasileiros que votaram em Marina, seria ela a sucessora natural de Lula e não Dilma. Perante os candidatos que se apresentam ao segundo turno, a escolha é-lhes mais ou menos indiferente, mas há pequenos pormenores, como a despenalização do aborto ( defendida por Dilma e rejeitada por Serra) que numa sociedade muito católica e, malgré tout, bastante conservadora, poderão fazer pender a balança para Serra. Penso que Lula menosprezou o peso de Marina Silva e talvez a esta hora tenha percebido que desprezar os votos na surpreendente outsider foi um erro. No entanto, a eleição de um ou outro candidato não deverá pôr em risco a imparável ascensão do Brasil no panorama internacional. As pequenas diferenças entre ambos é que poderão marcar rumos divergentes nessa caminhada ascendente. E isso, convenhamos, pode fazer toda a diferença num futuro próximo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Europa na hora do juízo final?


A crise económica e financeira que assolou o mundo ocidental, veio demonstrar que a Europa sonhada por Jean Monet é, hoje em dia, apenas uma quimera.A hegemonia que a Alemanha está a alcançar no contexto europeu é algo que nos deve assustar porque, ao contrário do que alguns defendem, a História repete-se…
A posição arrogante da senhora Merkel face aos países europeus em dificuldades e a hipocrisia que representa a sua aquiescência aos empréstimos, ter como moeda de troca a venda de armamento alemão aos países endividados, demonstram à saciedade que a Europa solidária falhou.
Em ano europeu de luta contra a Pobreza e Exclusão Social, os 84 milhões de pobres ( número com tendência para crescer) são a prova de que a Europa Social é um mito. Mas, pior do que isso, é constatar a indiferença com que os governos europeus olham para este número, não hesitando em tomar medidas drásticas que penalizam quem menos tem, enquanto cobrem de mordomias o poder económico e prestam vassalagem ao poder financeiro.
A Europa tolerante, multiracial e multicultural esboroou-se à primeira contrariedade. Ângela Merkel, Sarkozy, Berlusconni e David Cameron estão sintonizados no combate aos imigrantes. Depois de terem explorado a sua força de trabalho, querem desfazer-se deles como se fossem trapos imprestáveis, cuja função chegou ao fim.
A Europa defensora da Paz é apenas um slogan, desde a guerra dos Balcãs, tendo a posição europeia face ao Kosovo deixado ficar bem claro que os principais líderes europeus estão muito distanciados dos ideais de Jean Monet ou Jacques Delors.
Da Europa politica é melhor nem falar. É verdade que os líderes europeus ( talvez com a excepção de Zapatero)convergem ideologicamente e as suas relações parecem estreitar-se, porque estão unidos na petulância, no desprezo pelos mais fracos ou na concepção utilitária do homem, reduzido à função de produzir ( em troca de salários baixos) e consumir aquilo que produz (pagando preços altos).
A classe política europeia é imbecil, inculta, incapaz e corrupta. Os cidadãos europeus, inebriados pelos prazeres do consumismo e hipnotizados pela força de um ecrã , diante do qual passam grande parte dos seus dias (seja a ver televisão, a navegar na Internet, ou a entabular conversa nas redes sociais)são cidadãos passivos, incapazes de reagir à prepotência. Limitam-se a apascentar a decrepitude de uma Europa com cada vez menos peso no mundo, mergulhada nas suas contradições, que um destes dias vai despertar para a realidade como aquele velho rico que um dia descobre que está falido e já não tem qualquer crédito nos bancos.
A Europa cresceu demais e, pior ainda, não soube crescer. Não admira, pois, que esteja a viver uma velhice conturbada . Que alguém tenha a misericórdia de lhe conceder o direito à morte assistida.

