
Quando eu cerrava os dentes para não comer a sopa e tu fazias força com a colher, até me enfiares a sopa pela boca abaixo? Um dia, obriguei-te a fazer tanta força, que as minhas gengivas sangraram. Desatei num pranto de criança mimada e fui dizer à Mãe que me tinhas batido. Depois tive vergonha, porque sabia já nessa altura que me vias como um filho e não merecias a minha traição. Tu, já uma senhora, namoradeira, e eu de cueiros a fazer cenas…
Desde esse dia, passei a comer a sopa sem oferecer grande resistência mas, a cada colher que me enfiavas pela goela abaixo, eu ameaçava:“Um dia apanho-te a dormir e faço-te o mesmo”.
Nunca cumpri a promessa. Nunca mais me lembrei das ameaças. Até hoje.
Deitada na cama do hospital, sem forças, pediste-me, com a voz sumida, que te desse a sopa. Olhei para ti e voltei a ver a cena, na casa do Porto onde fomos felizes. Os papéis inverteram-se, mas não olhei para ti como a Mãe que eras para mim naquela altura. O tempo encurtou distâncias entre os muitos anos que nos separam. A morte do irmãos que existiam entre nós aproximou-nos ainda mais. Na idade e nos afectos.
Sinto as mãos tremerem enquanto percorrem a distância do prato até à tua boca. Olho-te nos olhos e pressinto que estás a pensar o mesmo que eu. Espero que não te tenhas lembrado das minhas ameaças.
Onde está a expressão dos teus olhos castanhos que te conferiam uma beleza cobiçada por todos os teus amigos? Só vejo um olhar triste, quase suplicante. Adivinho que pedes à Morte que te leve quanto antes, porque estás farta de sofrer. Não faças isso. A Morte é uma cabra que nunca aparece quando chamamos por ela. Aparece sem ser convidada, a puta. Ceifa vidas que ainda têm muito para dar e prolonga o sofrimento de quem reclama a sua presença. Ignora-a. Despreza-a. Suplica-lhe que te prolongue a vida.
Coragem, mana! Estou ao pé de ti. Quando a cabra chegar não sei como vou dizer à nossa Mãe que tu partiste sem lhe dizer um último adeus. Ela sabe que tu já te despediste dela há mais de um ano mas, mesmo assim, imagino-lhe o sofrimento e antevejo-lhe as lágrimas. As mesmas que há muitos anos correm por aquele rosto hoje sulcado de rugas cavadas por rios de lágrimas que nunca mais deixaram de correr desde que os nossos irmãos partiram. Jovens, cheios de projectos e vontade de viver. Como vês, a grande cabra só aparece quando não a queremos por perto. Por isso, mana, te peço, não chames por essa puta. Faz um esforço e finge que estás interessada em viver e ainda esperas muito da Vida. A cabra, ciumenta, talvez te venha buscar.
O que dizer?
ResponderEliminarNada, simplesmente nada.
Esperar, por uma espera que não tenha fim.
Beijo
Bolas, com este post tive que ir buscar a caixa dos lenços de papel...
ResponderEliminarBjos
Tão dificil acompanhar o sofrimento e os últimos momentos de alguém que se ama... Tão triste esta sua despedida de quem foi fonte de amor...
ResponderEliminarReceba meu abraço, amigo...
Lamento muito
ResponderEliminarParabéns Carlos ! Que prova de amor, se calhar a quem não tinha que provar nada. Gostei do texto. A morte é mesmo uma cabra, que só nos leva de quem gostamos. Mais uma vez parabéns por este texto. Poderia ser um conto de Amor.
ResponderEliminarEste é daqueles momentos em que não há palavras.
ResponderEliminarUm sentido abraço de um desconhecido, Sr. Carlos.
Carlos,
ResponderEliminarÀs vezes é melhor deixarmos ir aqueles que amamos, principlmente quando eles querem mesmo ir.
As pessoas só morrem mesmo quando já não existir ninguém que os ame na face da Terra e isso, não há cabra, nem puta que consiga contrariar.
Um texto que me comoveu muito e calou fundo.
