Terça-feira, 20 de Julho de 2010

Aprender com o exemplo irlandês


Antes da crise, Paulo Portas passava a vida a citar a Irlanda como um exemplo a seguir. Quando a crise atingiu os irlandeses, o país foi prudentemente retirado do mapa das citações da direita portuguesa.
Passaram-se uns meses até Portugal começar a apertar o cinto, por força de um PEC com efeitos dietéticos mais céleres e eficazes do que qualquer dieta de emagrecimento. Descontentes com as exigências impostas aos trabalhadores, a direita – onde agora se inclui o antigo Partido Social Democrata que Manuela Ferreira Leite desacreditou e Pedro Passos Coelho está empenhado em conseguir fazer ultrapassar o CDS pela direita– voltou a apontar a Irlanda como exemplo a propósito da redução dos salários dos funcionários públicos. Vozes entusiasmadas reclamavam do governo que seguisse o exemplo da Irlanda cortando os salários dos funcionários do Estado, para reduzir a despesa, acalmar os mercados e as agências de rating.
Ontem , a Moody’s “recompensou” os esforços dos irlandeses , reduzindo-lhes o rating. De nada valeram os cortes salariais, o aumento dos impostos ou as medidas de austeridade adoptadas pelo governo irlandês, apontado como pioneiro no combate à crise e exemplo a seguir pela entusiasmada direita europeia. Bastou uma agência de rating declarar que não confia na recuperação do país, para os irlandeses perceberem que de nada valeram os seus sacrifícios.
Portugal parece estar longe de uma crise tão profunda como a da Irlanda, da Grécia, ou mesmo da Espanha. O governo – apesar das medidas de austeridade impostas- tem feito ouvidos de mercador aos apelos mais drásticos da direita ultra-liberal que quer pôr os portugueses a pão e água, destruir o Estado Social, desmantelar o Serviço Nacional de Saúde, liberalizar os despedimentos, rasgar a Constituição e fazer o país regredir 30 anos.
Muitos portugueses – compreensivelmente- estão saturados de Sócrates e dispostos a dar uma oportunidade a Passos Coelho, na expectativa de que as suas propostas contribuam para os tirar da crise.É bom, no entanto, que antes de o fazerem, pensem- AGORA SIM! no exemplo da Irlanda. Os sacrifícios pedidos aos irlandeses resultaram em nada ( ou talvez na exigência de mais sacrifícios…) e a escolha de PPC para liderar o país pode significar apenas a passagem de um cheque em branco a alguém que não tem outra ideia para o país, que não seja recompensar o mercado que o conduziu ao Poder.
O dandy da Porcalhota é um mero boneco nas mãos dos mercados. Comporta-se como um autómato obediente, seguindo as directrizes dos patrões da alta finança. Ou seja, daqueles que não conhecem a crise, porque basta-lhes despedir 50 trabalhadores para comprar um Porsche, mais 15 para adquirir jóias e vestidos de alta costura para as mulheres, ou encerrar uma fábrica e colocar o dinheiro a bom recato num “off shore”.
Era bom que os portugueses pensassem um bocadinho antes de entregarem o destino do país a um homem cuja única ideologia é o favorecimento do grande capital. E, para começar, o ideal seria que negassem o seu voto a Cavaco Silva nas presidenciais que se avizinham. A eleição de Manuel Alegre seria um rude golpe nas expectativas desta direita que nos caiu em sorte. Sem um PR que a apaparique, a direita não afiará tanto os dentes.
Já agora, Sócrates podia dar uma ajuda. Saindo discretamente de cena e ajudando a criar condições para que uma figura credível dentro do PS, sem ligações à actual estrutura dirigente, vá a votos nas eleições de Outono de 2011.

7 comentários:

  1. Concordo contigo....há que pensar e bem...porque verdadeiras soluções ninguém ainda as apresentou.
    O que eu vejo é um filme "dejá vu".

    Mas eu acho que quem deveria sair de cena era o Manuel Alegre....porque ele na presidência.....nem quero pensar!!!!!

    Beijokitas

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  2. Muito, muito off-topic: obrigada pela visita e pelo comentário, gostei muito! Volte sempre que quiser, a casa é nossa e borboletas adoram cores e sons e vistias e risos ...

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  3. Por acaso Carlos, este é um tema que a mim, me preocupa bastante. Aguardo com expectativa as futuras eleições enquanto vou tendo conhecimento das medidas que se pretendem tomar... É que eles nem sequer se escondem, portanto, devia ser claro o caminho de quem exerce o direito de voto... Ainda assim temo que não o venha a ser! Reforço (copiando para salientar) este seu excerto do texto, do qual comungo totalmente, sendo que para mim, esta é que é a questão!

    "O governo – apesar das medidas de austeridade impostas- tem feito ouvidos de mercador aos apelos mais drásticos da direita ultra-liberal que quer pôr os portugueses a pão e água, destruir o Estado Social, desmantelar o Serviço Nacional de Saúde, liberalizar os despedimentos, rasgar a Constituição e fazer o país regredir 30 anos".

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  4. Quanto a estas Agências, de manhã bem cedo, lançam os dados e vêem qual o país que vão tramar, a seguir mandam umas cartas ao ar para ver qual o ranking a atribuir e a seguir os funcionários preenchem o formulário para receber o respectivo bónus no final do mês, pelo esforço extra das horas extraordinárias. ;)))

    Outro assunto, fiz o post com o Postalinho que pediu no seu Passatempo.
    Bjos

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  5. Não podia estar mais de acordo! E não consigo ver nada de prometedor no PPC. Mas a verdade é que também não me apetece votar no Sócrates! E agora, votar em quem? Costumo votar nas vozes contra, para terem lugar na AR, e não ser aquela carneirada do costume. Mas para PM também não me parecem grandes escolhas...

    Ai, ai!

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  6. Jovens janízaros ( da Escola de Chicago )

    Os jovens janízaros que tomaram conta do PSD estão prestes a alterar a matriz social-democrata do partido e a criar uma formação que nada tem a ver com a origem. Pois bem, para além da confusão que se está a instalar nas bases do partido, constituído basicamente por pessoas que ao longo dos anos se habituou a ver o partido lutar pela melhoria das suas condições de vida, nomeadamente na saúde, na escola e nas reformas, vê agora o partido a ser elogiado pelos patrões, que vêem no horizonte a possibilidade de despedir sem limite nem escrúpulo.
    Não sei como se pode ser tão politicamente néscio em tão pouco tempo !
    .

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  7. O Carlos tem razão, mas Sócrates não tem qualquer rasgo de humildade e perante isso vamos ter que gramar com o Passos Coelho.
    Temos que perguntar ao polvo? ou será que esse só tem capacidades para prever o futuro desportivo?
    Ouvi dizer que PC se quer encontrar com ele e Sócrates não lhe fica atrás...

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