Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Crónica de uma canalhice

(Crónica só para adultos, não aconselhável a pessoas sensíveis!)
Nasci com todas as condições para vir a ser um adulto machista, impertinente e a cheirar a cavalo, apreciado por muitas mulheres que certamente detestaria.
Caçula de uma família burguesa do Porto, mantendo tradições que já nos anos 60 cheiravam a mofo, fui “ensinado” a olhar para as mulheres como um objecto decorativo, instrumento de prazer, hábeis na gestão da vida familiar, prendadas para os bordados e criadas para casar com tipos ricos que perpetuassem a tradição familiar.
Aos 14 anos, olhava para as minhas primas como seres inferiores, cuja única função, terminada a fase dos baptizados das bonecas, seria a de parideiras, boas donas de casa e extremosas esposas e mães.
Se hoje sou solidário com as mulheres e as vejo como iguais, isso não se deve às leituras que fiz, ao facto de ter abandonado o Porto e o seio familiar aos 17 anos para me tornar independente, ao Maio de 68, ou a uma vivência em vários continentes, durante muitos anos. Quase diariamente, vejo na televisão pessoas com um percurso idêntico ao meu ( com alguns dos quais partilhei momentos da minha juventude) e nem preciso de falar com eles, para perceber que apesar das aparências exteriores, se mantêm iguais ao que eram na juventude.
O que me fez tornar solidário com as mulheres e passar a olhar para elas como companheiras e não meros complementos sexuais foi, confesso, um momento de pura canalhice juvenil.
Era Setembro e estava a passar o final das férias na quinta de uns amigos nos arredores de Ponte de Lima. A filha dos donos da casa (amigos dos meus pais) fez anos e deu uma festa. Em casa, como era habitual naquela época. Com dois amigos mais velhos e a cumplicidade da minha amiga Petra W ( ler aqui) decidimos introduzir um gravador no quarto onde as raparigas deixavam os seus casacos e se iam retocar. Queríamos apenas saber se nas conversas que travavam entre si, uma delas retribuiria os sentimentos que um de nós sentia por uma delas. Estávamos longe de imaginar o que iríamos ouvir...
Terminada a festa, reunimo-nos num quarto para ouvir a gravação. O resultado foi uma surpresa. Foi nesse dia que percebi que as raparigas da minha idade não se interessavam apenas por bordados, culinária e vestidos, pelo Johny Halliday ou pela leitura do “Salut Les Copains”. As raparigas da minha idade partilhavam das mesmas preocupações que os rapazes, tinham conversas sobre as mesmas questões dos rapazes e discutiam problemas sexuais como os rapazes ( com o à vontade possível na época, entenda-se...).
Quando do gravador saiu a voz de uma jovem lisboeta que passava parte das férias no norte, a dizer que um determinado fulano ( de que nenhum de nós gostava e muitos portugueses ainda hoje detestam) lhe fazia um “grande tesão” , caímos das nuvens. Como era possível que as mulheres tivessem uma coisa dessas? Andaríamos a ser enganados pelo professor de Ciências Naturais? Ou seria um coisa só das raparigas de Lisboa? Estávamos incrédulos. Como era possível uma mulher ter “aquilo” e ainda por cima gabar-se diante das amigas?
A partir desse dia a minha forma de olhar para as mulheres mudou radicalmente. O meu percurso de vida fez o resto, mas aquela foi uma data marcante, porque me fez pensar sobre o que ouvira e chegar à conclusão que entre homens e mulheres havia mais semelhanças do que diferenças. As mulheres poderiam ser aquilo que elas quisessem, se lhes fossem dadas as mesmas oportunidades e se libertassem do casulo de uma educação castradora que as queria condenar a tornarem-se dóceis donas de casa, fiéis aos maridos e assistindo, resignadas, às traições dos seus consortes.
Percebi, nesse dia, que a orientação das leituras infantis (com colecções denominadas “ Biblioteca dos Rapazes” e “Biblioteca das Raparigas”), os brinquedos diferenciados “p´ró menino e p´rá menina”, as brincadeiras “próprias de raparigas”, ou o rosa interdito aos rapazes, eram códigos de mentiras que apenas pretendiam manter o domínio do homem sobre as mulheres.
Só por isso, acho que valeu a pena aquele momento de pura canalhice juvenil!
( Post publicado em 5 de Agosto de 2008)

17 comentários:

  1. Goatei de ler! Porque está bem escrito, porque é uma lição para os aprendizes de machões que ainda por aí andam, e porque sim:)))
    Abraço

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  2. Carlos

    Por alguma falta (ou capacidade de gestão) de tempo, não consigo acompanhar tanto, como gostava o CR.
    Sempre que o faço há uma agradável surpresa.
    Abraço

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  3. Sou dessa geração mas felizmente que não fui educada assim, talvez por não ter origens tão burguesas...:-))

    Abraço

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  4. Vou só comentar o que está entre parêntesis no título), uma vez que o texto já o conhecia: Então as pessoas sensíveis não podem ser adultas?;)

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  5. Hhahaha...quantas coisas que os meninos não sabem...rss...eu cresci no meio de meninos, daí que acho que nunca tive muitos pudores em abordar qualquer tema.

