sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Olhos nos olhos


O painel plantado na parede da sala emitiu um sinal sonoro. Olhei. Era a minha vez. Avancei resoluto, cumprimentei , a senhora retribuiu o cumprimento sem tirar os olhos do computador. Expus-lhe a primeira questão. Imperturbável, respondeu-me sem desviar os olhos do ecrã. Segunda questão mais complexa. Depois de uma pausa respondeu com uma pergunta que me pareceu descontextualizada. Era notório que não percebera a questão que lhe colocava. Repeti a pergunta.
- Ah! Não lhe sei responder ao certo.
Como não podia responder a uma questão que, obviamente, só podia ser sim ou não? Pedi-lhe:
- Por favor, preste atenção. Olhe-me nos olhos. Não percebeu a minha questão pois não?Finalmente tirou os olhos do computador. Olhou-me e disse:
- Estava a pensar na sua pergunta.
Voltou a fixar os olhos no computador. Pausa. Ao fim de uns 30 segundos perguntou:
-Mais alguma coisa?
- Sim, mas só lhe posso fazer a pergunta seguinte se me responder a esta.
Sorriu. Qualquer coisa tinha corrido bem no que estava a fazer no computador. Finalmente olhou-me nos olhos.
-Então, diga lá. Qual é exactamente a sua questão?
Respirei fundo e repeti a pergunta.Voltou a colar os olhos ao ecrã e sugeriu:
-Porque não consulta o nosso site na Internet? Eu dou-lhe o endereço…
-Fui ao vosso site na Internet antes de vir aqui. Não encontrei resposta para a minha pergunta, porque a resposta depende de dados que eu lhe estou a dar e no site da Internet não é possível introduzir. Lá mesmo diz para consultar um balcão e colocar a questão, porque a resposta depende da situação de cada um.
- Espere um momento, por favor…
(Levantou-se a contragosto e foi falar com um colega. Voltou passado meio minuto com a resposta).
-Então, sendo assim, quero mudar o valor do seguro.
Finalmente tirou os olhos do ecrã.
- Nesse caso terá de tirar outra senha, para ser atendido pelo meu colega. Eu não posso fazer a alteração.
- Tirar outra senha? Esperar mais meia hora para ser atendido, porque a senhora não pode fazer a alteração? Isto é de loucos, não lhe parece?
- São ordens superiores, não posso fazer nada…
O colega com quem ela estivera a falar, para responder à minha questão, deve ter ficado atento ao desenrolar da conversa. Levantou-se com um papel na mão. Murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido que a deixou incomodada. Voltou-se para mim e começou a pedir-me os dados.
- Olhe, pensei melhor. Afinal, o que vou fazer é anular o seguro e tratar do assunto com outra companhia.

13 comentários:

  1. É mesmo o fim termos de apelar no final. Mas aqui não é diferente...porque eles só tomam uma atitude quando anunciamos que desejamos cancelar o contrato.
    "Olhos nos olhos
    Quero ver o que você faz
    Ao sentir que sem você
    Eu passo bem demais"
    :o)

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  2. A sua resolução de anular o seguro e tratar do assunto com outra companhia demorou na, minha opinião, demasiado tempo. O Carlos tinha tido tanta paciência, se fosse um homem a atênde-lo?
    Segundo a minha experiência, as mulheres que trabalham nos serviços públicos, são quase sempre muito antipáticas e sem o mínimo de interesse no que estão a fazer; quer em Portugal, quer na Alemanha.

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  3. Boa sorte meu caro, é que nem sempre a mudança resolve o problema instituicional, Bjo

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  4. Na outra Companhia, a senhora, o painel e computador serão diferentes, mas o resto...

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  5. E se fizermos todos assim...
    Hoje fui ver um colchão ortopédico. Entrei, a senhora estava ao telefone numa clara conversa particular. Olhei, esperei que me dissesse alguma coisa, ignorou-me e continuou a sua conversa.Saí. Não volto lá mais. Depois admiram-se que compremos no IKEA (e afins) e queixam-se que o comércio local não vende...

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  6. Carlos Barbosa,
    O desrespeito sentido pela inobservância do olhar, desprendimento de sentido e, por vezes, acrescido de insipiência são manifestos, assíduos, que nos importunam, e, por vezes difíceis de superintender.

    Lamentavelmente, é comum. E, não aceite, naturalmente, por quem não se pauta por semelhante conduta.

    Um excelente desempenho profissional é aquele que se rege por um conhecimento sólido do cargo que ocupa e, semelhantemente manifesta respeito por todos os que o cercam.

    Uma dia feliz.

    Ana

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  7. E regozijo só de imaginar-te a dizer bem "olhos nos olhos" à senhora...
    - Olhe, pensei melhor. Afinal, o que vou fazer é anular o seguro e tratar do assunto com outra companhia.

    É que há uma coisita que tem que existir neste país.... profissionalismo!
    (binómio entidade patronal/trabalhador)

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  8. Caro Carlos Barbosa de Oliveira,

    Excelente libelo contra a burocracia e o jogo de interesses de certas entidades.
    Parabéns!
    Fiz link para "A Carta a Garcia".
    Abraço,
    OC

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  9. Aposto que lhe disseram algo do género ' Espere por favor, caro senhor, será atendido imediatamente'.
    Estes Seguros deixam a malta Insegura, é o que é (e ontem passei por algo de enervante tb por causa de uma companhia de Seguros).

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  10. Carlos, e pelo seguro fez muito bem em não piscar os olhos aos tipos.

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