domingo, 17 de outubro de 2010

Overdose

Depois de ter estado mês e meio sem visitar blogs e praticamente sem ler a imprensa portuguesa, dediquei o fim de semana aos jornais ( incluindo um desportivo!) e revistas para tentar perceber o que se passa neste país. Confesso-vos que a overdose de leituras me deixou confuso e estupefacto com a torrente opinativa que brota das páginas de jornais e revistas, contrastando com a exiguidade de informação. Alguém me explica a razão de a imprensa portuguesa ( e a comunicação socila em geral...) ser hoje em dia maioritariamente opinativa e dar cada vez menos espaço ao jornalismo?
O melhor mesmo é esquecer que a imprensa portuguesa existe e voltar à estrangeira, criteriosamente seleccionada. Pelo menos vou ficando a saber o que se passa lá por fora e, a partir daí, talvez me seja mais fácil perceber a situação deste país.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Resgate


Durante quase 24 horas o mundo esteve de olhos postos num pequeno ponto de um dos mais inóspitos locais do planeta que alguma vez conheci. O deserto de Atacama não é só o mais alto do mundo, é “o deserto”. Quando por lá andei, tive por diversas vezes a sensação de estar a pisar a superfície lunar, percorrendo os mesmos locais de Neil Armstrong em 1969. Especialmente quando cheguei a Valle de La Luna, onde pude assistir a um dos mais arrepiantes pôr-do-sol em toda a minha vida, dei por mim a pensar que aqueles que põem em dúvida a chegada do homem à Lua, se devem ter inspirado naquelas paragens, apesar de a vegetação e a fauna serem mais exuberantes do que em qualquer outro ponto do deserto de Atacama.
Bem, mas não foi para vos falar do deserto de Atacama, nem da “conquista” da Lua, que decidi escrever este post, mas sim para vos descrever tudo aquilo em que fui pensando enquanto assistia ao resgate dos 33 mineiros, soterrados nas minas de S. José.
O show mediático montado à volta da operação deve ter provocado imensa inveja nas Endemol do mundo televisivo, que já devem ter neste momento alguns criativos a trabalhar na produção de um remake que torne o Big Brother numa brincadeira para crianças.
A indústria cinematográfica, sonhando com mega produções capazes de cativar receitas de bilheteira astronómicas, também já deve ter colocado os seus melhores guionistas a trabalhar nos argumentos adaptados das histórias de vida de alguns mineiros. E boas histórias não faltam. O mineiro que pediu à mulher e à amante para estarem presentes no momento do seu resgate, o ex-futebolista, o que vai ver pela primeira vez a sua filha, ou o jovem de 19 anos que trabalhava ilegalmente na mina, (os mineiros têm de ter pelo menos 21 anos), são susceptíveis de dar bons argumentos para um filme, um seriado, ou mesmo uma telenovela.
Os publicitários não perderão o ensejo de convidar alguns mineiros para protagonizar anúncios a cervejas, atum e leite, ou mesmo aos óculos de sol que cada um trazia no momento do resgate. Alguns mineiros irão mudar de vida, outros voltarão ao seu trabalho, porque não têm outras condições de sobrevivência.
Enquanto os 33 mineiros soterrados eram içados por um vaivém subterrâneo que os ia trazendo um a um, de volta à vida, centenas de outros mineiros com salários em atraso viviam outros dramas de sobrevivência.
Quando o resgate terminou, recordei alguns posts que escrevi aqui no CR. Afirmei então que o Chile era o país da América Latina mais parecido com Portugal e pelas piores razões. Creio que vou ter de rever a minha posição, depois deste episódio. Se bem se lembram, quando a 22 de Agosto se percebeu que os mineiros estavam todos vivos, o governo chileno começou por anunciar que o resgate só poderia ocorrer por volta do Natal e admitiu que nem todos pudessem ser salvos. Os prazos foram sendo encurtados sucessivamente, dando ânimo aos mineiros e aumentando as expectativas de sucesso entre a população chilena. O tempo anunciado para o resgate, assim que começou a operação, era de três dias, mas acabou por ser concluído em menos de 24 horas. Ou seja, tudo foi preparado minuciosamente, de molde a que a redução dos prazos permitisse reforçar a força anímica dos mineiros.
Não tenho dúvida que se o desastre tivesse ocorrido em Portugal, tudo se passaria ao contrário. Os prazos iriam sendo dilatados e a impaciência dos mineiros iria enfraquecendo o seu ânimo.Não se trata de um aspecto de somenos importância. Nem para os mineiros, nem para o presidente Sebatien Piñera, um remake chileno de Berlusconni, mas com mais tacto.Foi esta estratégia que lhe granjeou a admiração dos media, cujo efeito multiplicador lhe permitiu capitalizar este episódio para aumentar a sua popularidade. Quando um jornalista chileno lhe perguntou se a situação dos mineiros com salários em atraso se iria resolver, Piñera apenas respondeu “que isto não volte a acontecer”.
Durante uns tempos, Piñera - um saudosista dos tempos de Pinochet – vai estar em estado de graça e quase aposto que alguns jornalistas gongóricos não deixarão de aproveitar este episódio para estabelecer paralelismo descabidos entre Chavez e Piñera. Vale uma aposta?
Aviso: Espero voltar na próxima semana à presença diária por aqui e por aí. Até lá, fiquem bem!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nobel da Economia: mais uma injustiça!



