Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Isto não teria qualquer importância se apenas estivesse em causa o futebol...

…mas aqui fala-se muito mais do que de bola.
"Quando a massa actua por si mesma, só o faz de um modo, porque não tem outro: lincha".
(Ortega y Gassett in "A Rebelião das Massas")

Estamos ainda no defeso, mas a época futebolística europeia já começou. O Marítimo já eliminou uma desconhecida equipa irlandesa e avança para a próxima pré-eliminatória. Os jornais desportivos dão pouca importância ao assunto, mas A Conchinha do Dragão volta a abrir-se em breve, para falar de bola. Daquela que gira nos relvados, não daquela onde escreve e exerce o seu magistério de influências, a claque benfiquista da imprensa.
Hoje apenas gostaria de vos lembrar que Valentim e João Loureiro foram absolvidos no processo relativo ao jogo Boavista-Estrela da Amadora, na sequência do qual o clube viria a ser despromovido. Mais importante do que a absolvição, foi a sentença da juíza. Arrasou por completo a acusação que- afirma- “limita-se a fazer presunções em cima de presunções” sem sustentar uma única prova com base em factos.
Lembro-me bem da forma como a imprensa desportiva - acompanhada por jornais como o CM- condenou previamente os Loureiros e Pinto da Costa, criando na opinião pública a ideia de que a condenação era inevitável, face à evidência das provas.Recordo algumas primeiras páginas que a imprensa fez com Carolina Salgado, erigida a Santa da Ladeira e escritora de tão elevados méritos, que chegou a colunista do CM.
Um atrás de outro, os processos foram sendo arquivados por falta de provas, mas a justiça desportiva digo, a imprensa desportiva, tem dado pouco relevo a isso. A sua sentença está dada, o melhor é colocar uma pedra sobre o assunto. Entretanto, um clube foi relegado para as divisões secundárias, porque os seus dirigentes foram acusados de crimes que, pelo menos, a justiça não conseguiu provar. Isso pouco interessa hoje em dia a um tipo de jornalismo que vive da lama e, em alguns casos, ainda recorre a colunistas de ocasião para lançar a suspeita sobre a falta de isenção da Justiça, se a sentença lhe não agrada.
Em 31 de Agosto de 2008, escrevia aqui:
“Pedir a um daqueles moços que escreve na “Bola” ou no “Record” que respeitem as elementares regras do jornalismo e sejam isentos nas análises que fazem a tudo quanto gira em torno dos interesses benfiquistas, é o mesmo que pedir a um heroinómano que deixe de chutar na veia de um dia para o outro. O benfiquismo está tão entranhado naqueles moços, que não conseguem distinguir entre realidade e ficção” (Continuar a ler)

Sei que as coisas não mudam e até compreendo que, em termos clubísticos, aqueles moçoilos escrevam só com um olho. No entanto, quando se trata de justiça e em causa estão pessoas, a sua condenação em praça pública é um péssimo serviço prestado ao jornalismo.

Isto podia ser uma crónica sobre futebol e não tinha qualquer importância. Mas não é. A imprensa dita séria condena frequentemente em praça pública gente sem culpa formada. Cria factos. Abre histericamente pretensos espaços informativos agitando provas de corrupção.Publica escutas em segredo de justiça. Viola a Lei. Tudo em nome de interesses que nos vendem como sendo de interesse público. Às vezes, porém, estas condenações jornalísticas não são mais do que jogos de interesses, onde política e interesses económicos andam de mão dada. Por isso se enchem primeiras páginas com acusações que não passam de suspeitas ou leves indícios, se aniquila a reputação e a vida profissional de uma pessoa e se reservam notas de rodapé quando o alvo que se pretendia atingir é absolvido. Ou- como no caso Freeport- o alvo de todas as acusações nem sequer foi constituído arguido.
Não foi esse o jornalismo de suspeição e linchamento em praça pública que me ensinaram… não foi por esse jornalismo que me apaixonei há quase 40 anos.

4 comentários:

  1. Carlos, tem muita razão no que escreve mas não se esqueça que em Portugal ser absolvido nem sempre é sinónimo de ser inocente...

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  2. Quando a ética jornalística é chutada para canto, o bom senso deixado em fora de jogo, o respeito por pessoas e instituições cortado a pés juntos, este teu brilhante texto teria toda a importância se este fosse realmente um país democrático. E a minha liberdade não começa quando acaba a do outro!

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  3. Concordo com quase tudo Carlos.
    É de lamentar as enormes fugas de informação em todos os casos. Quanto á inocencia das personagens em questão também me custa a crer. Vi alguns videos no youtube e a minha indignação é o facto de alguns personagens não terem sido condenados.

    Amigo tenho um selo no meu blog para si.
    Abraço

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  4. Concordando com o diz na sua postagem e na sua seriedade e brio profissional, no fundo acreditando em si, quero só lembrar-lhe que também há bloguistas, que sendo jornalistas, fazem julgamentos publicos e se calhar por não ler "A Bola " o "Record " ou " O Jogo " sou suspeito por ser benfiquista ".
    Cumpts

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