Faz hoje 40 anos que celebrei pela primeira vez o 1º de Maio. Terminei os festejos subindo em corrida desenfreada a rua do Alecrim, perseguido pela polícia. Uma simpática velhinha, vendo-me a sair os bofes pela boca, condoeu-se e abriu-me uma porta milagrosa por onde escapei sem mais problemas. Ficámos à conversa até quase ao anoitecer , quando deixei de ver as “ Creme Nívea” ( nome dado às singulares carrinhas da polícia, azuis e brancas da época) nas redondezas e senti que podia regressar a casa sem problemas.
Reconfortado com um chá, acompanhado de deliciosos biscoitos de Maizena feitos pela simpática anfitriã de ocasião, cujo sabor o meu palato hoje parece recordar, acabei de subir a rua do Alecrim. Quando cheguei ao Chiado encontrei dois amigos que tinham ido comigo ao esboço de manif que era possível fazer durante o Estado Novo. Acabámos a noite na Portugália a contar as peripécias vividas por cada um, perante o testemunho de alguns “finos” e o então celebrizado bife à Portugália.
Em 1974, apesar de estar a cumprir serviço militar em Mafra, foi dada autorização de saída aos recrutas e assim pude celebrar o primeiro 1º de Maio em Liberdade. Só quem viveu esse dia na rua sentirá o mesmo que, neste momento em que escrevo, estou a sentir.
Lembro-me daquela multidão imensa que trocava beijos e abraços, dos rostos vertendo lágrimas de alegria, de gente que não se conhecia de lado nenhum mas que, marcada por um passado comum, parecia ter um longo historial de fraternidade.
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi um dos dias mais inebriantes que se me ofereceu viver em toda a vida e jamais o esquecerei.
Hoje, subirei uma vez mais a Almirante Reis no meio de uma multidão anónima tão revoltada como eu, mas que perdeu a vontade de se abraçar e em cujos rostos rolarão lágrimas de revolta , sucedâneas das lágrimas de alegria daquele maio de 74. Nãodeixarei de lamentar que, à mesma hora, outros cidadãos portugueses, com a mesma revolta, as mesmas queixas, as mesmas desilusões, estejam a descer a Avenida da Liberdade, em vez de se juntarem na mesma luta.
Não sou comunista, por isso estou à vontade para dizer que não compreendo esta divisão dos trabalhadores, num momento em que, mais do que nunca, deveriam estar unidos na mesma luta. Mas adiante…
Há 36 anos os problemas não eram muito diversos dos que se vivem agora. A Europa estava mergulhada numa profunda crise energética, multiplicavam-se as greves com maquinistas, gasolineiros, transportes e mineiros a liderarem a contestação. Os países industrializados estavam à beira de um ataque de nervos e a energia nuclear era apontada como solução salvadora, para desespero dos ambientalistas. Falava-se em crise financeira e económica, provocada pela subida do preço do petróleo, que começara em 73. Só em Portugal havia festa. A Liberdade festejava-se na rua ao som de “Grândola Vila Morena” e as salas de cinema enchiam-se para ver “ O Último Tango em Paris”.


Wow deve ter sido ... uma emoção e pêras. Então bom 1º de maio e muitos caracóis :P
ResponderEliminarLembro-me bem desse primeiro 1.º de Maio. O mundo não é o mesmo, e nós também não. Ainda bem que vivemos esse momento.
ResponderEliminarBjs
Emocionou-me o teu post, Carlos. Eu estava ali, naquela foto de há 36 anos, com o meu filho de 5 anos pela mão e o coração cheio de sonhos. Hoje, subiremos a Almirante Reis com o coração cheio de raiva, mas com a força de sempre!
ResponderEliminarUm abraço
Tenho a felicidade de ter uns pais que sempre me envolveram nas suas vidas. Na época em que nasci era costume as crianças ficarem em casa dos avós ou outros familiares, enquanto os pais iam a festas, de férias...
ResponderEliminareu não, onde eles estavam, eu estava, nem que a meio da noite, tivesse de ser feita uma cama com duas cadeiras (a conteceu muitas vezes).