Infâmia! Vergonha! A Academia Nobel voltou a cometer uma tremenda injustiça, agora na atribuição do prémio da Economia. Que fizeram de útil Peter A. Diamond, Dale T. Mortensen e Christopher Pissarides ( atentem bem no nome deste cipriota...)?. Claro que houve politiquice na escolha. Se houvesse justiça, o prémio teria sido atribuído a Medina Carreira, esse brilhante cérebro que já foi ministro das finanças, mas se esqueceu de aplicar as receitas que diariamente vomita aos microfones da rádio ou diante das câmaras de televisão.

É verdade que a concorrência era muita, pois não faltavam brilhantes economistas portugueses candidatos ao cargo, todos eles com experiência de cargos governativos, todos responsáveis pelo belíssimo estado da economia portuguesa.

Como é que em Oslo ninguém reparou em nomes como João Salgueiro, Braga de Macedo, Ernâni Lopes, Daniel Bessa, o próprio Cavaco Silva ( e muitos outros) que tanto incentivaram os portugueses a viverem acima das suas possibilidades recorrendo ao crédito e endividando-se?

Como é possível que o juri do Nobel da Economia não tenha reconhecido o grande empenho dos ministros das finanças que nos governaram nos últimos 30 anos em presentear a alta finança com "benesses" sucessivas, reclamando não poderem ter sido mais magnânimes porque os funcionários públicos são um estorvo?

Todos estes ex-ministros das finanças mereciam o galardão ex-aequo, pelo facto de terem excelentes ideias para salvar o pais da bancarrota, apesar de nunca as terem posto em prática quando ocuparam o cargo. No entanto, se a Academia apenas quisesse premiar um, Medina Carreira seria o homem indicado. O homem sabe tudo, tem receitas para todos os problemas, faz uma dupla magistral com Mário Crespo, mas é um incomprendido e um injustiçado. Então não se lembram como ele elogiou profusamente as medidas tomadas pela Irlanda, aconselhou o governo português a seguir exemplo e prognosticou, do alto da sua sabedoria, a recuperação do país em dois ou três anos?

É verdade que o défice irlandês em vez de descer, subiu de 13 para 32 por cento, mas isso é apenas um pormenor e até os génios como Medina Carreira podem cometer um errozito.

Daqui proponho a Paulo Portas ( também ele um grande admirador do milagre irlandês) que seja o primeiro subscritor de uma petição reclamando o Prémio Nobel da Economia para Medina Carreira, pela sua perspicácia na análise da situação económica da Irlanda. Só assim será possível reparar a tremenda injustiça cometida pela Academia Nobel, que ignorou a genialidade de um português e premiou uns tipos quaisquer que ninguém conhece.



terça-feira, 12 de outubro de 2010

E esta, hem?

