sexta-feira, 2 de julho de 2010

Crónicas de Graça # 14

O descanso
Devo começar por explicar-vos que escrevo esta CG sobre o descanso, muito cansado. É que, como muitos saberão, regressei de uma mini-férias de 10 dias que me descansaram o corpo, mas entorpeceram o cérebro e ainda não tive tempo para o voltar a programar para o trabalho. Talvez por isso, enquanto olhava para o computador, com a mesma angústia com que em tempos olhava para uma folha de papel branco sem saber o que escrever,me lembrei que há coisas relacionadas com o descanso que nunca percebi.
Só muito tarde descobri, por exemplo, o sentido da expressão “sopas e descanso” que durante muitos anos aliei à máxima dos calaceiros –para quem alegria no trabalho se resume ao dia em que recebem o vencimento- ou de alguns reformados, cujo projecto de vida é passar o dia sentado numa mesa de café ou a jogar cartas com os amigos, enquanto esperam pelo cangalheiro.
Talvez por isso hoje se fale tanto de reforma activa e os governos europeus adiem sucessivamente a idade da reforma
. Bem, mas isso são contas de um outro rosário que talvez desfie por aqui noutra oportunidade.
Outra coisa que não percebo é dizer-se que o domingo é o dia de descanso semanal. Há imensa gente que trabalha ao domingo e, digo-vos, fui muito feliz na época em que o meu descanso semanal era a meio da semana. Afianço-vos que, para mim, o verdadeiro descanso semanal não é caminhar no paredão nas manhãs de domingo, quando está invadido de gente, nem ir passear até à Ericeira ou à Praia das Maçãs, tendo que enfrentar longas filas de trânsito e esperar em pé por uma mesa num restaurante com vista para o mar. Tampouco significa chegar ao fim do dia com a neura de pré segunda-feira, eventualmente agravada pelo facto de a nossa equipa ter perdido o jogo e atrasado na luta pelo título.
Descanso semanal, para mim, é poder ir ao cinema numa tarde de quarta-feira, depois de ter passado parte da manhã a ler o jornal, numa esplanada deserta, enquanto os outros estão trabalhar. O dia de descanso semanal ao domingo ( ainda que para muitos venha acoplado ao bónus do sábado) faz-me sempre lembrar aquele diálogo do Speedy Gonzalez com a namorada:
“Ai querida é tão bom, não foi?”
Nos tempos modernos instituiu-se o conceito de fim de semana alargado como sinónimo de descanso. Valha a verdade que gozar um desses fins de semana é como dar uma rapidinha: sabe bem, alivia as tensões, mas quando acaba ficamos como a madame do anúncio da Ferrero Rocher :“Jerónimo, apetece-me algo…”.

O “algo” neste caso são as férias grandes que só chegam uma vez por ano e, assim que acabam, nos deixam a salivar à espera das próximas. Podemos ter boas recordações daquele fim de semana prolongado em Paris, numa Pousada, ou num hotel de charme, mas nada se compara às férias grandes. Grandes, é como quem diz… uns pindéricos vinte e poucos dias que a maioria dos portugueses nem sequer goza de uma vez !
Férias grandes eram as do meu tempo de estudante. Quatro meses no Verão, mais umas semanitas no Natal e na Páscoa. Não é que descansasse muito ( descansava mais em algumas aulas de Português, História ou Geografia , especialmente nos anos em que tive professores excepcionais) mas era um tempo de renovação do corpo e do espírito que permitia enfrentar o ano lectivo seguinte , como se a vida iniciasse um novo ciclo. Agora quem é que descansa como deve ser, com pouco mais de 20 dias de férias por ano, ainda por cima gozados às pinguinhas? Pronto, mas é aquilo a que temos direito e o melhor é não protestar muito, porque já anda por aí gente a dizer que descansamos demasiado e temos férias a mais.
Há também umas deputadas que devem gostar de “rapidinhas” e querem colar os feriados aos fins de semana. Sou contra! O melhor era juntarem os feriados e gozá-los todos de enfiada. SEmpre era pelo menos mais uma semana de férias e qual a diferença de comemorar o 25 de Abril no dia 24, ou em Outubro?
Bem, mas o importante é aproveitar as férias para um bom ripanço. Confesso que não sou muito esquisito. A única regra que tenho é nunca gozar férias em Julho e Agosto. Pelas mesmas razões que invoquei sobre os domingos, prefiro tirar as minhas férias fora de época, pois só assim é que saboreio plenamente o descanso (a praia no Verão faz-me lembrar o Metro em versão descapotável).Imprescindível é ter um período de pelo menos três semanas: a primeira para o descanso absoluto e "limpar" a cabeça; a segunda para fazer o que me der na real gana e a terceira para me preparar para o regresso ao trabalho.

