…mas aqui fala-se muito mais do que de bola.
"Quando a massa actua por si mesma, só o faz de um modo, porque não tem outro: lincha".
(Ortega y Gassett in "A Rebelião das Massas")
(Ortega y Gassett in "A Rebelião das Massas")
Estamos ainda no defeso, mas a época futebolística europeia já começou. O Marítimo já eliminou uma desconhecida equipa irlandesa e avança para a próxima pré-eliminatória. Os jornais desportivos dão pouca importância ao assunto, mas A Conchinha do Dragão volta a abrir-se em breve, para falar de bola. Daquela que gira nos relvados, não daquela onde escreve e exerce o seu magistério de influências, a claque benfiquista da imprensa.
Hoje apenas gostaria de vos lembrar que Valentim e João Loureiro foram absolvidos no processo relativo ao jogo Boavista-Estrela da Amadora, na sequência do qual o clube viria a ser despromovido. Mais importante do que a absolvição, foi a sentença da juíza. Arrasou por completo a acusação que- afirma- “limita-se a fazer presunções em cima de presunções” sem sustentar uma única prova com base em factos.
Lembro-me bem da forma como a imprensa desportiva - acompanhada por jornais como o CM- condenou previamente os Loureiros e Pinto da Costa, criando na opinião pública a ideia de que a condenação era inevitável, face à evidência das provas.Recordo algumas primeiras páginas que a imprensa fez com Carolina Salgado, erigida a Santa da Ladeira e escritora de tão elevados méritos, que chegou a colunista do CM.
Um atrás de outro, os processos foram sendo arquivados por falta de provas, mas a justiça desportiva digo, a imprensa desportiva, tem dado pouco relevo a isso. A sua sentença está dada, o melhor é colocar uma pedra sobre o assunto. Entretanto, um clube foi relegado para as divisões secundárias, porque os seus dirigentes foram acusados de crimes que, pelo menos, a justiça não conseguiu provar. Isso pouco interessa hoje em dia a um tipo de jornalismo que vive da lama e, em alguns casos, ainda recorre a colunistas de ocasião para lançar a suspeita sobre a falta de isenção da Justiça, se a sentença lhe não agrada.
Em 31 de Agosto de 2008, escrevia aqui:“Pedir a um daqueles moços que escreve na “Bola” ou no “Record” que respeitem as elementares regras do jornalismo e sejam isentos nas análises que fazem a tudo quanto gira em torno dos interesses benfiquistas, é o mesmo que pedir a um heroinómano que deixe de chutar na veia de um dia para o outro. O benfiquismo está tão entranhado naqueles moços, que não conseguem distinguir entre realidade e ficção” (Continuar a ler)
Sei que as coisas não mudam e até compreendo que, em termos clubísticos, aqueles moçoilos escrevam só com um olho. No entanto, quando se trata de justiça e em causa estão pessoas, a sua condenação em praça pública é um péssimo serviço prestado ao jornalismo.
Isto podia ser uma crónica sobre futebol e não tinha qualquer importância. Mas não é. A imprensa dita séria condena frequentemente em praça pública gente sem culpa formada. Cria factos. Abre histericamente pretensos espaços informativos agitando provas de corrupção.Publica escutas em segredo de justiça. Viola a Lei. Tudo em nome de interesses que nos vendem como sendo de interesse público. Às vezes, porém, estas condenações jornalísticas não são mais do que jogos de interesses, onde política e interesses económicos andam de mão dada. Por isso se enchem primeiras páginas com acusações que não passam de suspeitas ou leves indícios, se aniquila a reputação e a vida profissional de uma pessoa e se reservam notas de rodapé quando o alvo que se pretendia atingir é absolvido. Ou- como no caso Freeport- o alvo de todas as acusações nem sequer foi constituído arguido.
Não foi esse o jornalismo de suspeição e linchamento em praça pública que me ensinaram… não foi por esse jornalismo que me apaixonei há quase 40 anos.
Carlos, tem muita razão no que escreve mas não se esqueça que em Portugal ser absolvido nem sempre é sinónimo de ser inocente...
ResponderEliminarQuando a ética jornalística é chutada para canto, o bom senso deixado em fora de jogo, o respeito por pessoas e instituições cortado a pés juntos, este teu brilhante texto teria toda a importância se este fosse realmente um país democrático. E a minha liberdade não começa quando acaba a do outro!
ResponderEliminarConcordo com quase tudo Carlos.
ResponderEliminarÉ de lamentar as enormes fugas de informação em todos os casos. Quanto á inocencia das personagens em questão também me custa a crer. Vi alguns videos no youtube e a minha indignação é o facto de alguns personagens não terem sido condenados.
Amigo tenho um selo no meu blog para si.
Abraço
Concordando com o diz na sua postagem e na sua seriedade e brio profissional, no fundo acreditando em si, quero só lembrar-lhe que também há bloguistas, que sendo jornalistas, fazem julgamentos publicos e se calhar por não ler "A Bola " o "Record " ou " O Jogo " sou suspeito por ser benfiquista ".
ResponderEliminarCumpts