domingo, 11 de abril de 2010

Um post um pouco exdrúxulo

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua,silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou an insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial,e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos,carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor,subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-seaproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo dos ujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto,comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pelaj anela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
*Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.
( enviada por e-mail)

12 comentários:

  1. Uma pequena maravilha que ainda faz mais sentido, por ter sido feita para uma cadeira de Gramática.

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  2. Bom dia Carlos,
    Fico contente se sou a primeira pessoa a comentar porque ontem respondi a uma visita sua ao meu blog, com a promessa duma visita aqui, ao fim do dia. Acenteceu, porém, que estive ocupada até às 03h:30m da manhã e, portanto, foi-me impossível.
    Este texto é louvável, quanto mais não fosse porque reflecte um bom conhecimento de gramática, da parte do seu autor, o que é muito louvável. Se juntarmos a isso a sua forma de interpretá-la, eu diria que se trata duma ligação um pouco em jeito de Freud e que revela uma imaginação muito rica nesse sentido ...
    Um bom domingo, Carlos, para si e para a sua família.

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  3. Carlos,
    Essa redacção circula agora nos mails.
    Vale sempre a pena ler pois é um verdadeiro tratado de...gramática!
    Beijo

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  4. O exercício não deixa de ser interessante, não senhor.

    Se me der o gosto de ir conhecer Barcelona, agradeço.

    Um bom domingo.

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  5. O meu filho estuda no porto mandou-me esse post, dizendo-me "pai se queres saber o que é escrever, é isto".
    Estou como diz é um pouco exdrúxulo|

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  6. Já conhecia e acho-o um espanto...
    Abracinho

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  7. Ainda bem que me proporcionaste a sua leitura de novo.

    Quando se escreve bem nunca nos cansamos de ler o mesmo texto.

    Fiquei feliz por saber que a aluna foi premiada e nem outra coisa seria de esperar.

    Obrigada

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  8. Concordo absolutamente com a Isa, quando diz que este texto é uma pequena maravilha, que dava uma
    fantástica curta-metragem.
    Eu seria a realizadora, convidando o Carlos para interpretar o substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida.
    A interprete do artigo feminino, singular: novinha, ingénua e ainda vírgula - é que seria quase impossível de encontrar.
    Como sou claramente por uma mesóclise-a-trois, modificava o fim da história, não deixando o substantivo masculino atirar o verbo auxiliar pela janela fora. Um verbo auxiliar faz sempre muito geito, e ser um artigo indefinido não é vergonha nenhuma... e nem sempre é oportuno ser fiel à língua portuguesa.
    Saudação coordenativa conclusiva de Düsseldorf!

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  9. Excelente conhecimento gramatical, imensa imaginação, e sem duvida o dom da escrita... Tudo aliado e deu-lhe um prémio. È disto que são feitos os "génios".

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