ResponderEliminarUm abraço bem grande.
Carlos
ResponderEliminarAo ler os seus posts, já ri, já me chateei, já me intriguei, já me irritei e muitas outras coisas acabadas em (ei) porra, hoje chorei!
Um grande abraço
Raramente as palavras se me fugiram.
ResponderEliminarAconteceu-me, ao ler este post!
Só me restou o alento para um gesto.
Um grande abraço, Carlos
Carlos Barbosa,
ResponderEliminarNostalgicamente impressionada na leitura do seu texto sublime detentor de reminiscências, emoções e, entendimento intensos.
A vida Carlos é um enorme palco de sensações, e, privar dela é a supremacia de todas as emoções reversamente à incompreensível, interrupção e, abrupta morte quando surpreendentemente ou expectavelmente suprime a vida sem apelo, dó ou piedade.
Quando a vida fenece e, a morte dolorosamente se torna eminente e, ocorre … o pano desce lentamente ou abruptamente no palco e, tristemente encerra e, termina o ciclo da vida.
Ana
Carlos, vou ter de concordar com você sobre aquilo que a velhice nos tira, e a morte também.
ResponderEliminarEste seu post me doeu muito.
Me fez lembrar que fui a última pessoa a tentar fazer comer alguém que eu amava muito.Era algo parecido com um refogado de vagem com cenoura. Até hoje, passaram-se alguns poucos anos, eu ainda não consigo comer o que se pareça com aquilo. Lembro-me da dificuldade que era para ela conseguir comer o pouco que eu lhe oferecia.Depois da refeição, deu-me algumas orientações como alguém que se despede e partiu naquele mesmo dia.É difícil até hoje lidar com essa perda.
Dias muito difíceis.
ResponderEliminarNão deixem nada por dizer...
Um grande abraço.
Carlos, um abraço sentido.
ResponderEliminarCarlos,
ResponderEliminarFiquei muito sentida com este seu post. O que se pode pedir a si e à sua irmã? Coragem??? Porra para estes momentos que vida nos reserva...
Nada mais consigo dizer mas mando lhe um apertado abraço e um beijo com muita ternura.
Mais do que tudo, isto é força e coragem. Admiro-te.
ResponderEliminarApenas deixo um forte abraço amigo Carlos.
ResponderEliminarMuito obrigado a todos pelas vossas palavras. Bem hajam.
ResponderEliminarNão consigo dizer muito... (nada me faz sentido perante o que senti nas suas palavras).
ResponderEliminarQuero apenas deixar-lhe aqui o meu mais sincero abraço.
Cristina
E não sei bem o que dizer. Já senti algo parecido e não devia ser assim.
ResponderEliminarGabriela
Há mais de uma semana que ando afastada da blogosfera, porque essa "cabra" me levou um familiar muito querido.
ResponderEliminarEsta tarde arrisquei a dar uma olhadela pelos meus blogues preferidos, mas logo na minha primeira visita, com a leitura deste seu texto, Carlos, profundo e triste, fechei logo o meu portátil, caindo de novo numa depressão insuportável, mas não deixando de reflectir sobre as suas palavras.
Face à necessidade de ler este texto nóvamente, considero-o, afinal, como contributo de auxílio ao meu luto; assim como me sinto solidária com a sua dor, meu amigo.
Ao ler este post lembrei-me do fado de Fernando Farinha, no fado que dedica à sua mãe:
ResponderEliminarPelas mãos de minha mãezinha
Andei nos tempos de então
Mas hoje como está velhinha
É ela que anda pela minha
Faço a minha obrigação.
E a terminar:
Agora só peço a Deus
Que neste mundo de escolhos
Quando ela for para os céus
Seja eu quem feche os olhos
Áquela que abriu os meus.
Amigo Carlos, receba um abraço muito sentido de alguém que já passou por essa triste situação.
Um abraço.
Um beijo, Carlos. :-)
ResponderEliminarCarlos obrigada por este texto. Descem-me gotas pela cara e sinto-me tão em paz...
ResponderEliminarQue tudo aconteça da melhor maneira.
Tudo de bom
Alexandra