sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cidades da minha vida (10)

Bonifacio (Córsega)

Aviso: Este post pode ferir a suceptibilidade de alguns leitores. Entendam, por este aviso, a colocação de uma bolinha vermelha no canto superior direito. A bolinha vermelha não está lá? Pois não... mas também nem todas as peripécias desta história estão descritas neste post, cuja extensão é um desafio à vossa imaginação e capacidade de resistência.

Tinha terminado o Festival de Cannes e o meu objectivo era seguir em direcção a Itália. Meti-me ao caminho num dia maravilhoso e parei em Monte Carlo para almoçar. Por uma daquelas razões que nunca sabemos explicar, enquanto almoçava deu-me um “vipe”. E se fosse até à Corsega?

Viajar de automóvel, sem destino previamente traçado, tem destas vantagens. A qualquer momento podemos alterar os planos. Foi o que fiz. Acabei de almoçar e lá fui eu, de regresso a Nice, para apanhar o barco para Ajaccio. Só arranjei bilhetes para um barco à noite. Quase não dormi. Não tanto pelo desconforto da minúscula “camarata”, mas sim pelo barulho que um grupo de nórdicos bêbados que decidiram investir em álcool o dinheiro dos quartos, fizeram durante toda a noite.

Chegámos a Ajaccio pouco depois das seis da manhã, sob uma chuva miudinha que não me conseguiu tirar a boa disposição. Tomei o pequeno almoço num boteco que estava a abrir e experimentei logo ali a primeira especificidade corsa: preços diferentes para corsos, franceses e turistas. Ora toma! (Espero que os restaurantes madeirenses não aproveitem a ideia).


Em Nice, enquanto esperava pela hora do embarque, aproveitara o tempo para fazer um estudo da ilha e decidi que na primeira noite iria dormir a Bonifacio. Meti-me ao caminho sem visitar Ajaccio, pois teria tempo de o fazer no dia de regresso ao “contenent”.
À medida que ia avançando para sul, a chuva abrandava e o céu tornava-se mais claro, prometendo uma tarde soalheira. Sabia que ao longo dos 10 dias de permanência na Córsega, esta seria a única estrada minimamente decente que iria encontrar. A partir de Bonifácio, as estradas tornar-se-iam cada vez mais estreitas e coleantes, especialmente no norte e depois entre Calvi ( uma belísssima estância balnear a Noroeste) e Ajaccio.
(As estradas da Córsega são, talvez, o único argumento válido para não regressar lá todos os anos. Nem imaginam a quantidade de vezes que, ao longo de 10 dias, vi a morte à minha frente. As estradas são mais estreitas que a Linha do Tua, não têm barreiras de protecção e qualquer descuido pode ser a morte do artista. Olhamos para o lado e temos “visões” psicadélicas ( como se acabássemos de ingerir uma dose de LSD), tendo como ecrã o mar. O problema é quando nos aparece pela frente um autocarro de turismo em contramão - ou um condutor local desmbestado - e desesperadamente procuramos o buraco da agulha. Uff!!!)


Cheguei a Bonifácio a meio da tarde, explorando no caminho pontos que me pareceram de mais interesse. O céu estava completamente limpo e deparei-me com uma paisagem deslumbrante, que uma fotografia é incapaz de reproduzir. Sentei-me numa esplanada encrostada numa escarpa sobre o Mediterrâneo de onde quase podia avistar a Sardenha, onde tinha festejado a entrada do ano . Dei uma volta pela cidade, sempre bordejando o mar, embrenhei-me pelas suas íngremes ruas e vielas e ao final da tarde passei por um hotel onde decidi ficar.
Instalei-me e repousei um pouco . Enquanto tomava um duche, lamentei a minha escolha. Não, não vi baratas, mas comecei a ouvir tão nitidamente o barulho do chuveiro do quarto ao lado e pensei logo na hipótese de uma noite em claro, no caso de algum dos meus vizinhos ressonar durante a noite. Ou então, no caso de se tratar de um casal, aqueles zumbidos que vocês estão a imaginar.
A noite já tinha caído. Quando terminei o duche fui à janela do quarto espreitar o luar. Não havia Lua. Apenas uma fortíssima bátega de água, acompanhada de sucessivos relâmpagos, anunciava uma noite de intempérie. Afinal, o que eu julgara ser o chuveiro do vizinho, era uma forte chuvada. Decidi esperar alguns minutos até que o tempo amainasse. Um relâmpago, seguido de fortíssimo trovão , iluminou o quarto e logo de seguida apagou-se a luz. Dirigi-me à recepção, onde a proprietária do hotel me informou que provavelmente a tempestade iria demorar algumas horas. Como precisava de sair para apaziguar o estômago que começava a ficar impaciente e me avisava que se não lhe satisfizesse o apetite rapidamente, retaliaria, pedi um guarda – chuva de empréstimo.
A “madame”, simpatica, juntou ao guarda-chuva uma lanterna e avisou-me que a devia usar, pois não havia luz na cidade e as ruas , com aquela chuva, ficavam muito perigosas. Reconfortado com aquelas palavras saí feito Diógenes, empunhando a lanterna que me haveria de guiar, por caminho seguro, até um restaurante decente.