Só venho para vos dar uma notícia que a imprensa portuguesa ( sempre tão preocupada com os ditadores sul-americanos) provavelmente não dará, porque não interessa nada... Então aqui vai:
Vários organismos internacionais, incluindo a ONU, acabam de reconhecer que Hugo Chavez foi o líder latino-americano que, nesta década, mais combateu a pobreza e mais conseguiu reduzir as desigualdades. Apenas um exemplo: quando Chavez subiu ao poder, a percentagem de lares abaixo do limiar de pobreza era de 54%. Em 2007 era de 37, 9%.
Já agora, aproveito para informar que o último relatório do PNUD referente ao Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) revela que, em 2007, a Venezuela ultrapassou países como o Brasil, Colômbia e Peru, na América do Sul, ou Rússia, Turquia, Roménia e Bulgária,na Europa, ocupando a 58ª posição. Em 1999 ocupava a 69ª posição.
Grande chatice para os jornalistas do internacional da nossa imprensa não é? Pronto, ponham lá uma notícia a criticar Chavez por ter encerrado mais uma televisão, porque isso é que é verdadeiramente importante. A redução da pobreza que se lixe! ( apesar de este ser o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social)

domingo, 10 de outubro de 2010

Licões do Nobel




Chego tarde para comentar dois prémios Nobel que sempre me merecem especial atenção ( ainda falta o da Economia, que também aguardo com expectativa…)
Começando pelo Nobel da Literatura, atribuído a Vargas Llosa, só peca por ser tardio. Há muito tempo que o escritor peruano, um arrependido que virou à direita, fazendo o mesmo percurso de alguns ateus convertidos à Fé, merecia receber o Nobel, porque a sua obra é notável e não se deve confundir nunca a obra literária de um autor com as suas opções políticas. A Academia do Nobel redimiu-se, mas está ainda a dever uma distinção à América do Sul, nomeadamente à Argentina. Jorge Luís Borges morreu sem nunca ter sido distinguido, o que considero uma tremenda injustiça.
Quanto ao Nobel da Paz, a coisa pia mais fino. Já em 2009, quando Obama foi distinguido, manifestei a minha decepção pelo facto de a política ter sido determinante na escolha. Obama estava à frente dos destinos dos EUA há pouco mais de seis meses e nada justificava a atribuição de um Nobel com tão grande significado, a alguém que nada fizera ainda pela paz. O tempo, infelizmente, veio a dar razão às minhas reticências. Este ano a política voltou a falar mais alto.
É certo que a atribuição do Nobel ao dissidente chinês é justíssima, mas é demasiado óbvio que a escolha serve de pretexto para um ataque à China, que me parece inadmissível.
A mania de ver o mundo inteiro só com os olhos do Ocidente parece ter atacado a Academia que, ao escolher o dissidente chinês para premiar a paz, desenterrou o machado de guerra contra a China.
Obama aproveitou para exigir a libertação de Liu Xiaobo, sendo de imediato secundado pelos fiéis servos europeus.
Já conhecemos o conceito de liberdade dos americanos, principalmente aqui pela América Latina. Só os líderes servis a Washington são respeitadores dos direitos humanos. Depois temos Guantanamo, outro belo exemplo de defesa dos direitos humanos, praticados pelos Estados Unidos. Finalmente, um país que infectou propositadamente centenas de cidadãos guatemaltecos com sífilis e gonorreia para fazer experiências científicas merece, obviamente, o aplauso do mundo inteiro.
Não deixa também de ser irónico que os países europeus, onde a xenofobia e o desprezo dos direitos dos imigrantes está a alastrar de forma alarmante, se congratulem pelo facto de o Nobel da Paz ter sido atribuído a um homem que luta há mais de duas décadas pela defesa dos direitos humanos na China. É caso para dizer “Bem pega Frei Tomás…”
O cúmulo da hipocrisia é o mundo ocidental insurgir-se contra a China, por desrespeitar os direitos humanos. Não é esse mesmo ocidente que ao fortalecer diariamente os laços económicos com a China (seja através da deslocalização de empresas, seja pelas trocas comerciais cada vez mais intensas) está a incentivar a manutenção de salários baixos e condições de trabalho por vezes sub humanas? O Ocidente só se preocupa com a violação dos direitos humanos, quando se trata de questões políticas. Pouco importa aos cínicos lideres ocidentais que as pessoas vivam com salários de miséria, morram de fome ou cansaço, não tenham as mínimas condições de trabalho, se em causa estiver a Economia.
Nesse casos fingem que está tudo no melhor dos mundos e vão depositar em "off shores" as mais valias oferecidas pelos agentes economicos, a quem cumulararam de privilégios enquanto estiveram no poder.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viva a República?


