terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia da Criança

Hoje é Dia da Criança. Há 51 anos os Direitos das Crianças foram transcritos para o papel, mas continuam por cumprir. Assim sendo, também não vejo inconveniente nenhum em recordar aqui uma crónica que escrevi e publiquei em 1998. Porque, infelizmente, continuam a existir muitas Lauras.


Aos cinco anos, Laura conheceu pela primeira vez o significado da palavra "desemprego".
Com apenas dois anos, os pais alugavam-na diariamente a uma vizinha que a utilizava como chamariz para pedir esmola junto de pessoas condoídas."Beliscava-me para eu chorar e às vezes batia-me até ficar negra, para que as pessoas sentissem pena"- explica sem grande ressentimento.
Um dia, três anos mais tarde, Laura foi devolvida aos seus progenitores por alegadamente estar excessivamente pesada e já não despertar "sentimentos de caridade".No dia em que deixou de ser "menina de aluguer", Laura foi sovada com chicote pelo pai que a acusava de comer demasiados doces que os clientes de uma pastelaria das Avenidas Novas frequentemente lhe ofereciam.Meses mais tarde, carregando com a culpa de "não servir para nada e ter sido despedida", Laura entrou para uma escola primária na zona do Lumiar. Desses tempos, recorda uma professora bondosa e de olhar sereno que constantemente a acarinhava e incitava a estudar "para ser uma grande mulher", mas o sentimento de culpa não a largava e Laura, mal terminadas as aulas, ia expiar as suas culpas vendendo "pensos rápidos" aos automobilistas que passavam na zona do Campo Grande.
Laura repartia o seu tempo entre as filas de trânsito e a escola. E assim foi crescendo, alheia ao mundo que a rodeava, emoldurado de crianças iguais a ela, brincando com "Barbies", sem direito ao sonho de um dia casar de grinalda e flor de laranjeira com o "Ken" do conto de fadas da sua imaginação.
"Menina de aluguer" nasceu... também assim cresceu!A Laura que hoje está diante de mim, sentada à mesa de um "bar americano", tem 19 anos e uma filha de apenas dois, para quem reserva os melhores momentos. No ecrã de uma televisão distante, desfilam figuras de telenovela às quais não se pode equiparar, mas que nela despertam as recordações dos tempos em que o pai e um tio a perseguiam à compita, atraídos pelo despertar de um corpo "de cobiça".
Por trás de um verde olhar mesclado de tristeza, esconde-se ainda uma esperança no futuro com que sonhou no dia em que, incapaz de suportar as disputas familiares e já apaixonada pelo Marco, a ele se entregou , em troca de promessas de "Liberdade". Foi esse o dia da partida (tinha então apenas16 anos) para um destino incerto que "quis o acaso" a conduziu ao mesmo bar onde hoje, em troca de uma garrafa de espumante, me conta a sua ainda curta vida. Vida povoada de sonhos, onde cabe ainda a força para terminar o 11º ano e arrostar com as dificuldades de uma licenciatura como assistente social "porque não quero mais ver crianças a sofrer como eu sofri".
Dos tempos repartidos entre o Campo Grande e a escola, passou a tempos divididos entre o aconchego a clientes da noite e o prazer de "viajar" na companhia dos livros que a acompanham até ao local de trabalho. "Sabe, a vida da noite não está fácil e muitas vezes, como não há clientes, aproveito o tempo para estudar ou para ler".
O patrão, caso raro, também se mostra compreensivo . Perante a força indómita de Laura e a sua "fúria de aprender", quando a noite "está mais fraca" lá a manda para casa, para os braços do seu Marco,onde desfruta de alguns momentos de ternura partilhados com Daniela, a filha de um momento de liberdade.

8 comentários:

  1. Um bom dia da criança paar si, caro CBO.
    Sim,era bom que fosse fácil em adulyto mantermos algumas caracteristicas de crianças.

    Aproveito para o informar que o projecto Vila Forte acaba hoje, e que infelizmente tenho tido menos tempo paar visitar e principalmente comentar os meus vizinhos.
    Muito agradecido pelas visias e comentários que fez ao longo do tempo no VF.
    abraço

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  2. Uma reportagem dura, crua.
    É impensável acreditar que se passem situações destas, perto, bem perto.

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  3. Arrepiante Carlos.
    Infelizmente muito real.

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  4. Bom dia, Carlos

    Quantas Lauras andam pelas noites dos bares do mundo, ainda sonhadoras, mas imensamente tristes... Há pessoa que parecem terem nascido marcadas pela vida.
    Espero que essa Laura, em particular, tenha conseguido realizar seu sonho de aprender, de um melhor viver...

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  5. Meu amigo,
    Nada que eu possa escrever aqui transmite o que sinto ao ler este seu texto.
    Porque sei que cada vez há mais Lauras, mais meninas que não sabem o que é ser criança.
    O meu coração está sempre com elas, mas hoje principalmente é nas crianças que sofrem que penso também.
    Um abraço comovido

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  6. Essa história é terrível e, apesar de tudo, contém esperança, porque a Laura é uma mulher cheia de força. Onde estão os que a violentaram? O que foi feito para impedir essas situações?

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  7. Pedro: Como já escrevi no Vilaforte, vou sentir a vossa falta. Esero voltar a encontrar-vos por aí.
    Forte abraço

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  8. Gostei da crónica, como escrita de uma vivência e admiro a coragem dessa Laura.

    Mesmo assim, estas histórias já não deviam acontecer num mundo dito civilizado, pois não?

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