Tal como Diógenes, também me senti por momentos escravo do tempo, acossado por um estômago prestes a concretizar as suas ameaças de rebelião. Quando, à terceira tentativa, encontrei um restaurante acolhedor com uma mesa livre, senti-me finalmente liberto e aliviado. Jantei opiparamente à luz de velas. Experimentei pela primeira vez as delícias da culinária corsa, onde uma sopa do mar - precedida de uns escargots gratin- mereceu um lugar de especialíssimo destaque. O ambiente era intimista, especialmente aconselhado para casais. Numa mesa distante, mas impertinentemente colocada no meu campo de visão, estava sentado um casal de lésbicas que se namoriscavam com o ardor de uma paixão recente. Felizmente a minha mesa ficava à janela, de onde podia desfrutar o espectáculo esplendoroso dos relâmpagos ziguezagueando no horizonte, até se esparramarem nas águas, num acto de amor descontrolado. Passei o jantar namoriscando o mar, só de lá tirando os olhos quando o empregado trazia a refeição ou vinha servir o vinho, evitando correr o risco de ser acusado de "voyeur". Nesses instantes não podia evitar que os meus olhos se cruzassem com o casal.
O vinho era bom, mas a conjunção do álcool com o picante da sopa , acelerava o fluxo sanguíneo , caminhando desgovernado pelas entranhas do meu corpo. Rematei a refeição com um “anti-coagulante” e meti-me ao caminho de regresso ao hotel. Continuava a chover copiosamente, como se S. Pedro tivesse decidido aliviar a bexiga, depois de dois milénios de continência. Adormeci rápido e dormi como um justo, indiferente à chuva que continuava a cair.

O dia seguinte amanheceu esplendoroso. O céu estava de um azul límpido mas, olhando o horizonte em direcção à Sardenha , viam-se nuvens ameaçadoras. Tomei o pequeno almoço no hotel e fui dar mais uma volta pela cidade, para me despedir. Ao final da manhã iniciei a volta à ilha.
À saída de Bonifacio duas jovens pediam boleia na berma da estrada. Azar! O meu carro só tem dois lugares… Uma delas acenou à minha passagem e foi então que reconheci o casal da véspera. De imediato me lembrei de uma tia que quando viajava connosco, obrigando-nos a apertar-nos no banco traseiro do “Boca de Sapo” do meu pai sempre dizia:
“Assim coubéssemos no Céu!”.
Travei e fiz marcha atrás. Havia um problema. Onde colocar a bagagem delas? . O problema resolveu-se. Perguntei para onde iam. Sabiam tanto como eu:“ Somewhere my love?” Não. Em Roma sê romano. Da discografia sempre disponível no meu carro saiu o Richard Anthony com "Donne -moi ma chance"
Durante dez dias senti-me a viver no paraíso. Das verdejantes montanhas de Corté às alvuras das praias de Calvi, e dali até à chegada a Porto, num fim de tarde majestático em que a Natureza me brindou com um pôr-do- sol, que apreciei com a reverência de quem é contemplado com uma oferenda dos deuses, a Córsega só me traz boas recordações.
A Bonifácio, porém, há que acrescentar o IVA. Por ter sido a minha primeira paragem na Córsega, mas também porque foi o ponto de partida para umas férias inesquecíveis. Quem também gostou, foi o editor da publicação argentina que me enviou a Cannes. Além de uma reportagem sobre o Festival , recebeu um roteiro sobre a Córsega.