Assinala-se hoje o Centenário da implantação da República. Entre festejos que, presumo, estejam a decorrer em todo o país, com pompa e circunstância, não se pode ignorar que o PM anunciou há dias ao país a recessão económica, o que me parece obnubilar as comemorações. Para além de um brutal aperto do cinto que atingirá quem trabalha, mas dará a folga de mais um furo no cinto dos barrigudos da alta finança nacional e internacional, as medidas anunciadas por Sócrates irão diminuir o consumo interno, gerando dificuldades às empresas e aumentando o desemprego. É tão óbvio, que nem é preciso explicar.
O que festejamos então na República? O fim da sucessão dinástica? Também não. O poder continua a ser plebiscitado nas urnas, mas a escolha vai invariavelmente para membros da mesma família do Centrão. É certo que não será o filho de Sócrates a suceder-lhe no trono de S. Bento, mas ninguém tem dúvidas que será um seu primo, chame-se ele Coelho ou qualquer outro nome. Não é novidade para ninguém, que o poder em Portugal está há muito nas mãos da mesma família política. Que se vista de laranja ou rosa, é hoje em dia indiferente a um grand número de portugueses, que os vêem como primos unidos pelo casamento, com o propósito comum de os espoliar. Ora eu sempre ouvi dizer que devemos desconfiar dos casamentos entre primos, mas o povo português parece não dar importância a isso , continua a acreditar que assim é que estamos bem e recusa-se a dar oportunidade a outros para governar. Sendo assim estão bem lixados, mas cada um sabe da sua vida e quem sou eu para os contrariar…
Há quem afirme que a República fortaleceu a nossa independência. Que independência? De Castela? Talvez… mas entre Castela e as agências de rating, venha o diabo e escolha. Fatal como o destino é que dentro de alguns meses, por imposição desses agentes espúrios que comandam a economia mundial por detrás de um biombo e da toda poderosa Alemanha que vendeu ao senhor Portas submarinos contrafeitos e recuperou a sua economia e a credibilidade internacional obrigando os países em dificuldades a comprar-lhe material de guerra, a troco de um aval para os empréstimos que se viram obrigados a contrair, junto dos grandes exploradores internacionais, os portugueses estarão confrontados com uma recessão económica e a sujeição a novas medidas draconianas que os atirarão, irremediavelmente, para a cauda da Europa durante longos anos.
Daqui a uns meses as agências de rating aumentam novamente os juros, farão novas exigências, com sorte há um ou dois bancos portugueses a ir à falência, o governo lança-lhes a tábua de salvação, atirando-lhes com mais dinheiro dos nossos impostos e vamos ficar muito pior.
Eu já vos avisara, ano passado, que 2010 iria ser muito pior do que 2009. Agora é melhor prepararem-se para mais quatro ou cinco anos de míngua. Pelo menos…
E viva a República! (Os reizinhos, viscondes, bobos da corte e concubinas que pululam por aí já são suficientes para nos azucrinar)
PS: Ainda não me é possível visitar-vos mas espero, em breve, voltar a bater-vos à porta para vos saudar e matar saudades. Sempre que possa, vou dando notícias.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Prova de vida


