Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Há coisas que me irritam, pá!

(Na sequência deste post, lembrei-me de um episódio passado comigo nos anos 90 que ilustra bem a forma como os bancos incitavam - e quase obrigavam- as pessoas ao endividamento)
Quando comprei casa não pedi nenhum empréstimo, nem recorri ao crédito bancário. Antes de fazer a escritura, foi-me pedida uma declaração do banco, comprovando que o dinheiro não era proveniente de actos ilícitos. Abri a boca de espanto. Esclareci que tinha vivido durante vários anos no estrangeiro, até tinha uma conta-poupança emigrante, vivia dos meus salários.
No banco disseram-me que o melhor era pedir um empréstimo, pois assim deixava de ter quaisquer problemas. Além disso, podia aproveitar as vantagens da minha condição de emigrante. Agradeci a oferta, mas recusei. Embora não tenha o dinheiro debaixo do colchão, reduzo ao mínimo possível a minha relação com os bancos. Fazem-me urticária e tenho sempre a sensação de estar a ser roubado.
Não tinha outra alternativa, senão pedir às várias instituições onde trabalhei que me enviassem as folhas de salários, pois essa seria a única forma de comprovar os meus rendimentos anuais. O funcionário a quem alvitrei a hipótese torceu repetidamente o nariz, indicando que essa informação poderia não ser de todo fiável. Foi quando perdi as estribeiras e perguntei o que é que queriam: se a confirmação das entidades patronais não era credível, o que queriam? uma declaração de Cavaco ( então PM)?

O funcionário sorriu e mandou-me voltar no dia seguinte.Quando cheguei ao banco ( Pinto e Sotto Mayor), fui atendido por um "graduado" que, depois de fazer a apologia do recurso ao crédito durante uma boa meia hora, sem me conseguir demover, acabou por me dizer que podia estar descansado. O banco passaria a declaração de que não havia razão para duvidar da proveniência do meu dinheiro. Respirei fundo. Da noite para o dia passara de potencial corrupto a homem honesto.
Foi nesse dia que percebi que em breve ia regressar a um país, onde cada cidadão corre o risco de ser considerado corrupto, por não se querer endividar, mas muitos dos que vivem à conta do crédito bancário pavoneiam-se descontraidamente pelos lugares mais “in” do país e estrangeiro. Não sei se compraram as suas casas com recurso a crédito bancário, ou se o seu ar de credibilidade lhes serviu de aval.

Depois deste episódio estive a pensar durante cinco anos se devia regressar definitivamente a Portugal. Pensei demais e, hoje em dia, penso que decidi mal. Nada que não se resolva com uma nova partida. É que não gosto de viver num país onde um normal cidadão fica sob suspeita, pelo simples facto de não querer endividar-se, e os trafulhas que nos atiraram para esta situação, continuam a ser apaparicados pelo governo. Mas isso ainda seria o menos mau. Há coisas bem piores que me aconselham a olhar para este país - e para a Europa em geral- apenas como um eventual destino de férias.

8 comentários:

  1. Onde é que eu já vi este filme?????

    Pois á cerca de 30 aninhos atrás aconteceu-me a mesma coisa, só que comigo foi na C.G.D., e não me deram o dito papael, e pior ainda não beneficiei de isenção de Contribuição autarquica por isso.

    Pois levantei no dia seguinte os 30 mil contos que tinha na conta poupança emigrante, porque no mesmo dia o dito banco não tinha a verba disponível(mas era mesmo um banco, não era a caixa do merceiro do lado).

    E de nada valeu todos os pedidos de desculpa do gerente e afins....porque a mim só me f**** uma vez porque a segunda é preciso que eu deixe.

    Beijokitas

    ResponderEliminar
  2. Neste rectângulo de terra esquecido a um canto quem é jovem, tem um saldo em sonhos muito maior do que na conta corrente. E os bancos sabem disso, e os bancos aproveitam-se disso. E depois, para a grande maioria, não há grandes alternativas senão recorrer ao crédito para a aquisição de casa. O arrendamento é a única alternativa possível para ter uma habitação condigna. Mas o que mais me irrita é ver muito boa gente a pavonear-se com os seus potentes popós, a fazer viagens de férias para sítios paradisíacos e acenarem os seus cartões de crédito em todo o lado quando na realidade vivem em casas camarárias a pagar rendas ridículas, quando outras famílias mais necessitadas estão nas chamadas listas de espera!

    ResponderEliminar
  3. É pena que neste país se acredite nos corruptos e outras pessoas do mesmo género e os honestos passem a duvidosos. Ou então já é prática corrente, onde as pessoas com altos cargos e portando mais endinheiradas, sejam corruptas.

    ResponderEliminar
  4. Eu, e um dos Bancos é uma das mãos que me dá de comer, com a minha outra mão (que me dá de comer) tiro tudo dos bancos e ponho junto a mim; e não é que rende? Juro!

    ResponderEliminar
  5. Pois é. É engraçado que eu e todos os meus colegas, na casa dos 30, quem o Estado devia cativar para ficar no país, porque bem ou mal, precisa de nós, só consegue motivar-nos para sair do país. Não deve faltar muito para sairmos todos de debandada. Depois quero ver como pagarão o seu estilo de vida milionário.

    ResponderEliminar
  6. Pedi para a casa e paguei antes dos 25 anos acabarem e não lhes voltei a pedir mais nada e gostei de os mandar dar uma volta quando me queriam emprestar dinheiro à força e ainda bem porque me tinham entalado ;)
    Quero esses chulos legalizados bem longe de mim lol

    ResponderEliminar
  7. Carlos,
    Sou cliente do mesmo banco desde 1980! Um dia tive que recorrer a um empréstimo.
    Sabe o que me disse o meu gestor de conta:
    tenho que lhe dar os parabêns porque entrou de cabeça erguida quando a maoria vem com ar de "pedinte" mas quando vão depositar parecem donos do banco. Eu só lhe respondi: infelizmente os agiotas do seu banco ganham muito mais com os empréstimos. é tudo facilidades. O pior é que dão-nos o chapeu quando faz sol e tiram rapidamente quando chove.
    E é isso que se passa e por isso vimos tanta gente aflita. Muitos pediram para carros, férias, etc. Desses não tenho pena.
    Beijo

    ResponderEliminar
  8. Também já passei por um filme idêntico! Ao vender um prédio antigo que herdei do meu avô, fui pagar a dívida que tinha do empréstimo da casa onde vivia, com a intenção de comprar outra em Lisboa. A funcionária foi do mais rude possível, queria saber onde eu tinha dinheiro para pagar, fiquei com a sensação de estar a ser tratada como uma traficante de droga ou coisa.

    Antipática e com sobranceria lá aceitou o meu pagamento, quase por favor, no final pedi-lhe para me dizer o seu nome - o que ela recusou. Retirei todo o dinheiro do banco (CPP) e não pensei voltar a pôr lá os pés! Qual não é o meu espanto, quando cerca de três meses depois vem mais uma conta, por causa de um engano informático nas contas e blablablá. Paguei! Outros três meses depois, mais um engano e mais não sei o quê! Fui falar com o gerente bancário da zona onde vivia, ah e tal que fica resolvido, não há problema, sabe que a informática (bicho papão que utilizaram durante anos) tem destas coisas...

    Ainda me ri, quando recebi mais uma conta, uns outros três meses depois de 9 escudos. Aí escrevi para o director do banco, descrevi toda esta história e disse-lhe que não pagava nem mais um tostão! Vá que recebi um pedido de desculpas do mesmo, delicada, a dizer que a "dívida" estava saldada...

    ResponderEliminar