16 comentários:

  1. Além das imagens picantes que não estão no texto e que cada um poderá imaginar, se isso lhe der prazer, adorei o texto e as imagens! Meu Deus, aquelas casas penduradas nas escarpas deram-me vontade de voar imediatamente para a Córsega.
    Que bela profissão que tem. Acho que errei a minha vocação!

    ResponderEliminar
  2. A moda ainda nao pegou, mas eu ja me deparei com ementas (de sandes e bebidas) redigidas em duas linguas, num cafe situado em pleno centro do Funchal, nas quais figuravam diferentes preços em portugues e em ingles.

    ResponderEliminar
  3. Um espanto de cronica!
    (Com ou sem...)
    Um abraço

    ResponderEliminar
  4. Grande estoria.
    Ainda bem que a bolinha vermelha não está lá porque este texto deve ser lido por todos.
    Um abraço e fico à espera da "encomenda". :)

    ResponderEliminar
  5. Começo por concordar com a Teresa: que belo emprego o seu!

    Que belas férias, nunca o fiz mas acho que deve ser fantástico andar de carro sem destino...ao sabor das vontades :)
    Quanto ao "assim coubéssemos no céu"... acho que aplicou a frase de uma maneira deliciosa ainda me estou a rir!!!

    ResponderEliminar
  6. E ficou para a história...
    Valeu a pena!

    ResponderEliminar
  7. Pois, comentári em tudo igual ao da Teresa.
    Carlos, tenho um problema:
    Como é que eu vou a todas estas cidades agora?, com a balburdia do tráfego aéreo?
    Depois destas leituras, fica cá um destes apetites...

    ResponderEliminar
  8. Que bela crónica de umaa viagem inesquecível! Admiro o seu estilo de escrita, pois permite-nos visualizar tudo o que conta. O texto é ainda enriquecido com belas imagens da Córsega, uma ilha maravilhosa.

    Parabéns.

    :)

    ResponderEliminar
  9. Que linda cidade e viagem. Lindoi! E quanto ao comentário: A Pousada do Frances está na minha lista de blogs pois a pousada é de amigos nossos e sou eu a responsável pelo blog,pois eles não tem experiência. É realmente um lindo local e agora os donos são novos. Na tua época era um frances mesmo.

    Mas o lugar é fantástico e vamos sempre lá no verão!abraços,chica

    ResponderEliminar
  10. O destino já era apetecível.
    Depois desta crónica, estou aqui cheio de vontade de fazer as malas, deixar a humidade de Macau e os eternos dias sem sol (já não me lembro do último dia de sol. Dá uma neura!!!) e ir passar uns dias na Córsega.
    Maravilha!!!

    ResponderEliminar
  11. Não, não é para a Córsega, Carlos, será para Amsterdam, se as cinzas islandesas me permitirem ir festejar o aniversário do meu filho com ele...
    Parabéns pela crónica, faz-me ter vontade de ir já a correr para Bonifácio:)))

    ResponderEliminar
  12. Antes de mais, tenho de dizer que adoro ler o seu blogue. De todos os seus textos maravilhosos, os que mais me tocam são as suas aventuras, e que aventuras! Falando no dialecto jovem, e com todo o respeito, o Carlos é um passado! :)
    Continue o bom trabalho e, claro, as aventuras, para espalhar a inveja pelos seus leitores.
    Bom fim-de-semana.

    ResponderEliminar
  13. Que pena faltar a bola vermelha: eu queria saber o que é que o
    "substantivo esdrúxulo" fêz com esses 2 artigos "indefinidos"...

    Este fantástico texto era lido por todos mesmo com um balão vermelho!

    Um abraço da amiga de longe, que acha que o Carlos é um "passado" bem presente.

    ResponderEliminar
  14. Pelas sua fotografias, a Córsega é linda!

    ResponderEliminar
  15. Carlos, gostei imenso desta sua aventura corsa (mesmo se não vejo motivos para bolinha). ;-D
    O Carlos, se ainda o não fez, devia abalançar-se a escrever uns livros de viagens.

    ResponderEliminar
  16. ötima a cronica, Parabéns.
    vou p/ Ajaccio em 08/06/2011.
    Estou c/ dificuldades em tranportes.
    vc. pode me ajudar.
    Saída de Nice Para Ajaccio.
    Te agradeço desde já.
    Saudaçoes Brasileiras.
    blau_50@yahoo.com.br

    ResponderEliminar