Um mês depois, aqui estou para dar sinais de vida. Apesar das saudades do blogobairro, ainda não é o regresso do CR. Falta-me tempo, espaço (e outras coisas…) para retomar os posts diários, mas hoje e amanhã aqui estarei e, em breve, espero poder retomar o contacto diário convosco.
Venho para falar das eleições brasileiras, cujos resultados determinaram a necessidade de uma segunda volta para escolher quem sucederá a Lula da Silva no palácio do Planalto. A vitória de Dilma Roussef , na primeira volta, era dada como quase certa. Apesar de ter chegado recentemente à política, ser praticamente desconhecida e nunca se ter candidatado a nenhum cargo político, Dilma beneficiava do facto de ser uma escolha de Lula, cuja popularidade atingiu uns impensáveis 80 por cento entre os brasileiros.
A história do renascimento do Brasil no século XXI ficará iniludivelmente ligada ao presidente operário, olhado com desconfiança e classificado por muitos como um analfabeto ignorante mas, durante os seus dois mandatos, o trabalho desenvolvido calou os seus opositores. Em apenas oito anos, Lula criou 14 milhões de empregos, lançou vários programas sociais ( A Bolsa Família é o mais emblemático) , conseguindo reduzir a pobreza de 43 para 29 por cento, aumentou em cinquenta por cento o salário mínimo e projectou a imagem do Brasil no seio da comunidade internacional. Se o Brasil é hoje um dos quatro países emergentes mais falados no mundo inteiro, a par da Índia, China e Rússia, muito deve à forma hábil como Lula da Silva comandou os destinos do país durante os últimos sete anos. Lula é a imagem do Brasil de progresso. Do Brasil que deu o salto em frente e se tornou protagonista privilegiado na cena internacional e não serão poucos os brasileiros que lamentem não ter chegado mais cedo ao Planalto.
Dilma Roussef apresentou-se ao eleitorado como a mulher que iria dar continuidade ao trabalho de Lula e a sua vitória parecia por isso fácil e inquestionável. Como já é sabido, tal não veio a acontecer à primeira volta, porque Marina Silva, ex ministra do Ambiente de Lula,decidiu candidatar-se.
Quando anunciou a sua candidatura, as sondagens davam-lhe entre 2 e 5 por cento mas, lentamente, foi ganhando popularidade, subindo nas sondagens e ontem alcançou quase 20 por cento dos votos dos brasileiros, inviabilizando assim a eleição de Dilma na primeira volta.
Escreverei, proximamente, sobre esta mulher excepcional, cuja acção à frente do ministério do ambiente brasileiro a guindou a figura de destaque internacional, cumulada de prémios de reconhecimento do seu papel na defesa do desenvolvimento sustentável. Por agora, apenas destaco que recebeu votos à direita e à esquerda e lançou um sério aviso ao PT, que deverá corrigir alguns desvios se quiser confirmar a vitória de Dilma Roussef na segunda volta e, quiçá, permitir o regresso de Lula daqui a quatro anos.
No dia 31 de Outubro, haverá uma segunda volta e Dilma continua a ser a favorita. Mas Marina Silva não apoia nenhum dos candidatos e, sendo a sua base eleitoral muito heterogénea, será possível a José Serra capitalizar muitos dos votos em Marina se, durante o tempo que medeia até ao próximo acto eleitoral, souber incorporar no seu discurso algumas das ideias de Marina que mais atraíram o eleitorado brasileiro. Uma coisa é certa. Ao contrário do que há alguns meses se pensava, a popularidade de Lula pode não ser suficiente para eleger Dilma e, contra todas as previsões, José Serra tem hipóteses de vir a ser o próximo inquilino do Planalto. Se isso vier a acontecer será uma grande injustiça para Lula, mas a História está cheia de injustiças…
Amanhã voltarei, para escrever sobre o Centenário da República.