Férias ideais para mim significam partir de carro por essa Europa, sem destino marcado, ou comprar um bilhete de avião para qualquer parte e depois... logo se vê. O improviso e o imprevisto são óptimas terapias para quebrar rotinas e proporcionar um bom descanso. No entanto, de há uns anos para cá, as minhas férias só terminam depois de alguns dias passados na praia habitual do sul de Espanha, junto ao mar. Se não o fizer, fico com aquela sensação de quem comeu uma boa refeição, a que faltou o café para rematar.
Mas o que gosto mesmo é de viajar. De andar de olhos bem abertos à descoberta de realidades diferentes das do meu país - sejam elas boas ou más - de contactar com as pessoas, perceber como elas vivem, de trocar opiniões sobre o seu modo de estar, a sua relação com o Estado, os modelos sociais do país, como funciona a justiça, a saúde ou a educação. Numa frase apenas: gosto de sentir o pulsar do país que escolhi como destino de férias.
E também gosto de descansar, passando uns dias no meu Douro, em Setembro, e uma semanita nas termas fazendo nada, ou seja, a ler, caminhar, escrever e fazer Sudoku para prevenir a visita do tio Alzheimer. O problema é que falta tempo para isso tudo. Daquele que se mede pelo relógio e do outro que é determinado pela conta bancária.
Ora digam-me lá: quem pode descansar condignamente se não tiver os dois tempos? Será que a minha querida parceira tem uma resposta para esta questão? Vão lá ver o que ela pensa sobre o descanso...



17 comentários:

  1. Quatro meses de férias, isso é que era!
    Não sou bem como o Carlos, 3 semanas seguidas de férias é demais para mim. O descanso apodera-se do meu corpo e dp preciso de mais duas ou 3 semanas para recuperar o ritmo :-p. Duas semaninhas em Maio ou Junho e mais duas em Outubro, Novembro ou Dezembro é o ideal (para mim, claro).
    Concordo consigo no que diz respeito às férias em Julho e Agosto, nunca o faço. Aliás, como moro perto da praia, uma simples visita ao supermercado, nesses meses, pode ser um verdadeiro suplício.
    Boas férias!

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  2. Se o Cavaco lê isto Carlos....
    Então não é ir para fora cá dentro?

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  3. Antes de visitar a Patti tenho a comunicar que pertenço ao grupo dos que esperam pelo cangalheiro mas descansadinha em casa, não gosto de jogar às cartas! :-))
    Como me canso muito por não fazer nada também preciso de férias e o meu conceito de férias está próximo do teu e já que agora posso tirá-las em qualquer época faço-as quando quero mas nem sempre onde quero... :-))


    Abraço e bom descanso ...das mini-férias

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  4. Também sou fã desse tipo de férias, da aventura, do imprevisto e da descoberta.
    Desligar, sobretudo desligar do ritmo do dia a dia ao carregar no off de vários interruptores: o relógio, o telemóvel e o e-mail e aproveitar o silêncio.... ah, o silêncio......

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  5. Adorei o post Carlos, e concordo plenamente contigo. O único inconveniente que vejo no descanso semanal ser a meio da semana bem como as férias em meses fora dos tradicionais é apenas o facto de prezar muito os amigos e adorar passar férias com eles. E como sabemos a maior parte das empresas quase não deixam escolher a época de férias, optam apenas por as dar em Julho ou Agosto, e assim se queremos a companhia de amigos ou família temos de nos resignar a esses meses.
    Abraço

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  6. Eu descanso 11 meses por ano e, em compensação, tenho direito a um mês de trabalho.

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  7. Pois desde que as m/crianças se tornaram adultas eu vou de férias, no periodo em que não há praticamente ninguem.....porque como tu gosto de descanso nas férias.
    E concordo contigo " Ambrósio apetece-me algo".....(mais uns dias longe deste estaminé)

    E que saudades desses tempos em que férias eram 4 meses de verão, mais pascoa, mais natal.....

