quarta-feira, 24 de março de 2010

O Horror Económico

Viviane Forrester tornou-se conhecida dos portugueses, no início da década de 90, depois da publicação do seu livro “O Horror Económico”,no qual tecia duras críticas e lançava diversos alertas sobre a globalização.
Quatro anos depois,o seu novo livro “Uma estranha ditadura” ( tradução directa do original) onde o ultraliberalismo voltou a ser alvo das suas críticas, foi outro sucesso de vendas. A mensagem que Viviane Forrester procura veicular nos seus livros é a de que o actual sistema funciona como uma fábrica de excluídos onde, em última análise, se encara o ser humano como mero receptor de produtos e serviços. Tece várias críticas à forma como os imigrantes são tratados nos países receptores, lamenta a indiferença dos políticos face aos problemas do sub-emprego, (forma de empregabilidade precária que dá muito jeito às estatísticas) e afirma que vivemos num sistema ditatorial que alastra à escala mundial.
Ao ler os livros de Viviane Forrester,os menos atentos poderão pensar que estão perante uma feroz adversária da globalização que aproveita a sua boa capacidade de escrita para denegrir, em livros, o ultraliberalismo que caracteriza a nova economia. É possível que alguns pensem mesmo que a autora é uma “gauchiste”, com toda a carga negativa que, para alguns, a palavra encerra.Puro engano!
De origem burguesa, filha de banqueiros e sem acção política conhecida, esta crítica literária do prestigiado jornal francês “Le Monde” afirma ser grande defensora da globalização e até foi convidada para participar no “Forum de Davos” onde os mais poderosos discutem o futuro do planeta à escala económica. Aí chamou a atenção para aquilo que considera dois grandes erros:Em primeiro lugar, a confusão que se estabeleceu entre globalização ( cujas vantagens enaltece) e “ultraliberalismo” que condena veementemente por considerar uma forma de destruição do ser humano e da própria economia.Em segundo lugar, advertiu que a globalização, enquanto “gerida pelo ultraliberalismo” está a conduzir a uma ditadura de tipo estalinista, muito bem camuflada, para que não pareça uma ideologia. Ou seja: como defende em “Uma Estranha Ditadura”, Viviane Forrester afirma que vivemos numa ditadura, mas não conhecemos o rosto do ditador, o que torna muito mais difícil combatê-lo. A ser assim, pergunto: afinal a profecia de Georges Orwell em 1984 cumpriu-se...apenas não demos por ela?
A posição de Viviane Forrester, face à globalização, não difere muito da que foi defendida pela maioria dos participantes no “Forum Social Mundial” que decorreu há meses em Porto Alegre. Nesta manifestação paralela à “Cimeira de Davos”, associações ambientalistas, de consumidores, ou de defesa dos direitos humanos, parecem estar de acordo com as vantagens da globalização. O que une todos aqueles que protestaram em Seattle, Praga, Copenhague, Londres, Génova ou Porto Alegre, e prometem continuar a fazê-lo ao longo dos próximos tempos nos mais variados pontos do Globo, é a face desumana da globalização que, aliada ao ultraliberalismo, está a gerar por todo o Mundo uma onda imparável de pobreza e exclusão e a permitir a concentração da riqueza e do Poder num cada vez mais reduzido número de pessoas.Tal como aconteceu no mundo do consumo, onde os consumidores se foram progressivamente afastando do produtor ou fornecedor de serviços, também neste mundo global os cidadãos se vêem cada vez mais afastados dos instrumentos de decisão e sabem que o voto que o regime democrático lhes confere está a perder significado.
É altura de pararmos para pensar e compreender que o centro da discussão não está em ser a favor ou contra a globalização, mas sim sobre a forma de a implantar. Quando todos compreendermos isso, talvez tudo recomece de novo. Parafraseando o Padre Vítor Melícias, numa conversa televisiva, talvez seja então chegada a altura de percebermos que temos dois olhos (um para ver o bem e outro para ver o mal) e verificar que temos andado com um deles tapado.
É que, se custa a compreender que paguemos num restaurante de Lisboa 3 euros por uma chávena de café da Papua, cuja colheita é paga aos trabalhadores daquele país a três cêntimos /hora, logo perceberemos, destapando o outro olho, porque razão no Perú as plantações de café estão a ser substituídas por plantações de coca. É que enquanto no mercado mundial o preço do café desceu aos níveis mais baixos desde 1994, o preço da folha de coca aumentou substancialmente...

8 comentários:

  1. bem explicada a posição desta Sra.; fiquei esclarecida, obrigada . Interesante

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  2. Concordo, mas se não forem os políticos a mudar alguma coisa, estamos bem atados de pés e mãos.
    Como os políticos são testas de ferro de interesses mais que obscuros, então está tudo mais que dito.

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  3. Anos 90 e por aí fora, "Horror Económico " foi livro de cabeceira... sempre o achei muito lúcido...
    Estarei atenta ao seguinte que desconhecia...
    Boa estadia por aí... e, aviões já vai ter, o resto logo se vÊ...
    Abraço

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  4. Partilho totalmente da mesma forma de ver, como aliás muito mais pessoas pelo mundo fora, mas temo que partilhar ideias não chegue. Enquanto muitos partilham as mesmas opiniões, trocando-as, o "monstro" vai-se afirmando e destruindo tudo, sem que nada o detenha.
    Vou vivendo cada dia e encontro nisso o segredo para ir vivendo relativamente feliz, mas tenho para mim a noção de que para alterar este rumo, só mesmo um acontecimento ao estilo do big bang!
    Abraço
    Cristina

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  5. Para mim é novidade que globalização e ultraliberalismo não sejam sinónimos! Parece que entendi. Mas pelos vistos andam tão associados que fazer essa destrinça talvez seja praticamente inútil.

    E sim, enquanto o poder económico vigorar, com as suas cegas regras capitalistas, esse "big brother" vai continuar a fazer a vida da população mundial num inferno de incertezas. Salvo os poderosos (os donos da massa, não os políticos que lhes prestam vassalagem), a quem praticamente tudo será permitido...

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  6. Bem, ele agora em vez do conhecido "go global" há o "go local" e a gigante Starbucks começou a adaptar os seus cafés aos bairros onde estão implantados e a dar-lhes nomes mais "acolhedores" do que Starbucks. Enfim, é uma Big Question esta da globalização/Americanização.

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  7. A lição está dada, como aluna aprendi, mas pergunto:quem aplica?
    Abracinho

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  8. "Der Terror der Ökonomie" tenho-o por abrir numa das minhas estantes,
    um presente de um amigo e antigo colega da faculdade, que é membro como a Viviane Forrester de ATTAC. Tenho ainda uma amiga também membro dessa organização .
    Em Portugal ou na França não sei como são os membros de ATTAC.
    Aqui na Alemanha são muitíssimo radicais mesmo fanáticos.

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