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  6. Adorei este post loool.. Tive canalhices juvenis identicas
    à tua, e piores também lool..

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  7. Excelente, meu caro Carlos.
    Hoje, há 2 anos, ha 20 ou 30, está e estaria rigorosamente fiel à época.
    Como as coisas eram e como nós as julgávamos !
    Como eu me identifico com tudo isso !!!...
    .

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  8. Ai, Jesus! Não sabia que os
    machistas cheiravam a cavalo!!!

    Será que essa lisboeta ficava com desejos sexuais quando via o Salazar??? Boa piada! No nosso tempo é o Brad Pitt.

    Todos os homens são machistas e impertinente, mesmo sem cheirar a cavalo. Nós, mulheres, é que temos de os educar, ensinando-lhes o caminho a seguir numa relação sem grandes problemas.
    Não é só a sociedade responsável pelo machismo dos homens; as principais culpadas são as mamãs de tais indivíduos... e eu sei de que estou a falar!!!

    Saudação de um Düsseldorf a arder...

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  9. Acho que este País saía da crise se fosse entregue a sua gestão a mulheres.
    Mas nada de confusões, estou a falar de Mulheres, não de "Tias" lol lol lol

    Bjos

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  10. Eu era moça nessa altura e aprendi a ser "doméstica", esposa, mãe e também "amante", para além disso foi-me dada a possibilidade de tirar um curso superior, não me fez mal nenhum, hoje sinto-me uma mulher completa.
    Felizmente os homens da minha família sempre trataram as mulheres em pé de igualdade ...

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  11. Há "canalhices" juvenis que vêm por bem, para abrir os olhos a um futuro machista empedernido, que se salvou a tempo de o ser... :)

    E sim, concordo absolutamente com a Teresa, muita da educação machista dada aos rapazes é culpa das mãezinhas deles, que já que se sacrificaram nessa tal submissão conjugal não aceitam que as mulheres deles (as noras), não se sacrifiquem também...

    Gostei muito deste texto!

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  12. Concordo em absoluto com o texto, Na minha geração, eramos os machões, os mandões e as mulheres, parideiras ou meros objectos decorativos, por norma, eram as servidoras do Homem. Ainda há bem pouco tempo as mulheres eram consideradas isso mesmo. Igualdade, igualdade.......mas cada um em seu sítio, nada de misturas.
    Bfs

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  13. Excelência, Carlos, excelência.
    Fui educado num colégio de Jesuítas.
    Nos dois primeiros anos, o colégio era um colégio exclusivamente masculino.
    Entretanto, um colégio feminino ali perto, fechou.
    Ao terceiro ano, o meu colégio deixou de funcionar em regime de internato e semi-internato e passou a ter alunos dos dois sexos.
    As freiras que vieram do outro colégio eram completamente retrógradas.
    Felizmente, os Jesuítas (alguns deles) tinham uma cabeça arejada.
    Curiosamente, ou talvez não...., esses a que me refiro, abandonaram o sacerdócio.
    Como tal, desde muito novo tive a sorte e a felicidade de contar entre as minhas amizades com igual número de mulheres e de homens.
    Tendência que se acentuou na Universidade.
    Quando vim para Macau, fiquei a viver com duas primas, que considero duas irmãs.
    Entretanto, conheci a minha mulher, nasceram as minhas flhas.
    Como dizia a minha antiga chefe - "você é um sortudo - saíu do colo da mãe e da avó, para o colo das primas; depois para o colo da esposa e das filhas".
    No local de trabalho, éramos dois homens e seis raparigas.
    Foi esse "detalhe" que fiz notar a essa chefe.
    Como tal, a minha relação com as mulheres é a melhor e a mais saudável possível.
    Porque, como dizia a Filomena (era a tal chefe), eu sou um sortudo!!

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  14. E que grandes conversas aconteceram quando deste post, Carlos!

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  15. Ainda na sexta, falei sobre isto com amigas minhas. Os homens sabem lá de que falamos e o que pensamos. Somos uma caixinha de surpresas :)

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