terça-feira, 13 de julho de 2010

Na esquina da memória (6)

Portugal não é apenas esse país exótico que inventou os PIN para viabilizar projectos turísticos, comerciais ou industriais em áreas protegidas, ou altera um PDM num piscar de olhos, para proteger a actividade de um sucateiro cuja influência pode ser importante no resultado eleitoral de um concelho recôndito.
Portugal é o país do “jeitinho”, do “empenho”, (“ ó sr doutor, se me arranjasse qualquer coisa ao miúdo que anda há dois anos ao alto sem conseguir trabalhar… Obrigado stôr), onde (quase) ninguém já acredita ser capaz de mostrar o seu valor se não tiver um encosto, um padrinho, uma “cunha”.
Portugal é, também, um dos países europeus onde os cidadãos mais fogem ao cumprimento dos seus deveres fiscais, utilizando as mais imaginativas artimanhas para iludir o Fisco.
Em Portugal, não é só o merceeiro que rouba no peso do fiambre. Também o médico ou o advogado evitam passar recibo sobre os seus serviços e, quando lho exigem , vai de carregar sobre o preço da consulta.
No final de uma refeição num restaurante, há sempre um empregado solícito que pergunta “deseja factura?” na esperança de que o cliente responda “ deixe estar, não é preciso”…Quando pedimos a um electricista, um canalizador, ou um carpinteiro, algum serviço em nossas casas, a pergunta sacramental, antes de fazerem o orçamento é: "quer recibo?" Ou seja, quer que lhe ponha mais 20 por cento de IVA na conta?Claro que o português não quer, por isso responde logo: "não, deixe lá isso!"
Portugal é o país onde a Segurança Social detectou, nos últimos meses, 80 mil infractores. Ou seja, 80 mil cidadãos que se locupletaram indevidamente com quantias que não lhe eram devidas, pagas por todos nós. Baixas fraudulentas, gente a receber subsídio de desemprego, enquanto trabalha noutro local, ou está a gerir o seu boteco.
Portugal é o país onde a alta finança se move tranquilamente em off shores, a banca está sempre sob suspeita e as gasolineiras aumentam o preço dos combustíveis quando desce o preço do petróleo.
Resumindo: somos um país de vigaristas!Perante este panorama, espanto-me quando vejo os portugueses obcecados e deprimidos com a ideia de um conselheiro de Estado ser um troca tintas ou de um PM ter metido a mão na massa de um “outlet”. Mas afinal não são os nossos governantes portugueses? Não pertencem eles à oligarquia de interesses de um Centrão que governa o pais há mais de 30 anos, retribuindo-se favores e prebendas, partilhando salomonicamente os cargos decisórios?
O Centrão lembra-me, com inusitada frequência, o comportamento de duas famílias que lutam pelo poder de uma região. Convivem alegremente nas festas de casamento entre membros dos clãs, fazem discursos elogiando o significado daquela união, mas vão ao funeral dos membros da família adversária com aquela doce sensação de que ganharam mais poder com o seu enfraquecimento. Perdem a compostura e sacam de naifas ou revólveres, para eliminar o adversário, no momento em que a conquista de uma posição favorável no tabuleiro de xadrez depende de uma ida às urnas. Encarniçam-se, fazem jogo sujo, mas unem-se para alertar os seus súbditos que a luta se limita aos dois clãs.
Sinceramente, não tenho pachorra para tanta mesquinhez. Estou fora deste filme, porque quando se trata de lutas de “famiglia”, prefiro o recurso ao DVD, para ver os requentados episódios de “La Piovra”! Ao menos, aquilo (acreditam alguns) é apenas ficção. Parafraseando aquele “graffitti” na cidade do México, onde se podia ler “Basta de realismo, queremos promessas!”, apetece-me dizer:
Basta de telenovelas noticiosas, queremos saber o fim da história!
( Escrevi este post num outro blog há mais de um ano, mas permanece tão actual, que decidi partilhá-lo aqui convosco)

9 comentários:

  1. Triste, mas verdade, em parte. Não sou, nem nunca fui vigarista. Não ganho a vida a passar a perna aos outros e chateia-me sobremaneira quando tenho de pagar pela vigarice dos outros. Garanto-lhe que sempre que me propõem fazer um negócio sem factura, é discussão certa.

    ResponderEliminar
  2. Muito actual, Carlos... é caso para dizer: infelizmente! mas, é uma daquelas verdades incontornáveis que continuam a enviesar e boicotar a legitimidade recta do adiado desenvolvimento... até quando esta imensa dificuldade portuguesa de encarar e assumir como prioritária a cultura do mérito, desinteressada, imparcial e justa cuja mais-valia traria de imediato reflexos positivos para o país - eis a grande questão...
    Abraço.

    ResponderEliminar
  3. Carlos

    Se trocássemos o nome Portugal por Brasil e com algumas mudanças de nomes no três últimos parágrafos de seu texto, Ele continuaria perfeito, viu?
    Portugal é a Pátria mãe e, como vê, o Brasil, seu obediente filho, segue-lhe os passos... Ou será a mãe que aprende com seu filho rebelde?
    Seja como for, temos o mesmo constrangimento, a mesma tristeza, meu amigo...
    Tenha um bom dia.

    ResponderEliminar
  4. Excelente crónica Carlos, mesmo sabendo que o final da história não traga felicidade.

    ResponderEliminar
  5. Vou fazer link, Carlos.
    Obrigado.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  6. Actualíssimo!
    Do cidadão-eleitor tuga ao cidadão-eleito tuga. Poucos sobram.

    ResponderEliminar
  7. Pois é meu amigo, infelizmente continua a ser um texto actual e acho que mesmo daqui a dez anos não vai tirar uma vírgula.

    Bjos

    ResponderEliminar
  8. Muito bem escrito, como sempre. E nem esse facto nos tira o sabor a papéis de música na boca.

    Que sejam boas as suas férias.

    ResponderEliminar
  9. Infelizmente, sempre foi assim: funcionam mais as cunhas que as competências...

    (estou com dificuldade em comentar, vamos lá ver se este sai...)

    ResponderEliminar