E isto para dizer que, apesar de ser muito pequena, ne lembro do que eu chamo 'primeiro 1º de Maio' como se fosse hoje.
E se na época não percebi muitas coisas, sei que o que senti naquele dia, foi que todos eram conhecidos e amigos uns dos outros...
bom, miuito bom...nunca hei-de esquecer o fim de tarde em frente à câmara do Porto...
Tenha un bom 1º de MAio, Carlos
Tamém tentei transmitir a maravilha que foi o 1º de Maio em 1974!
ResponderEliminarCompreendo perfeitamente o que sente ao escrver sobre essa data.
Um abraço faterno.
Sei que estou nesta multidão.
ResponderEliminarBom 1º de Maio
Abraço
Não estareí presente, por impossibilidade de questões pessoais, mas a minha solidariedade e extrema tristeza por ir vendo que os "cravos" há já muito morreram, não tem tamanho. Não entendo como foi possivel cuspir tão forte no próprio prato, não entendo as divisões, nem entendo como é que o povo se tem deixado enfraquecer e ludibriar esquecendo os próprios interesses! É o que acontece quando não sabemos defender o nosso espaço, é o que acontece na mesquinhez, na ignorancia, e muitas vezes na inveja de quem ganha a vida como nós... Aos outros, àqueles que para mim, tão astutamente têm sabido vencer e ganhar cada vez mais poder e terreno, porque pura e simplesmente estão solida e discretamente unidos, tenho que dar os parabéns porque vencer uma batalha tão clara, é obra! Bem me dizia a minha mãe, que isto um dia voltava atrás...
ResponderEliminarComo eu adoro ler as suas crónicas: uma pessoa vive todos esses momentos como se também lá estivesse.
ResponderEliminarVários carros de polícia foram hoje incendiados em cidades alemãs durante a habitual demonstração no Dia do Trabalhador.
Em Berlim ainda nada aconteceu, apesar que aí, o confronto entre os demonstrantes e a polícia costuma ser muitíssimo violento.
Um dia destes vou contar as minhas experiências em Bruxelas e em Berlim no "ematejoca azul", SÓ espero que o Carlos não me acuse de PLÁGIO!!!
Abraço solidário!
PS: O que é que tem a ver o filme "O último Tango em Paris" com o Dia do Trabalhador???!!!
Olá Carlos,
ResponderEliminarGostei bastante da forma como escreveu sobre o antes e o agora, eu sinto exactamente o mesmo. Conheço a revolta e os «creme nivea», a alegria emocionada de 74 e sinto a frustração a que chegamos!
Um grande abraço,
Manuela
Caro Carlos Barbosa
ResponderEliminarDepois de ler o seu post, só me apetece dizer. abençoada blogosfera!
Identifico-me e revejo-me plenamente no seu texto.
Abraço e viva o 1º de Maio
Carlos,
ResponderEliminarCruzámo-nos. Porém, cegos de esperaça, não nos vimos!
(mais um abraço adiado...)
Quanto a divisões, deixe lá...Chegará o dia em que, de tanta gente, não haverá rua ou avenida que destínga quem é quem. Gritaremos a uma só vóz...
No 1º de maio de 1974 fui proibida de sair à rua por causa dos comunistas e dos comícios.kis :) coisas e mentalidades antigas:(
ResponderEliminarOlá Carlos,
ResponderEliminarAlmocei com os meus pais e perguntei ao meu pai se tinha estado nestas maifestações de 1970.
'Claro,!'-respondeu, ao que a minha mae acrescentou: 'Tinhas dúvidas?!'.
E só estou aqui a comentar novamente para relatar uma coisa muito engraçada:
'Os polícias, nos nívea andavam a tentar dispersar os manifestantes e então faziam travagens bruscas e peões com os carros. Como os carros tinham aquele trabalhar esquisito, largavam uns sons parecidos com tiros. No meio disto que fugia eram os polícias que andavam a pé porque pensavam que eram tiros ds manifestantes!
Diz o meu pai que se fartaram de gozar com a situação.
A cara de medo dos polícias... coitados estavam a trabalhar, mas eram tão ingénuos...
Pronto, fica aqui uma parte engraçada desses tempos...
Bom Domingo