sexta-feira, 23 de abril de 2010

Direito ao silêncio


Sendo Rui Pedro Soares arguido no processo TVI, creio ter todo o direito de não prestar declarações na Comissão de Inquérito da AR. Deveria, porém, em minha opinião, ter tido outro procedimento, apresentando a justificação para o seu silêncio na sequência das perguntas que lhe iam sendo formuladas e abstendo-se de fazer aquela declaração prévia.
Recuso-me, pois, a engrossar o coro de vozes das virgens ofendidas que se mostram muito indignadas com o silêncio de Rui Pedro Soares e se apressam a tirar conclusões. Gostaria de ter ouvido essas mesmas vozes indignarem-se quando Oliveira e Costa- principal arguido do caso BPN- apresentou os mesmos argumentos para não falar perante a comissão de inquérito criada para analisar o caso. E gostaria também de perceber a razão que levou os deputados a acatarem o silêncio do patrão do BPN, não lhe fazendo quaisquer perguntas, nem ameaças. Comeram e calaram.
Tenho, porém, as minhas suspeitas e são elas que realmente me preocupam, porque me levam a acreditar que os deputados se curvam perante o capital, mas adoram arranjar casos políticos para se entreterem a brincar aos polícias e ladrões.
Indigna-me, outrossim, a postura de alguns deputados da Nação, nomeadamente João Semedo ( BE) e Pedro Duarte (PSD). O deputado bloquista tinha obrigação de ser mais comedido nas conclusões que tirou do silêncio de RPS e Pedro Duarte devia evitar o ridículo, ao transmitir o desejo do PSD em chamar a depor na comissão o procurador Marques Vidal, titular do processo Face Oculta. Os deputados têm de perceber que uma comissão de inquérito não é um tribunal, os deputados não são juízes nem polícias e que é perigoso misturar justiça com política. Estar a pagar com os meus impostos a gente que não sabe desempenhar as suas funções, desconhece os limites da sua intervenção e baixa a grimpa quando os senhores do capital os afrontam, é uma coisa que me encanita.

4 comentários:

  1. Carlos, junto a minha à sua indignação e acrescento-lhe a minha inquieta dúvida de se as instituições estão mesmo a funcionar. Será que uma Comissão de Inquérito tem poderes que competem à justiça? Ou será que o Poder Legislativo não confia no Poder Judicial?
    Em cima destas duvidas, a percepção de se estar a levar para um inquérito objectivos de visibilidade partidária, ou mesmo eleitorais, que nada tem a ver com o controlo que a Assembleia deve ter sobre o Executivo. Isto está a tornar-se confuso e, pior, a gerar uma descrença popular que não sei onde irá parar...

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  2. Carlos, parto do principio, que RPS está bem aconselhado, para fazer o que fez. Presume-se que há algo na lei que lhe confere esse direito. Apesar de um certo ar atabalhoado que aparenta, não creio que seja tolo ao ponto de não saber o que está a fazer. Portanto também me causa alguma inquietação que haja tanto espanto por parte dos membros da comissão. Estão famintos de vingança, de raiva, que a todo o custo querem a pele do 1º Ministro.
    E custa. Em tempo perdido, recursos, outras tarefas que não são feitas, fora o que não se sabe.
    Li algures que a guerra entre partidos é o que está a levar o país ao fundo. Não tenho dúvidas.

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  3. Completamente de acordo com a sua reflexão, meu caro Carlos.
    Tenho seguido as audiências da Comissão de Inquérito, como fiz com as da Comissão de Ética. Enjoado, é como fico pelas palavras e postura de alguns deputados, especialmente do PSD e do BE. Os primeiros comandados por essa simulação de político que é Pacheco Pereira. Só me espanta o tempo de antena que os media lhe dão...
    Os segundos (João Semedo)por me fazerem lembrar interrogatórios pidescos (por onde um dia passei...)ou me remeterem para a leitura dos autos de fé da Inquisição. Enfim, os bloquistas parecem querer arvorar-se nos novos cruzados!
    É melhor ficar por aqui.
    Um grande abraço e bom fim-de-semana.
    --
    Grato pelas visitas que me fez enquanto estive internado no hospital.

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  4. Os senhores do capital são os verdadeiros mandantes desta terra: todos os receiam (porque será?) e, pior ainda, muitos bajulam-nos muito para além do ridículo...

    Lambebotice nacional, é o que é!

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