    Beijokitas e "bom descanso semanal":)

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  8. Por acaso não compreendo as pessoas que se cansam mais nas férias, com tantos compromissos ou, ainda, mais do que em tempo de trabalho ;)

    Bjos

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  9. Invejo-o! Pelo prazer que tem nas suas viagens, pelo prazer que tem pela vida.
    As minhas férias são sempre no mesmo lugar, no Algarve, porque tenho lá a casa dos meus sogros, senão seriam em casa.
    Dois filhos na Universidade, um ordenado, com a crise e os filhos a saírem cada vez mais tarde de casa...só em sonhos irei viajar!
    Viajo por aqui, e já não é nada mau! ;-)
    Um abraço amigo

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  10. Carlos,
    Tenho andado um pouco ocupada com o meu "umbigo", isto é, olhando demasiado para dentro de mim e apesar de me lembrar sempre deste canto e de outro, "fugia" a vir cá pois se não lia sentia a falta do chocolate com o café depois do jantar! Ainda por cima você não só escreve bem como muito caraças!
    Prometo que por uns tempos vou deixar de olhar para baixo!
    Concordo com tudo o que disse sobre o descanso mas quero acrescentar um pouco da minha experiência: também se descansa fazendo algo de diferente: os 15 dias em França a apanhar maças ou as 3 semanas a servir à mesa na Suiça, souberam-me que nem ginjas!
    Veremos se percebo o seu passatempo.
    Beijo

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  11. E descansar é também parte fundamental de uma viagem e quase sempre no final é preciso ter um ou dois dias para descansar das férias!

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  12. Pelos vistos férias bem aproveitadas. Normalmente quando se chega de férias cansado é porque foram muito boas. Corpo cansado mente sã !
    Um abraço

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  13. Neste tipo de férias eu costumo ver as coisas ainda pior que o Speedy Gonzalez:
    ele diz, "é tão bom, não foi ? "
    eu digo, "que bom que vai ser, não foi ?"
    Abraço e boas novas férias para recuperar :))
    .

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  14. Vem a propósito, ainda hoje li algures uma notícia dando conta de uma série de empresas que afirmam que não vão pagar o subsídio de férias. Gostava de saber se estão todas em situação económica difícil. Cá para mim andam à boleia...

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  15. Depois de um bom período de descanso como o que o Carlos teve, começar logo uma actividade - escrever, neste caso - não está com nada. É a concentração que ainda não está no sítio, é a moléstia que não despega, é o saber que acabou o descanso e que vêm aí mais não sei quantos meses de labuta.

    Quanto a um dia de descanso no meio da semana, também apoio! Onde é que assino a petição?
    Mas as pessoas têm muita mania de dizer mal dos domingos, porque eles, coitados, representam a véspera da segunda-feira. Vai que, por isso, o pessoal fica em casa a lamentar-se em vez de aproveitar mais esse dia de não fazer nenhum. Tuguices, digo eu!

    Mesmo agora com este horário de verão, em que anoitece muito mais tarde, as pessoas deviam aproveitar mais apra ir a uma esplanada depois de jantar, dar uma volta, ver um cinema, ou qualquer outra coisa. Mas nada! Enfiam-se em casa e kaput!

    Gozar fins-de-semana durante o ano, também é comigo. Mas Carlos, hoje em dia quem é que pode dar-se ao luxo de gastar 300/400€ em dois dias? Ele é gasolina, alimentação, estadia, refeições ...

    E adoro a palavra ripanço!

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  16. Concordo absolutamente que férias boas não são em Julho ou Agosto, quando o meu filhote era pequeno tirávamos sempre em Junho, guardando uns diazitos para Setembro. Mas depois, quando começou a ter aulas a sério, deixou de dar...

    Por outro lado, viajar nas férias nunca me pareceu sinónimo de descanso: se a pessoa quer conhecer o local, não pode ficar de pernil estendido. E os passeios e caminhadas para conhecer todos os cantos possíveis, para lá de museus, igrejas, bares, restaurantes ou afins, apenas permitem breves descansos. Afinal de contas tem todo o ano para ler ou ouvir música, não é? Claro que no fim é essencial tirar os tais dias de descanso, para recuperar... :)

    3 semanas seguidas de férias, hoje em dia, é um luxo a que poucos se podem dar, a maioria das empresas não o permite. Mas o importante mesmo é aproveitar para conhecer novos horizontes...

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  17. Concordo totalmente com a Teté.
    Ter a oportunidade de conhecer coisas novas, que só possa acontecer uma vez por ano e passá-la de papo para o ar, ao sol, ou a ler, ou a ouvir música é um autêntico desperdício. Para isso não é preciso ir para lado nenhum ! Basta aproveitar os tempos livres que vão surgindo.
    Umas "férias bem aproveitadas" são normalmente cansativas !
    Estamos em sintonia, Teté.
    .

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