sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cidades da minha vida (5)

Malaca
É impressionante como , em apenas 60 anos de permanência em Malaca e tendo saído de lá há quase cinco séculos, os portugueses deixaram lá tão bem vincados alguns traços da nossa cultura. Ver malaios a dançar o “vira” , ou ouvir cantar o fado na Praça Lisboa ( Medan Portugis), enquanto se mastiga um arremedo de Bacalhau à Brás é algo que nunca se esquece. A azulejaria e as casas com a Nossa Senhora de Fátima à porta são outra marca surpreendente.De Malaca podia falar-vos de muitas coisas. Desde o bairro português à China Town, passando pela réplica portuguesa de uma caravela que ali se afundou no século XVI, que alberga o museu marítimo, ou dos “riquexós” puxados por bois. Optei por vos descrever um episódio que revela a simpatia e hospitalidade dos malaios que ainda sentem Portugal como o país das suas raízes.
Ia a entrar num museu com uma amiga, quando reparei que o porteiro procurava escutar atentamente o que dizíamos. Já tínhamos passado por ele, quando sinto tocar no ombro e perguntar num linguarejar estranho se éramos portugueses.Quando lhe respondemos que sim, esforçou-se por se fazer entender. Numa mescla de português, inglês e malaio lá ficámos a perceber que era descendente de macaenses e casado com uma malaia de remota ascensão portuguesa. Abreviando… A medo convidou-nos para jantar em sua casa, porque gostava que conhecêssemos a família Sem hesitar respondemos que sim. À hora marcada encontramo-nos `porta do museu e lá fomos até casa do Manoel. No interior, a decoração tinha traços inequívocos de terras lusas, onde não faltavam umas rendas bordadas a lembrar Viana do Castelo. Reparei numa gramática portuguesa e num livro da terceira classe e perguntei à filha, que falava fluentemente inglês, a razão da presença daqueles livros. Foi então que fiquei a saber que, tal como outras famílias a viver no bairro português, tinham pedido á embaixada portuguesa em Kuala Lumpur livros e um professor para aprenderem português. Couberam-lhes aqueles dois exemplares. Quanto ao professor de português esperara e desesperaram. Diziam algumas palavras , sendo que a miúda, de 17 anos, era a única que conseguia dizer umas frases completas.


No final do jantar, como forma de reconhecimento pela nossa presença, cantou um fado. Não sou capaz de vos descrever a emoção que senti naquele dia e ainda agora, ao descrever este episódio, senti os pêlos todos do meu corpo a eriçarem-se. Como é possível Portugal ignorar estes resistentes da cultura portuguesa no Mundo? Talvez vos fale disso, quando aqui trouxer uma imagem de Goa.

9 comentários:

  1. Há uns anos atrás estive para ir a Malaca. Ia estar lá cerca de um mês, em trabalho, mas ia para Malaca. Depois, para tristeza minha, a viagem não se concretizou.

    A propósito da nossa presença no Mundo, aqui há dias, no FAcebook um senhor de Singapura perguntou-me de onde era. Respond~-lhe que de Portugal e se sabia onde era?
    REsponde:'Of course'... e foi mais longe quando no chat me relatou as viagens dod Portuguese por aquelas bandas e que na escola estudavam isso.
    Rematou dizendo que Portugal era uma grande nação.

    Definitivamente, e como ouvi há dias de um membro do governo disse: 'Só em Portugal é que se diz mal do país'

    Bom FDS

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  2. É verdade, a língua portuguesa é o nosso maior património, que nós deixamos ao Deus dará. O Instituto Cervantes não faz o mesmo com o castelhano, deviamos aprender alguma coisa.

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  3. São esses "pequenos grandes nadas" que ajudam a tornar uma viagem fascinante.
    Abracinho

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  4. Gostei de ter conhecido Malaca embora não tivesse gostado particularmente da cidade.
    1 abraço

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  5. Juntamos a nossa voz a sua mensagem. A nossa cidade onde deixamos o nosso coração levou-nos a criar a Associação Cultural Coração em Malaca " Korsang di Melaka" . Nela decorre o nosso Projecto POVOS CRUZADOS : FUTUROS POSSÍVEIS, desde Setembro de 2009 . É com alegria que informamos que chega a Portugal a 10 de Maio, para uma visita o grande Líder de Dança Folclórica de São Pedro Senhor Manuel Bosco Lázaro. Bem haja. Um abraço da Direcção Korsang di Melaka.

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  6. E Portugal continua autista, parolo, a ignorar este gente que ama o País, Carlos.
    É triste.

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  7. Como é que poderemos ter esperança de ver mais longe e de valorizar esse sentimento de pertença português? Se os políticos e a política que temos hoje, limita e condiciona quem vive cá em Portugal de forma castradora, quem paga estupidamente a carga de impostos que temos só para poder viver aqui junto dos seus, que não tem visão estratégica alguma, que quer alienar o serviço público de televisão...que impele os portugueses a emigrar...não me estranha que a cultura portuguesa espalhada pelo Mundo esteja tão mal cuidada e a sintam desprezada. Temos um Portugal a definhar e um futuro que não se prevê qual seja se nada mudar entretanto...é de facto triste termos chegado aqui.

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  8. Cara Raquel Mark Blog

    Para tentar mudar não nos podemos resignar a tudo o que não é tolerável e acontece neste país e no mundo onde vivemos. Cabe a cada um de nós, combater a inércia, a indiferença e o desconhecimento. fatores que conduzem ao triste cenário de ignorância de um povo simples, humilde, trabalhador e bom. São muitas décadas acumuladas nas quais nunca existiu vontade de esclarecer e ensinar a pensar.
    Hoje mais acentuada a descriminação com a evolução dos meios de comunicação, utilizados para denegrir, confundir e entreter as pessoas que não contam, para quem se aproveita para viver faustosamente, sem sacrificios, sem dispensar seja o que for que lese uma faustosa vida ainda que o país(o povo) esteja a passar dificuldades primárias, em nome duma divida que cabe aos mais sofredores pagar. Em nome de quem a divida tem que ser paga em curto espaço de tempo?
    Se os grandes senhores levaram décadas a contrair a dívida e continuam sem dó a piorar as condições de vida de quem pela frente resta pouco tempo para viver.

    A sua tristeza é a minha daí que acrescento a minha contestação, indignação e revolta.
    Estou viva e orgulhosa de Portugal no mundo.

    Um abraço fraterno da Associação Cultural Coração em Malaca

    Luisa Timóteo


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